Até onde chega o trading de IA e quais são as perspectivas para as ações brasileiras?

Mercados Afastam Temores sobre Bolha de Inteligência Artificial

Os mercados financeiros demonstraram uma recuperação significativa em suas avaliações, reduzindo os temores em relação a uma suposta “bolha de inteligência artificial”. Esse cenário segue resultados robustos apresentados por grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2026, como os da Nvidia (NVDA). Essa é a avaliação que foi feita por analistas entrevistados pelo Money Times.

Desempenho dos Índices em Wall Street

Com esse movimento otimista, os índices da Wall Street, em especial o S&P 500 e o Nasdaq, que contam com uma significativa presença de ações de tecnologia, registraram ganhos expressivos nos últimos meses. Em maio, por exemplo, o Nasdaq teve um aumento superior a 8%, enquanto o S&P 500 subiu 5% e o Dow Jones avançou quase 3% durante o mesmo período.

Desempenho do IBOV e Contexto Atual

Em contrapartida, o Ibovespa (IBOV), que é o principal índice da bolsa brasileira, enfrentou uma sequência de dois meses de quedas. Em maio, o IBOV caiu 7,23%, marcando o pior desempenho mensal registrado desde fevereiro de 2023, que teve uma queda de 7,49%. Esse resultado surgiu após uma leve redução de 0,08% no mês de abril.

A razão por trás desse desempenho está relacionada à maior vinculação da bolsa brasileira a commodities. Essa estratégia é denominada trade de ativos pesados, com baixa obsolescência (HALO). Em contrapartida, outros mercados emergentes, como Taiwan e Coreia do Sul, tornaram-se mais atraentes em meio ao atual rali de inteligência artificial.

Fundo de Inovação do BTG Pactual

Adicionalmente, o fundo negociado em bolsa (ETF) GENB11 do BTG Pactual, que avalia a inovação das empresas pelo índice S&P 500/B3 Ingenius e se encontra listado na B3, teve um aumento de 12,94% apenas no último mês.

Até Quando Vai o ‘Trade de IA’?

Ainda assim, a tendência de “trade de IA” enfrenta desafios sustentáveis no médio prazo, conforme avaliadores da situação. O estrategista da Empiricus Research, Matheus Spiess, argumenta que a empolgação em torno das ações ligadas à inteligência artificial poderia ser apenas um “frenesi” temporário, já que a alta do S&P 500, por exemplo, se concentra em poucos nomes do segmento tecnológico.

“No médio prazo, é possível que o mercado comece a questionar o valuation das ações, especialmente após observar uma possível reversão na atratividade do capital”, diz Spiess.

Anteriormente, sublinha o estrategista da Empiricus, havia uma maior seletividade em relação a ativos norte-americanos, com parte do excedente direcionando-se para economias emergentes, como o Brasil. Essa movimentação foi acompanhada por resultados fracos do setor de tecnologia e pela estabilização do dólar. Atualmente, porém, observamos uma inversão nesse movimento, com a recuperação da tração da IA e indicadores de alta para a moeda norte-americana no horizonte.

“Contudo, essa situação continuará dependendo da saúde dos resultados corporativos de empresas ligadas à inteligência artificial”, ressalta Spiess.

Conforme a avaliação de Spiess, o que diferencia os Estados Unidos atualmente é o setor tecnológico, destacando a disrupção provocada por inteligência artificial e a conversão do retorno sobre capital (ROE) das empresas em investimentos na área (capex). A interrogação que se coloca é por quanto tempo essas empresas conseguirão manter esse nível de gastos. “Uma desaceleração do capex poderia gerar algum tipo de correção no mercado”, afirma.

Ativos Estão Caros

Segundo a análise de Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, o rali de IA deverá continuar a curto prazo, impulsionado pelos resultados expressivos das empresas norte-americanas de tecnologia. Contudo, uma continuidade prolongada dessa tendência se torna desafiadora, dado que os preços das ações estão em níveis elevados, exigindo que o investidor avance com cautela, já que muitos dos players já efetuaram suas movimentações há certo tempo.

“Se novas divulgações de resultados positivos surgirem de empresas de tecnologia, esse movimento pode ser sustentado por um período mais longo. Essa situação está ligada aos resultados financeiros”, afirma Mollo.

Além disso, Mollo destaca que outros fatores contribuíram para a queda do Ibovespa no curto prazo. Entre eles, estão o cenário eleitoral, o aumento dos preços do petróleo e a expectativa de juros elevados no Brasil, tudo isso devido aos riscos inflacionários.

“Atualmente, com a elevação do preço do petróleo se espalhando pela economia, a expectativa de que os juros devem cair rapidamente no Brasil foi descartada. Isso acaba aumentando o custo de capital das empresas”, detalha.

Concentração de Portfólio

Por sua vez, Daniel Gewehr, estrategista-chefe de ações do Itaú BBA, acredita que, no momento, não existem gatilhos claros que suportem uma reversão do rali vinculado à IA, nem seu potencial impacto no apetite a risco por partes das equities internas.

“Nesse cenário, o Brasil apresentou um desempenho relativo abaixo do esperado no curto prazo, refletindo tanto a rotação global em direção ao setor tecnológico quanto uma dinâmica macroeconômica menos favorável. A política monetária se mantém restritiva — prevemos que a Selic se encerrará em 13,75% ao longo do ano —, o que impõe um viés pressionado nas projeções de lucros para as empresas nacionais”, explica Gewehr.

“Dessa forma, uma eventual reversão desse movimento — mesmo sem gatilhos evidentes no presente momento — poderia resultar em ajustes significativos nos preços destes ativos”, conclui.

O IBOV Pode se Recuperar à Frente?

Atualmente, o Brasil está negociando com um desconto de aproximadamente 15% em relação à sua média histórica e proporciona exposição a setores de qualidade que possuem baixa correlação com o tema predominante, tais como infraestrutura, setor financeiro e real estate.

Neste contexto, Mollo, da Daycoval Corretora, prevê que o Ibovespa possa alcançar a marca de 205 mil pontos até o final de 2026, caso a situação da guerra no Oriente Médio encontre uma solução, os preços do petróleo voltem a cair e um ciclo maior de cortes na Selic se torne uma realidade.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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