A Bracell está se preparando para um novo ciclo de expansão na indústria brasileira. A empresa planeja investir até R$ 25 bilhões na construção de uma nova fábrica de celulose no Mato Grosso do Sul, com uma capacidade estimada próxima de 2,8 milhões de toneladas por ano.
Este projeto ocorre pouco tempo após a inauguração de uma megaplanta em Lençóis Paulista (SP), que teve um investimento de R$ 15 bilhões e é considerada um dos maiores aportes privados recentes no Estado de São Paulo.
A Bracell é controlada pelo grupo asiático Royal Golden Eagle (RGE), que tem sede em Singapura e atua globalmente nos setores de fibras, papel e bioenergia. A empresa posicionou o Brasil como um centro estratégico para sua expansão industrial, sendo o Centro-Oeste a próxima fase desse projeto.
Bracell e o projeto bilionário no Mato Grosso do Sul
O novo projeto encontra-se na fase de estruturação, tendo já obtido a licença prévia ambiental no Mato Grosso do Sul. A localização prevista é próxima à BR-267, nas áreas de Água Clara e Bataguassu, a poucos quilômetros do perímetro urbano.
O investimento é mencionado em diferentes fontes públicas; inicialmente calculado em torno de R$ 16 bilhões, pode chegar a R$ 25 bilhões, dependendo do escopo final, da infraestrutura necessária e da configuração produtiva.
A capacidade industrial projetada gira em torno de 2,8 a 2,9 milhões de toneladas anuais de celulose, com possibilidade de flexibilidade na produção entre celulose kraft — voltada para o mercado de papéis — e celulose solúvel, utilizada, principalmente, na indústria têxtil e química.
O empreendimento deverá consumir aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos de eucalipto anualmente e irá operar com um sistema de cogeração elétrica que utiliza biomassa e subprodutos industriais.
Durante a fase de construção, a expectativa é que cerca de 12 mil trabalhadores sejam mobilizados. Ao longo da operação, o número estimado de empregos diretos permanentes é de 2 mil.
Licenças ambientais e programas obrigatórios
A licença prévia foi aprovada pelo Conselho Estadual de Controle Ambiental (CECA), após a análise do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), além da realização de uma audiência pública.
Para que a empresa avance para a fase de construção, será necessária a Licença de Instalação. Este processo inclui a execução de 26 programas ambientais, que abrangem o monitoramento da fauna e flora, qualidade da água superficial e subterrânea, controle de emissões atmosféricas, monitoramento de ruídos, gestão de resíduos, plano de ação emergencial e a avaliação de desempenho ambiental.
A instalação da nova fábrica também exigirá um Plano Básico Ambiental (PBA), que contempla aspectos relacionados à infraestrutura urbana, habitação, saúde e qualificação profissional, considerando o impacto populacional que se espera.
Energia e transmissão são condicionantes
A viabilidade do projeto está intimamente ligada à infraestrutura energética necessária.
Para dar início à operação, a Bracell necessitará de cerca de 66 megawatts (MW) de fornecimento externo. Uma vez estabilizada, a fábrica deverá gerar até 400 MW, sendo possível injetar cerca de 200 MW excedentes na rede nacional.
Segundo autoridades estaduais, o Operador Nacional do Sistema (ONS) garantiu a oferta de energia “na porta da fábrica” a partir de 2029. Entretanto, a ampliação da rede de transmissão é considerada fundamental para a absorção da energia excedente.
O Estado está em negociação de novos leilões de transmissão para antecipar a disponibilidade da malha elétrica.
A base da Bracell construída em São Paulo
O projeto no Centro-Oeste se baseia na experiência adquirida em Lençóis Paulista.
A unidade paulista, inaugurada como parte do Projeto Star, recebeu mais de R$ 15 bilhões em investimentos e ocupa uma área de 1,6 milhão de metros quadrados.
A fábrica é flexível e pode produzir até:
- 3 milhões de toneladas por ano de celulose kraft, ou
- 1,5 milhão de toneladas por ano de celulose solúvel
No auge das obras, mais de 14 mil trabalhadores foram mobilizados. A construção ocorreu entre 2019 e 2021, incluindo o período crítico da pandemia.
Modelo industrial sem combustível fóssil
De acordo com a empresa, a planta opera sem o uso de combustíveis fósseis. A energia é gerada a partir de subprodutos do processo industrial, em especial lignina e biomassa.
A capacidade instalada varia entre 409 MW e 420 MW, com um excedente entre 150 MW e 180 MW, que é exportado ao Sistema Interligado Nacional.
Esse volume energético seria suficiente para suprir cerca de 750 mil residências, com base em estimativas da empresa.
A unidade também possui a maior caldeira de recuperação em operação no mundo, capaz de queimar 13 mil toneladas de sólidos secos por dia e gerar 2 mil toneladas de vapor por hora.
A infraestrutura inclui uma chaminé de 144 metros de altura, 68 quilômetros de tubulações que se conectam ao Rio Tietê e uma subestação ligada ao sistema em 440 kV.
Água, reaproveitamento e químicos
A empresa informa que o consumo médio é de 18 metros cúbicos de água por tonelada de celulose produzida, com um consumo líquido estimado de 0,3 m³ após o reaproveitamento e tratamento do efluente tratado.
Além disso, a companhia afirma recuperar 97% dos produtos químicos utilizados durante o processo produtivo.
Base florestal e viveiro
A estratégia industrial da Bracell é apoiada por uma base florestal própria.
No estado de São Paulo, são 274 mil hectares administrados, dos quais 183 mil hectares são destinados à produção e 75 mil hectares à preservação.
Na Bahia, a empresa gerencia aproximadamente 230,8 mil hectares, sendo que quase metade destina-se à preservação da vegetação nativa.
O viveiro situado em Lençóis Paulista ocupa 10 hectares, sendo a meta anual de 92 milhões de estacas que resultaram em 62,5 milhões de mudas plantadas.
O ciclo de cultivo de eucalipto no Brasil leva cerca de seis anos até a colheita.
Tissue e diversificação da Bracell
Além da celulose, a empresa destinou R$ 2,5 bilhões para uma nova linha de papel tissue – papéis destinados a uso sanitário e doméstico, com capacidade para produzir 240 mil toneladas por ano.
Com a soma das unidades na Bahia e Pernambuco, a produção posiciona a empresa como um importante participante no mercado nacional.
Logística e exportações
Parte da produção é transportada por rodovia até um terminal intermodal em Pederneiras, de onde prossegue ao Porto de Santos.
A companhia reporta ter investido R$ 400 milhões na estrutura portuária, exportando mais de 8 milhões de toneladas desde o ano de 2020.
A Bracell também começou a utilizar caminhões elétricos que são abastecidos com energia gerada na própria fábrica, o que resulta em uma redução estimada de 132 mil quilos de CO₂ por ano.
Próximo ciclo industrial
Caso o projeto de até R$ 25 bilhões se concretize, a nova fábrica no Mato Grosso do Sul consolidará a Bracell como um dos principais motores de investimento industrial recente no país.
A expansão no Centro-Oeste não só representa um aumento de capacidade, mas também a consolidação de um corredor industrial que integra floresta, bioenergia, infraestrutura e exportação em grande escala.
Fonte: timesbrasil.com.br

