China está enfrentando um declínio estrutural? Novos dados que sustentam a tese da ‘Grande Fratura’

Em 2024, foi publicado “A Grande Fratura”, que apresenta um diagnóstico sobre o declínio estrutural da China, fundamentado em quatro aspectos principais: demografia irreversível, bolha imobiliária, dívida local insustentável e exclusão tecnológica nos semicondutores avançados.

Os dados coletados até 2026 introduzem três novas camadas que tornam o diagnóstico não apenas mais preciso, mas também mais urgente.

O imóvel como espelho da riqueza que desaparece

Segundo o Bank for International Settlements, que atua como um banco central para os bancos centrais, os preços reais dos imóveis na China reverteram para níveis semelhantes aos de 2006. Isso representa uma perda de 20 anos de valorização dos imóveis.

Esse dado não é meramente teórico. Pesquisas sobre a riqueza das famílias chinesas, incluindo estudos realizados pelo People’s Bank of China, indicam que cerca de 70% da riqueza dos lares está concentrada em bens imóveis, uma proporção que é mais do dobro da observada nos Estados Unidos.

Quando o mercado imobiliário entra em um período prolongado de declínio, o efeito sobre a riqueza familiar é imediato e severo. As famílias tornam-se mais cautelosas com o consumo, não por pessimismo, mas por uma questão de matemática: o principal ativo do seu balanço patrimonial vem perdendo valor real ano após ano.

O governo chinês tentou mitigar essa situação através de transferências diretas de renda para as famílias. Entretanto, de acordo com análises realizadas pela Dragonomics, uma respeitada fonte de análise econômica independente sobre a China, os efeitos dessas medidas têm sido limitados, pois muitas famílias utilizam uma parte significativa dos recursos para recompor seu patrimônio e aumentar suas reservas, após anos em que o mercado imobiliário apresentou perdas.

Esse fenômeno explica um paradoxo que pode parecer estranho: como a China pode apresentar o maior superávit comercial já registrado, de US$ 1,2 trilhão em 2025, enquanto o consumo interno desacelera? Isso ocorre porque o modelo econômico da China não se baseia na demanda interna, mas na exportação de produtos que os chineses não conseguem consumir.

O motor de exportações perde força

Em março de 2026, as exportações chinesas cresceram apenas 2,5%, muito abaixo da estimativa de 8,6%, marcando o ritmo mais fraco dos últimos seis meses. No mesmo período, as exportações para os Estados Unidos caíram 26,5%. Após registrar um superávit de US$ 213 bilhões nos dois primeiros meses do ano, o saldo comercial da China caiu para US$ 51 bilhões em março.

Um modelo de crescimento baseado nas exportações é intrinsecamente frágil, pois depende de variáveis externas que estão além do controle de Pequim. Quando a demanda global diminui — seja devido a uma recessão, tarifas comerciais ou choques de energia —, não existe uma demanda interna capaz de compensar essa queda.

De acordo com a Dragonomics, o crescimento econômico sustentado por exportações, enquanto o consumo interno desacelera, representa uma fragilidade estrutural, que é obscurecida pela aparente força do setor externo.

As terras raras e a alavancagem que se corrói

A China detém cerca de 60% da produção global de terras raras e mais de 80% do processamento e refino desses recursos. Durante décadas, esse controle foi considerado uma alavancagem estratégica permanente por diversos analistas.

No entanto, existe um padrão histórico que frequentemente é ignorado por esses especialistas: sempre que a China utiliza essa alavancagem como uma forma de pressão, isso incentiva o desenvolvimento de alternativas.

Um exemplo é a restrição das exportações de terras raras imposta pela China ao Japão em 2010, durante um conflito territorial. Como resposta, o Japão começou a investir em alternativas ao longo da década seguinte. Os resultados dessa iniciativa podem ser observados em junho de 2026, quando três empresas conseguiram desenvolver substitutos comerciais reais.

A Niron Magnetics, uma startup norte-americana, está criando ímãs de ferro e nitrogênio, evitando o uso de terras raras, e prevê a produção de 1.500 toneladas por ano até 2028. A empresa alemã ZF Friedrichshafen desenvolveu um motor elétrico que não utiliza ímãs permanentes. Além disso, a Daido Steel, empresa japonesa, já produz ímãs sem a utilização de terras raras pesadas, que já estão em uso na Honda.

Embora essas inovações não eliminem, a curto prazo, a vantagem da China nesse setor, a tendência se torna clara e irreversível: a alavancagem proporcionada pelas terras raras está sendo corroída pelo mesmo mecanismo que resulta na erosão de qualquer monopólio — a resposta do mercado à coerção.

O padrão estrutural

Ao observar os quatro pilares juntos — imóveis, exportações, semicondutores e terras raras —, surge um padrão que transcende cada dado individual.

A China ainda exibe um atraso significativo em relação aos líderes globais na produção de HBM (High Bandwidth Memory), sendo esta tecnologia atualmente dominada por fabricantes dos Estados Unidos e de seus aliados, como Micron, Samsung e SK Hynix. A combinação entre a liderança tecnológica desses países e os controles de exportação impostos pelos EUA limita severamente o acesso da China aos chips mais avançados.

Esses problemas não são isolados. Eles são expressões de um único sistema econômico — uma economia que cresceu durante quatro décadas por meio de um modelo que atualmente está atingindo seus limites estruturais em várias frentes simultaneamente.

O colapso não é linear

No livro “A Grande Fratura”, não se prevê um colapso imediato do sistema. Regimes autoritários não desmoronam de maneira contínua como as economias de mercado. Em vez disso, acumulam pressão internamente e sufocam os sinais de fratura por meio de controle político. Eventualmente, esses sistemas alcançam pontos de ruptura que não seguem uma linearidade — semelhante ao que ocorreu com a União Soviética, que surpreendeu muitos analistas ocidentais pela velocidade com que seu colapso ocorreu no início dos anos 1990.

O líder chinês, Xi Jinping, promoveu a eliminação de mecanismos de feedback que poderiam corrigir falhas do sistema. Generais foram removidos com base em critérios políticos, e não em competência; empresários bem-sucedidos foram intimidados, e dados econômicos negativos foram suavizados. Quanto mais rígido é o controle, mais abrupta tende a ser a ruptura que eventualmente ocorrerá.

O que isso significa

Para os investidores, o abismo de produtividade entre economias que incorporam inteligência artificial, com infraestrutura tecnológica avançada, e aquelas que permanecem excluídas desse processo, deverá aumentar de maneira não-linear na próxima década. A China está em processo de exclusão das camadas mais críticas desse ciclo.

Os dados atuais corroboram o processo que foi diagnosticado. Embora não comprovem o momento exato, eles confirmam a direção em que os eventos estão se desenrolando.

A “Grande Fratura” continua a se desenvolver. Os números estão disponíveis.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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