BTG aponta possibilidade de redução de até 3 pontos na Selic em 2026, apesar de riscos fiscais que restringem o otimismo.

BTG aponta possibilidade de redução de até 3 pontos na Selic em 2026, apesar de riscos fiscais que restringem o otimismo.

by Ricardo Almeida
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Manutenção da Selic e Perspectivas para 2026

Após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano, com indicação de que um ciclo de afrouxamento monetário pode se iniciar em março, a principal dúvida no mercado se concentrou nas possíveis variações dessa taxa ao longo de 2026.

Projeções para Corte na Taxa de Juros

Tiago Berriel, sócio e estrategista-chefe do BTG Pactual, apresenta uma projeção que aponta para um corte total de 3 pontos percentuais na Selic em 2026, prevendo, mais adiante, uma redução acumulada de até 4,5 pontos percentuais. Essa análise foi realizada durante um painel mediado por Stefanie Birman, sócia e estrategista do BTG Pactual, durante a CEO Conference 2026, ocorrida na última terça-feira (10). Segundo Berriel, a incerteza permanece elevada, especialmente porque o Brasil se encontra em um ano eleitoral, fator que tradicionalmente aumenta a volatilidade do mercado.

De acordo com Berriel, “é muito difícil prever a trajetória dos juros este ano, pois muitos eventos estão em andamento. Nunca enfrentamos, em um ano eleitoral, uma expectativa de ciclo de juros tão significativa”. Ele acredita que o Banco Central deve adotar uma abordagem cautelosa no início do processo de cortes. “A expectativa é de que os cortes comecem com 50 bps [0,5 ponto percentual]. Em seguida, teremos desdobramentos no cenário eleitoral, que incluem a definição de candidatos, podendo resultar em volatilidade cambial”, afirmou.

Possível Aceleração nos Cortes

Se as eleições de outubro transcorrem sem grandes surpresas, Berriel indica que existe espaço para uma aceleração nos cortes da taxa. Contudo, essa possibilidade depende de várias condições, como:

  • Não haver uma política fiscal mais expansionista;
  • Ausência de novidades em termos de aumento de gastos;
  • Indicadores de atividade sem surpresas significativas;
  • Não ocorrer eventos extremos no câmbio.

“Atualmente, isso significa que não teremos uma política fiscal muito mais expansionista, nem eventos cambiais críticos. Ou seja, um cenário eleitoral tranquilo que não cause grande impacto no mercado”, afirmou Berriel. Nesse contexto, ele acredita que as próximas reuniões do Copom serão cruciais. “Nas duas próximas reuniões, teremos um cenário mais definido. A proposta é iniciar com os primeiros 100 bps em cortes e assim teremos tempo para entender melhor essa incerteza”, concluiu.

Alerta Fiscal para o Futuro Governo

Durante o mesmo painel, Mansueto Almeida, sócio e economista-chefe do BTG Pactual, destacou a importância da situação das contas públicas e enfatizou a necessidade de um controle rigoroso dos gastos, independente de quem assuma a Presidência da República. Almeida mencionou que a atual gestão se viu obrigada a aumentar a arrecadação em decorrência do crescimento expressivo das despesas. “Nos últimos oito anos, o gasto público federal cresceu 9%. Ao final deste governo, devemos encerrar com o gasto público federal crescendo 20%”, declarou.

Ele observou que o aumento das despesas ajuda a explicar a elevada taxa de juros do Brasil. “O governo gastou excessivamente, fazendo com que a inflação aumentasse e, como resultado, o Brasil agora apresenta a maior taxa de juros do mundo”, complementou Almeida. O economista também ressaltou que o país deve terminar o ano com um déficit nominal médio de 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB), um nível considerado elevado em comparação internacionalmente.

“França, Inglaterra e EUA, apesar de enfrentarem problemas fiscais, apresentam déficits nominais entre 5% a 6% do PIB”, destacou Almeida. Ele também colocou em perspectiva a melhora recente de alguns indicadores. “Alguém poderia argumentar que a economia está melhorando. Na realidade, a redução da inflação observada no último ano, em comparação com este ano — esperando-se uma inflação de 4,5% — resulta, novamente, da alta taxa de juros”, analisou.

Ademais, Almeida mencionou a desvalorização do dólar como um fator que contribuiu para a situação atual, mas reforçou que essa ocorrência não foi fruto de avanços internos. “Não foi devido a avanços nas reformas no Brasil. Isso foi ocasionado pelo receio das políticas incertas nos Estados Unidos, que resultaram em uma rotação de carteiras e atraíram um grande fluxo de capitais estrangeiros para o Brasil”, declarou.

Ele afirmou que não será viável replicar estratégias recentes nos próximos quatro anos. “Não podemos repetir nos próximos quatro anos o que foi feito anteriormente. Um ajuste fiscal no próximo governo precisa ser focado nas despesas; temos que controlar os gastos”, enfatizou Almeida.

Limitações para o Crescimento do Brasil

Almeida também alertou sobre as perspectivas de crescimento econômico. Segundo ele, os fundamentos da economia brasileira não são promissores e será complicado manter o mesmo desempenho dos anos anteriores. “O ciclo de crescimento do Brasil após a pandemia começou a partir de um ponto em que o desemprego era de 12%; existia uma grande quantidade de pessoas que poderiam ser reintegradas ao mercado de trabalho. No entanto, a realidade atual é diferente, uma vez que o desemprego no Brasil é de 5,1%”, indicou.

Na visão do economista, o crescimento potencial do PIB é reduzido. “Ao discutirmos qual é o crescimento potencial do PIB, encontramos dificuldades para projetar números superiores a 1,5%, dado que a força de trabalho no Brasil cresce 0,8% ao ano e, se formos otimistas, a produtividade poderia crescer até 1%. Portanto, um crescimento de 2% já será um desafio”, afirmou.

Sem implementar um ajuste fiscal focado nas despesas, o panorama se torna ainda mais desfavorável. “Se não buscarmos um controle fiscal por meio da contenção de gastos, mesmo que gradual, não teremos espaço para reduzir juros; a dívida continuará a crescer rapidamente e, em algum momento, isso se tornará um problema significativo”, advertiu Almeida.

Análise da Política Monetária nos EUA

A discussão sobre política monetária também direciona a atenção para os Estados Unidos. Eduardo Loyo, sócio do BTG Pactual, defendeu a adoção de uma postura mais “hawkish” por parte do Federal Reserve (Fed). “Para a política monetária americana, em minha perspectiva, seria mais adequado adotar uma abordagem que priorize a desinflação que ainda está por vir — o que chamamos de ‘última milha’ — além de mitigar a possibilidade da inflação permanecer acima da meta de 2% do Fed, mesmo com o risco de que, por um tempo, a inflação fique abaixo desse objetivo”, justificou.

Apesar de suas considerações, Loyo observou que a maioria dos envolvidos no debate deseja uma queda na taxa de juros nos Estados Unidos. Atualmente, essa taxa está situada entre 3,50% e 3,75% ao ano.

“O governo norte-americano almeja a redução da taxa de juros, mas sem descontentar o mercado. Por sua vez, o mercado também busca cortes, mas sem que isso pareça uma estratégia apenas para agradar ao governo. Quase todos desejam ver a taxa de juros reduzida”, concluiu Loyo.

Ele ainda ressaltou que as condições para a redução dos juros nos EUA são consideravelmente mais complicadas do que no Brasil, indicando um cenário desafiador para a política monetária americana.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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