A Confederação Nacional da Indústria (CNI) manteve a projeção de crescimento da economia brasileira para 2026 em 2%, porém elevou suas estimativas para os setores da indústria e da agropecuária. O crescimento, no entanto, deve continuar moderado, influenciado pelos altos juros, pela inflação persistente e pelas incertezas no cenário fiscal.
Em um informe divulgado na quarta-feira, 22, a CNI revisou a expectativa de crescimento da indústria de 1,6% para 2,1%. Para o agronegócio, a previsão subiu de 1,1% para 1,8%. O setor de serviços foi o único a sofrer uma redução na estimativa, passando de 2,1% para 1,9%.
A melhora nas projeções para a indústria e o agronegócio compensou a revisão negativa dos serviços, o que permitiu que a previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) se mantivesse inalterada.
“O cenário econômico para 2026 é caracterizado por um crescimento moderado, sustentado principalmente pelos setores ligados a commodities, além de estímulos à demanda”, afirmou Mario Sergio Telles, diretor de Economia da CNI.
Ele destacou que a política monetária restritiva, as condições financeiras adversas, a inflação elevada e as fragilidades fiscais continuam a impedir uma recuperação mais robusta.
Indústria Extrativa Puxa Revisão
A principal responsável pela melhoria na projeção para a indústria é a indústria extrativa, que é menos impactada pelos efeitos da taxa de juros e se beneficia do aumento na produção de petróleo.
A CNI passou a prever um crescimento de 9,1% para esse segmento em 2026, em comparação com a estimativa anterior de 7,8%.
Além disso, houve uma melhora na expectativa para a indústria de transformação, que alterou sua previsão de crescimento de 0,3% para 0,6%. Essa evolução é impulsionada principalmente pelos setores de derivados de petróleo, produtos farmoquímicos, farmacêuticos e pela indústria automobilística.
Contudo, o desempenho do setor ainda é concentrado. De acordo com a CNI, apenas sete dos 24 segmentos da indústria de transformação estão registrando crescimento, enquanto a entrada de produtos importados, os altos juros e o aumento dos custos decorrente do conflito no Oriente Médio continuam a pressionar boa parte do setor.
A previsão para a construção civil também foi elevada, passando de 1,3% para 1,5%. A entidade espera que a expansão do Sistema Financeiro da Habitação, as mudanças no crédito imobiliário, o programa Reforma Casa Brasil e os investimentos em infraestrutura auxiliarão na sustentação da atividade no setor.
Agro Pode Ter Nova Safra Recorde
A estimativa para a agropecuária foi elevada pela segunda vez consecutiva. No final do ano passado, a CNI considerava a possibilidade de estagnação do setor em 2026. A previsão foi alterada inicialmente de 1,1% e agora chega a 1,8%.
A revisão leva em conta a expectativa de uma nova safra recorde, especialmente puxada pela soja, e o crescimento da produção animal. Entretanto, o aumento nos preços de fertilizantes e outros insumos, decorrente do conflito no Oriente Médio, é apontado como um fator de risco.
No setor de serviços, a previsão caiu para 1,9%. Segmentos como informação e comunicação, comércio varejista e o mercado de trabalho continuam a sustentar a atividade, assim como medidas de estímulo ao consumo, incluindo a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.
Em contrapartida, o endividamento e a inadimplência das famílias, aliados aos juros elevados, devem restringir a expansão desse setor.
Inflação Sobe Para 5%
A CNI elevou a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,4% para 5% em 2026.
A revisão é principalmente influenciada pelo aumento dos preços dos alimentos e combustíveis, além da persistência da inflação nos serviços.
Com a inflação mais alta e um quadro fiscal deteriorado, a entidade reduziu de maneira significativa o espaço esperado para cortes na taxa básica de juros.
A previsão agora é de que o Comitê de Política Monetária (Copom) realize apenas mais duas reduções de 0,25 ponto percentual, levando a Selic dos atuais 14,25% para 13,75% até o final de dezembro. Na análise anterior, a CNI estimava que os juros encerrariam o ano em 12,75%.
Caso essas projeções se concretizem, os juros reais permaneceriam em torno de 9,2%, um nível considerado pela entidade como “extremamente contracionista”.
Dívida Deve Atingir 82% do PIB
A CNI prevê que a receita líquida federal crescerá 5,8% acima da inflação em 2026, mas as despesas também deverão avançar, com uma alta real estimada em 4,5%.
Ainda assim, mesmo com a elevação na arrecadação, o governo deverá encerrar o ano com um déficit aproximado de R$ 55,3 bilhões, resultado que é semelhante ao de 2025.
Neste contexto, a dívida pública deve chegar a 82% do PIB, representando um aumento de 10,3 pontos percentuais em uma década.
A situação fiscal, conforme a entidade, aumenta a percepção de risco, mantém os juros de longo prazo elevados e reduz o espaço para uma flexibilização mais rápida da política monetária.
Importações de Bens de Consumo Crescem 16%
Além dos juros e das contas públicas, o incremento das importações se destaca como uma das principais preocupações para a indústria.
As compras externas de bens de consumo cresceram 16% no primeiro semestre, em um período de desaceleração da produção e da demanda por produtos industriais brasileiros.
A CNI estima que as importações totais alcançarão US$ 306 bilhões em 2026, um aumento de 5,2%. As exportações devem somar US$ 383,9 bilhões, um crescimento de 9,5%, beneficiadas por preços elevados de commodities, como petróleo e soja.
Com isso, o superávit da balança comercial deve atingir US$ 77,9 bilhões, um avanço de 30,4% em comparação ao ano passado. A entidade destaca, no entanto, que a projeção pode ser alterada pelo aumento das tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
No contexto externo, a guerra no Oriente Médio continua a ser o principal risco. O conflito elevou os custos de combustíveis, energia e fertilizantes durante o primeiro semestre, embora a CNI acredite que essa pressão possa diminuir com o aumento da oferta de petróleo e a desaceleração da demanda da China.
Fonte: timesbrasil.com.br