O Brasil apresenta uma posição estratégica para atrair investimentos na área de inteligência artificial, resultado da combinação de diversos fatores como escala econômica, disponibilidade de talentos, acesso a dados, infraestrutura e uso de energia renovável. Esta análise foi realizada por Cathy Li, líder do Centre for AI Excellence do Fórum Econômico Mundial, em uma entrevista exclusiva ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
A declaração ocorreu durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, onde a executiva comentou um relatório que aponta que a adoção de inteligência artificial tem o potencial de adicionar entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,7 trilhão anualmente à economia da América Latina, em parceria com a consultoria McKinsey.
Conforme mencionado por Cathy, os maiores avanços devem ocorrer em setores onde a região já possui uma vantagem competitiva, como na agricultura, energia, mineração e turismo. Os serviços financeiros e o setor público também se destacam como áreas com grande potencial de transformação.
“A região não precisa competir em todos os aspectos. O foco deve ser em suas áreas de força”, ressaltou.
No contexto brasileiro, Cathy enfatizou que o país se destaca como a maior economia da região, com universidades de qualidade, um ecossistema crescente de fintechs e uma base significativa de dados públicos.
Ela também destacou que o Chile, o Uruguai e o Brasil são reconhecidos como líderes em prontidão para a inteligência artificial na América Latina. O México, por sua vez, é mencionado como um mercado relevante, devido aos investimentos em infraestrutura de nuvem e inteligência artificial.
Todavia, Cathy ressalta que o Brasil possui um conjunto particular de vantagens.
“A união de competências, talentos, dados, infraestrutura e energia renovável posiciona o Brasil de maneira única”, afirmou. “O desafio será transformar essa posição em investimentos coerentes e ação política eficaz.”
Produtividade é um histórico desafio
Cathy Li destacou que a produtividade continua a ser um dos principais desafios estruturais enfrentados pela América Latina. O problema não se limita a questões tecnológicas, mas também está relacionado à fragmentação dos mercados, ao baixo investimento em educação e infraestrutura, além da dificuldade em transitar para setores mais voltados ao conhecimento.
De acordo com a executiva, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta para enfrentar esse desafio, desde que não seja utilizada apenas de forma superficial pelas empresas.
“O fundamental é que a maioria das empresas ainda usa a IA apenas em suas margens”, observou. “Quando a inteligência artificial for incorporada aos processos centrais, o impacto geral será bastante significativo.”
Cathy menciona que quase metade das empresas na América Latina já experimentou algum tipo de inteligência artificial, embora apenas 23% consigam realmente gerar valor econômico a partir dessa tecnologia.
Ela argumenta que a primeira mudança necessária está na mentalidade das empresas. É essencial que deixem de ver a IA apenas como uma ferramenta isolada para aumentar a produtividade e comecem a utilizá-la para redesenhar operações completas.
“As empresas que alcançam resultados mais expressivos não inserem a IA nas estruturas já existentes; elas repensam esses processos do zero”, afirmou.
A velocidade de implementação também é crucial. Cathy explica que organizações que conseguem extrair valor da IA geralmente conseguem executar suas iniciativas em um período de seis a nove meses, enquanto aquelas que não obtêm impacto tendem a levar mais de um ano.
A importância das pequenas e médias empresas
A executiva ainda enfatizou a necessidade de incluir as pequenas e médias empresas na adoção da inteligência artificial. Ela observou que 59% das PMEs na região afirmam não obter valor mensurável com a tecnologia, apesar de representarem 99,5% das empresas na América Latina.
Para Cathy, é essencial promover iniciativas de parceria entre o setor público e privado, proporcionando acesso a ferramentas, modelos e capacitação para que os benefícios econômicos da inteligência artificial se materializem em larga escala.
Ela citou exemplos bem-sucedidos já existentes na região, como bolsas de estudo em inteligência artificial na Argentina, centros de pesquisa aplicada no Brasil e programas de habilidades digitais no México.
“Neste momento, a oportunidade é escalar o que já está funcionando, ao invés de começar tudo do zero”, concluiu.
A inteligência artificial como vantagem competitiva verde
Cathy declarou que o consumo energético dos data centers torna a localização da infraestrutura cada vez mais relevante. Nesse aspecto, o Brasil apresenta uma vantagem significativa, uma vez que 88% de sua energia é gerada a partir de fontes renováveis, de acordo com a executiva.
“Esse fato não representa apenas um benefício ambiental, mas também uma vantagem competitiva”, afirmou.
Conforme mencionado, empresas e governos com metas de emissões zero tendem a preferir localidades com redes limpas para estabelecer sua infraestrutura de computação.
“A América Latina, especialmente o Brasil, está excepcionalmente posicionada para atrair esse tipo de investimento”, disse. “Embora a vantagem exista, é necessário que ela seja ativada.”
Para isso, segundo Cathy, serão necessárias ações políticas decisivas, incentivos ao investimento, clareza regulatória, infraestrutura adequada e uma narrativa nacional convincente em torno da chamada inteligência artificial verde.
Regulação comum não requer consenso político
Quando questionada sobre a possibilidade de colaboração regional em inteligência artificial diante da fragmentação política da América Latina, Cathy argumentou que a integração não precisa iniciar pela resolução de todas as divergências entre os países.
A especialista acredita que a região deve começar a trabalhar em áreas técnicas nas quais os interesses já sejam convergentes, como padrões de dados, portabilidade, infraestrutura de pesquisa compartilhada e mobilidade de talentos.
“A governança como vantagem competitiva é realmente o caminho certo a se seguir”, enfatizou.
De acordo com Cathy, países que desenvolverem estruturas claras e interoperáveis mais precocemente têm maior chance de atrair investimentos, talentos e parcerias.
“Essa abordagem cria um sistema de incentivos que supera as limitações impostas por diferenças políticas”, observou.
Fonte: timesbrasil.com.br