Juros e a Economia Brasileira
O Banco Central está ciente do impacto significativo que a taxa de juros elevada, próxima aos dois dígitos, exerce sobre a economia do Brasil. Apesar disso, a expectativa é de que a taxa continue em patamares elevados devido a um cenário repleto de dificuldades. Essa análise foi feita por Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e sócio da Jubarte Capital, durante uma entrevista ao programa CNN Money.
Manutenção da Taxa de Juros
Recentemente, a autoridade monetária decidiu realizar cortes na taxa Selic, reduzindo-a de 15% para 14% ao ano. Contudo, segundo Figueiredo, essa não é uma tendência de afrouxamento monetário, mas sim um ajuste minimamente mais flexível. "O Banco Central vai manter a taxa de juros apertada. O que ele está fazendo é um ajuste fino, afirmando que não precisamos de uma taxa tão elevada, mas pode continuar com um grau de aperto um pouco menor", declarou.
O Comitê de Política Monetária (Copom) efetuou um corte de 0,25 ponto percentual na semana passada, uma redução já amplamente aguardada pelo mercado. Este foi o quarto corte do mesmo tamanho desde março, após um extenso período de juros mantidos em 15%.
O comunicado emitido pelo Banco Central foi interpretado pelo mercado como uma possibilidade de novo corte na próxima reunião, marcada para setembro, embora a maioria dos especialistas não considere essa decisão a mais acertada.
Desafios da Política Fiscal
Figueiredo acredita que a autoridade enfrenta diversas questões, sendo a política fiscal do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma das mais relevantes. As despesas do governo federal estão se dirigindo para o maior nível histórico, alcançado em novembro de 2020. Nesse período, os gastos da União totalizaram R$ 2,822 trilhões em doze meses, valores ajustados pela inflação.
Os dados divulgados em julho, referentes ao mês de maio, revelaram uma diferença de R$ 189,5 bilhões em relação ao ponto alto da pandemia. No mês anterior, os gastos totalizaram R$ 2,633 trilhões em doze meses.
"O governo, até o momento, fora da meta, expandiu mais de R$ 200 bilhões neste ano, resultando no que os economistas se referem como impulso fiscal, ou seja, um aumento considerável da demanda", explicou Figueiredo. Esses custos são motivo de preocupação para o Banco Central.
Impacto sobre a Dívida Pública
Os juros elevados incrementam o custo da dívida pública, uma vez que o financiamento do governo acaba sendo pressionado por essas taxas. A Dívida Bruta do Governo Geral, que inclui o governo federal, o INSS e os governos estaduais e municipais, subiu para 81,9% do PIB em junho, totalizando R$ 10,4 trilhões. Este representa o maior montante desde abril de 2021, quando a dívida estava em 82,62% do PIB.
Conforme informações da autoridade monetária, esse resultado representa um aumento de 0,9 ponto percentual do PIB em comparação com maio. Esse crescimento mensal é majoritariamente atribuído aos juros nominais apropriados (0,8 p.p.), às emissões líquidas de dívida (0,6 p.p.) e ao efeito da variação do PIB nominal (-0,5 p.p.).
"O Banco Central não possui muitas opções além disso, o que é muito desafiador, pois há um custo significativo da dívida pública em níveis elevados de taxa de juros", afirmou Figueiredo.
Riscos de Recessão
O economista também ressaltou o risco real de recessão. Em sua análise, se o Banco Central conseguir apenas manter ou reduzir marginalmente a taxa de juros, uma recessão no ano subsequente estaria "praticamente garantida".
"O Banco Central precisa das condições adequadas para reduzir os juros de forma mais substancial a fim de evitar um processo recessivo. Contudo, é para essa direção que estamos caminhando atualmente", concluiu Figueiredo.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


