Impact do Conflito no Oriente Médio nas Cadeias de Suprimento
O conflito no Oriente Médio causou interrupções no comércio pelo Estreito de Ormuz, o que pode resultar em consequências que vão além dos mercados de energia, com um risco significativo de aumento nos preços globais dos alimentos.
O estreito é uma via essencial não só para o transporte de petróleo e gás, mas também para fertilizantes fundamentais para a agricultura mundial. Analistas afirmaram à CNBC que as interrupções podem elevar os custos de cultivo, reduzir os rendimentos das colheitas e, por fim, encarecer os alimentos.
De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares (IFPRI), "custos mais altos de energia e insumos podem reacender a inflação global dos alimentos, precisamente quando os preços de varejo haviam retornado a níveis mais históricos em muitos países".
Raj Patel, professor de pesquisa na Universidade do Texas, alertou que as interrupções nos fertilizantes ligadas ao conflito podem amplificar as pressões sobre a segurança alimentar global por vários canais de forma simultânea.
"Em suma, o impacto será significativo e mais rápido do que as pessoas imaginam", afirmou Patel. "O Estreito de Ormuz é um ponto crítico para fertilizantes. Catar, Arábia Saudita, Omã e Irã juntos fornecem uma parte substancial da ureia e fosfatos comercializados no mundo, e praticamente todo esse volume transita pelo Hormuz".
Os países que dependem de importações de alimentos, assim como aqueles que são dependentes de fertilizantes, podem enfrentar um aumento nos custos em questão de semanas, especialmente durante os períodos críticos de plantio, segundo observadores do setor.
Países do Golfo: Risco Imediato
A primeira região a sentir os efeitos deve incluir os países mais próximos ao conflito.
"Regiões como o GCC (Gulfo Cooperação do Conselho) estão mais expostas a aumentos de preços de alimentos no curto prazo, devido à sua forte dependência de importações marítimas que transitam pelo Estreito de Ormuz", indicou Bin Hui Ong, analista de commodities da BMI.
As economias do Golfo Pérsico, como Catar, Bahrein, Kuwait e Arábia Saudita, dependem fortemente de alimentos importados que transitam pelo Estreito de Ormuz. Se o transporte continuar prejudicado, as cargas precisarão ser desviadas por outros corredores ou transportadas em terra a um custo muito mais elevado, afirmam os analistas.
"Em relação a escassezes no curto prazo, todos os países ao redor do Golfo Pérsico a oeste de Hormuz terão dificuldades em obter importações alimentares", disse Mera. "Esses países precisarão encontrar rotas alternativas".
Ele observou que estados mais ricos, como Catar, Bahrein, Arábia Saudita e Kuwait, têm recursos financeiros para importar alimentos por via aérea ou por rotas terrestres, se necessário, mas vizinhos mais pobres podem enfrentar maiores dificuldades.
"Iraque pode sofrer. O Irã também enfrentará escassez", acrescentou Mera.
África Subsaariana: A Região Mais Vulnerável
Além da região do Golfo, as maiores ameaças podem estar em partes da África Subsaariana, onde os agricultores dependem fortemente de fertilizantes importados e os lares gastam uma grande parte de sua renda com alimentos.
"A África Subsaariana é a região mais vulnerável", afirmou Patel. Dados da Universidade do Texas em Austin indicam que mais de 90% do fertilizante consumido na África Subsaariana é importado, em sua maioria de fora do continente.
Culturas que demandam altos níveis de nitrogênio, como o milho, um alimento essencial na região, são particularmente sensíveis a escassezes de fertilizantes, o que aumenta o risco de colheitas menores e preços de alimentos mais altos, conforme ressaltaram outros especialistas.
"As regiões mais pobres e mais densamente povoadas são as que provavelmente sofrerão mais", disse Mera, mencionando partes da África Subsaariana.
Preocupações na Ásia
A Ásia do Sul e do Sudeste pode também enfrentar pressão crescente sobre os custos.
Grandes economias agrícolas, como Índia, Bangladesh, Tailândia e Indonésia, dependem bastante de fertilizantes importados do Golfo. Uma interrupção prolongada pode elevar os custos para os agricultores durante as principais épocas de plantio.
"Um agricultor na Tailândia que depende 90% de importações, comprando ureia que é produzida a partir de gás, transportada através do Hormuz e precificada em dólares que estão se fortalecendo devido a riscos geopolíticos, enfrenta um choque de custos em todos os aspectos simultaneamente", afirmou Patel.
Os alimentos básicos na região, que incluem arroz e milho, são algumas das culturas que mais demandam fertilizantes.
Mera destacou a Indonésia e Bangladesh como os países que provavelmente serão os mais afetados na região.
Perspectivas de Longo Prazo
Se os agricultores responderem ao aumento nos preços dos fertilizantes reduzindo seu uso, os rendimentos das colheitas podem cair, o que empurraria os preços dos alimentos para cima.
O Brasil, um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, poderá enfrentar custos crescentes se os mercados de fertilizantes se tornarem mais restritivos, segundo analistas. O Brasil importa cerca de 85% de seus fertilizantes, tornando a produção de soja e milho altamente dependente das cadeias de suprimento globais.
Uma interrupção prolongada durante a temporada crítica de importação de fertilizantes do Brasil pode afetar profundamente os mercados globais de cultivo, impactando eventualmente os preços dos alimentos.
Mesmo que o volume de colheitas permaneça relativamente estável no curto prazo, o aumento dos custos de energia por si só pode impulsionar a inflação alimentar global, afirmam os especialistas.
A energia desempenha um papel fundamental em toda a cadeia de suprimentos alimentar, desde a operação de maquinário agrícola e a produção de fertilizantes até o transporte das colheitas e o processamento delas em produtos alimentícios.
"O impacto maior sobre os preços ao consumidor não será o efeito sobre as commodities agrícolas, mas o fato de que a energia representa uma grande parte do total da fatura de alimentos no varejo", disse Joseph Glauber, pesquisador sênior do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares.
Chris Barrett, economista agrícola da Universidade de Cornell, comentou que a magnitude de qualquer choque de preços dependerá fortemente de como as interrupções no transporte persistirem.
Fonte: www.cnbc.com