Participação do Brasil na Hannover Messe 2026
A participação do Brasil na Hannover Messe 2026 foi marcada por um forte componente político e diplomático. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido com destaque pelo chanceler alemão Friedrich Merz, e a agenda do evento foi centrada em anúncios de investimentos e na pauta de transição energética. Esse movimento não apenas reforçou a visibilidade do país no principal palco global da indústria, mas também evidenciou a distância que ainda existe entre os anúncios e a efetiva materialização de projetos.
Investimentos em Hidrogênio de Baixo Carbono
Um dos principais anúncios foi a formalização de aproximadamente 2 bilhões de euros em investimentos focados em hidrogênio de baixo carbono e seus derivados. As empresas Siemens e Thyssenkrupp estiveram envolvidas nesse processo, além da articulação promovida pela ApexBrasil. O projeto, que será localizado no Rio Grande do Norte, propõe a produção de hidrogênio, amônia verde, e-metanol e ureia. Esta iniciativa se alinha à estratégia brasileira de inserção nas cadeias globais da economia verde. No entanto, apesar do volume financeiro e do peso simbólico desse anúncio, interlocutores do setor destacam que esses projetos ainda necessitam de uma estrutura regulatória adequada, financiamento de longo prazo e estabilidade de demanda para que possam ser implementados em escala industrial.
Reposicionamento do Brasil na Indústria Global
No aspecto político, o discurso predominante destacou o reposicionamento do Brasil como um ator relevante na nova indústria global, principalmente no que se refere à transição energética. Entretanto, entre os participantes do evento, prevaleceu a percepção de que a feira funcionou mais como uma plataforma para a sinalização de intenções do que como um espaço para a finalização de contratos que possam ser imediatamente executáveis.
Visão do Presidente da ApexBrasil
Laudemir André Müller, presidente da ApexBrasil, acredita que existem fundamentos para um futuro otimista, mas alerta que os resultados demandarão tempo para amadurecer. Ele destaca ainda as assimetrias de percepção entre o Brasil e a Europa no que se refere ao debate econômico e regulatório, afirmando que a Europa muitas vezes não compreende a fundo o modelo agrícola brasileiro, que se desenvolve em um ambiente tropical. Müller comenta que há uma tendência, lamentavelmente, de os europeus avaliarem o Brasil segundo os próprios parâmetros de sua economia.
Crescimento nas Exportações Brasileiras
O presidente da ApexBrasil também ressalta que, mesmo em um cenário global adverso, o Brasil tem mantido um crescimento consistente em seu comércio exterior. As exportações brasileiras aumentaram, passando de US$ 180 bilhões há dez anos para US$ 350 bilhões no último ano, superando a média global. Müller menciona ainda o acordo entre Mercosul e União Europeia como um dos fatores que podem ter impacto imediato, o qual prevê redução tarifária para 543 produtos e uma estimativa de cerca de US$ 1 bilhão a mais em exportações no primeiro ano de vigência do acordo.
Visão Internacional e Críticas ao Modelo Produtivo
Müller reconhece que parte da percepção internacional sobre o Brasil está em fase de transição. “O país começa a ser visto também como fornecedor de soluções industriais, e não apenas de commodities”, diz ele, citando áreas como biocombustíveis, inteligência artificial e minerais críticos. Em relação às críticas ao modelo produtivo brasileiro, especialmente por parte do setor agrícola europeu, Müller argumenta que muitas resistências surgem de assimetrias de informação e de diferenças estruturais entre os sistemas produtivos. Ele defende que os acordos comerciais devem ser sustentados por mecanismos de equilíbrio, como cotas e fases de implementação, para que sejam efetivos.
Desafios Futuros
Em suma, a presença brasileira na Hannover Messe possibilitou uma ampliação do espaço político e econômico do Brasil no debate global sobre a transição energética. No entanto, fora do ambiente diplomático, o desafio permanece: transformar os anúncios de impacto simbólico em projetos que sejam efetivamente executados, devidamente financiados e sustentáveis ao longo do tempo.
Fonte: veja.abril.com.br


