## Javier Milei e Avanços Econômicos
Javier Milei entra na fase final de seu governo com significativos avanços em sua agenda econômica. Empossado em dezembro de 2023, o libertário argentino conquistou a Casa Rosada com a promessa de “passar a motosserra” nos gastos públicos, buscando trazer eficiência, crescimento econômico e controle sobre a inflação e o câmbio no país. O presidente focou na diminuição do tamanho do Estado, reduzindo ministérios e funcionários, além da chamada “casta política”.
Após dois anos de trabalho, economistas consultados pela reportagem reconhecem que a economia argentina avançou em diversas frentes principais, apesar de ter recebido apoio de instituições do sistema financeiro internacional durante o processo.
Em abril de 2025, o Banco Mundial anunciou um apoio de US$ 12 bilhões para a Argentina. Em setembro, foi feito o anúncio de mais US$ 4 bilhões, reafirmando a confiança na agenda econômica de Milei. Em um comunicado dessa última ocasião, a instituição ressaltou a “forte confiança” nos esforços do governo argentino para modernizar a economia, atrair investimentos externos e gerar empregos.
Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e ex-diretor executivo do FMI, aponta que a inflação na Argentina estava relacionada a déficits crônicos. A credibilidade da moeda, segundo ele, depende de disciplina fiscal, e Milei adotou esse diagnóstico.
Avaliando o cenário, a avaliação de crédito e o risco-país da Argentina passaram a apresentar resultados melhores, com a expectativa de que o país retorne aos mercados internacionais de capitais ainda este ano, segundo a economista Jimena Zuniga, da Bloomberg Economics.
## A “Motosserra” e o Déficit Público
A dívida argentina, que atingiu um pico de 155,7% em relação ao PIB em 2023, encerrou 2024 em 82,6%, registrou uma mínima de 76,4% no segundo trimestre de 2025 e terminou o terceiro trimestre passado em 78,2%. Essa queda significativa foi impulsionada pelo primeiro superávit financeiro em 14 anos, registrado no final de 2024. No ano seguinte, o país manteve resultados positivos, superando a meta nominal estabelecida pelo programa de financiamento com o FMI.
Guido Zack, coordenador do CIMaD e professor de Macroeconomia da UBA, aponta que o governo tem conseguido manter um equilíbrio orçamentário, apesar dos altos custos. Ele destaca que a discussão técnica sobre juros capitalizáveis de alguns instrumentos financeiros utilizados pelo governo sugere que, na prática, o superávit financeiro pode não ser um superávit real.
Após a primeira revisão do programa em julho, os parâmetros do FMI indicavam que a Argentina deveria alcançar cerca de 10,4 trilhões de pesos em superávit primário, meta superada em aproximadamente 1,3 trilhão de pesos. O ministro da Economia, Luis “Toto” Caputo, afirmou que, em termos reais, o gasto primário em 2025 foi 27% menor do que em 2023, preservando e ampliando programas sociais voltados para os setores mais vulneráveis. Ele acrescentou que os gastos com o Auxílio Universal por Filho e o Cartão Alimentar cresceram 43% em termos reais entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025.
Zack também ressalta que mesmo com conquistas, a sustentabilidade futura das despesas que não estão sendo realizadas, como investimentos em infraestrutura, será um ponto crucial. Ele comenta que o ajuste orçamentário está tendo um caráter regressivo, impactando negativamente aposentadorias e transferências para províncias, ao mesmo tempo que se reduzem impostos sobre o patrimônio.
## Hiperinflação
O governo Milei, apesar das dificuldades, tem mostrado progressos na redução da inflação. A hiperinflação argentina atingiu um pico em dezembro de 2023, com uma alta de 25,5% em relação ao mês anterior, acumulando 289,4% em abril de 2024. A partir deste momento, o Índice de Preços ao Consumidor começou a desacelerar, com uma mínima mensal de 1,5% em maio e uma taxa anual de 31,3% em outubro. O ano de 2025 foi encerrado com uma inflação de 2,8% em dezembro e 31,5% no acumulado do ano.
O controle da inflação se deu em conjunto com o ajuste fiscal, fatores que geraram otimismo entre instituições do sistema financeiro internacional. Canuto ressalta a importância de evitar o financiamento do déficit por meio da emissão de moeda, o que implica um uso menos frequente do Banco Central para financiar o Tesouro. Esta política monetária mais restritiva é parte da estratégia de desinflação por meio de ajuste fiscal.
## Pontas a se Aparar
Em relação à entrega dos resultados prometidos nas campanhas eleitorais, Jimena Zuniga menciona que, enquanto alguns objetivos foram alcançados, outros não. Embora a economia tenha se recuperado rapidamente da contração de 2024, atualmente enfrenta desafios. A questão permanece se a população argentina continuará a aceitar a estagnação como um preço necessário pela estabilidade, considerando que as doras das promessas de Milei se concretizaram de forma diferente, afetando significativamente aposentadorias e salários do setor público.
O risco político permanece uma preocupação. Apesar de Milei estar relativamente bem posicionado para vencer sua reeleição em 2027, a recente derrota de seu partido nas eleições locais na província de Buenos Aires sugere que sua reeleição não está garantida. Uma vitória da oposição peronista poderia levar a um aumento nos spreads.
Canuto alerta que, embora as reformas possam ser tecnicamente coerentes, elas têm potencial para serem politicamente frágeis a médio prazo. Contudo, em meio a fatores positivos, Zack aponta que a possibilidade de crescimento econômico pode levar à redução da pobreza.
### Dólar
Por fim, um desafio contínuo envolve o problema do dólar. A Argentina enfrentou um déficit na conta corrente no ano passado, e as reservas líquidas continuam em níveis negativos. Zuniga menciona que houve um recente aumento nas reservas, destacando que esta acumulação deveria ter sido realizada ao longo do último ano, mas não ocorreu devido a questões eleitorais. Além disso, a Argentina iniciou um processo de liberalização das taxas de câmbio, embora essa mudança ainda não esteja comprovada.
A instabilidade das demandas por moeda na Argentina, resultado de crises anteriores, impacta diretamente a valorização do dólar, dificultando a previsão de sua estabilidade. Zuniga finaliza destacando que a economia poderia se beneficiar de uma maior flexibilidade cambial, embora a cautela dos tomadores de decisão governamentais tenha suas justificativas.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br

