Derek Sylvester e a Tradição Familiar na Vendas de Automóveis
O pai de Derek Sylvester construiu a concessionária da família com esforço próprio em 1972, em Peckville, uma pequena cidade localizada na Pensilvânia. Ao longo de mais de cinco décadas, a Sylvester Chevrolet se tornou um ícone na comunidade próxima a Scranton. Ao final de março, a família concluiu a venda do negócio para um grupo de revendedores com sede em Nova York.
“A menos que você tenha uma loja maior, muito maior, fica cada vez mais complicado conseguir lucro. A questão é a escala”, comentou Sylvester, de 67 anos, que já vinha considerando a possibilidade de se aposentar.
A trajetória da Sylvester Chevrolet é um reflexo do que acontece em todo o país. O setor de venda de automóveis, que historicamente foi dominado por empresas familiares, tornou-se uma indústria trilionária em constante processo de consolidação, despertando o interesse crescente de Wall Street e de fundos de investimento.
A Ascensão das Grandes Concessionárias
Os números evidenciam a velocidade dessa transformação. As 150 maiores revendedoras dos Estados Unidos foram responsáveis por 27% de todas as vendas de veículos novos em 2025, um crescimento em comparação aos 24,3% registrados em 2021 e aos 21,2% de 2015, conforme o ranking anual da publicação especializada Automotive News. Esse grupo também possuía cerca de um quarto de todas as concessionárias do país no ano passado, proporção que era inferior a 20% uma década atrás.
De acordo com a Associação Nacional de Revendedores de Automóveis (NADA), 90,5% de seus quase 17 mil associados possuem entre uma e cinco lojas, uma diminuição em relação aos 94,4% registrados em 2016. Por outro lado, o percentual de grupos com 50 lojas ou mais dobrou nesse período, embora ainda represente apenas 0,2% do total.
“É claramente um setor em processo de consolidação, e isso deve continuar”, afirmou Brian Gordon, presidente da Dave Cantin Group, uma consultoria especializada em fusões e aquisições no setor automotivo.
Interesse de Wall Street nas Mega-redes
Empresas como Lithia Motors e AutoNation se destacam como algumas das grandes beneficiadas por esse movimento, cada uma com valor de mercado superior a US$ 6 bilhões. A Lithia, localizada em Medford, Oregon, viu sua receita saltar de US$ 8,7 bilhões em 2016 para US$ 37,6 bilhões no ano passado, quase triplicando o número de lojas de 154 para 455 unidades.
Por sua vez, a Sonic Automotive, com valor de mercado acima de US$ 2 bilhões, expandiu de 96 para 134 concessionárias franqueadas entre 2015 e 2024 e diversificou suas operações com lojas de veículos usados e de outros veículos motorizados. Durante o mesmo período, a receita da empresa avançou 58%, alcançando US$ 15,2 bilhões.
Até mesmo a Carvana, uma revendedora digital de automóveis usados avaliada em US$ 74 bilhões, começou a adquirir franquias de veículos novos, embora não tenha revelado seus planos futuros.
“Há uma grande quantidade de capital interessado em entrar no setor. De maneira geral, o mercado já entende como precificar esses ativos. Isso cria um ambiente favorável para fusões e aquisições”, afirmou Gordon.
A Resistência das Pequenas Concessionárias
A pressão enfrentada pelas pequenas concessionárias não implica no fechamento imediato do modelo familiar. Especialistas do setor indicam que os principais fatores que levam um proprietário a vender incluem a falta de um planejamento sucessório adequado, a dificuldade em se adaptar às mudanças do setor e a hesitação em reinvestir no negócio.
“Não é que as pequenas concessionárias não possam continuar a existir e prosperar, mas elas precisam ter um planejamento sólido”, destacou Talon Fee, diretor da Dave Cantin Group, que supervisionou a venda da Sylvester Chevrolet para o Matthews Auto Group.
O grupo Matthews, fundado em 1973 com uma única loja em Vestal, no estado de Nova York, cresceu até se tornar um negócio avaliado em cerca de US$ 800 milhões, com 18 unidades e 800 funcionários. Segundo Rob Matthews, CEO e filho do fundador, a expansão é uma condição essencial para a manutenção da competitividade.
Novos Desafios no Setor
O setor de concessionárias enfrenta ainda pressões externas ao modelo tradicional. Montadoras como Tesla, Rivian e Lucid têm buscado vender veículos diretamente para o consumidor, contornando as redes de revenda. Recentemente, a Rivian obteve uma vitória no estado de Washington ao ameaçar levar a questão das vendas diretas a um referendo popular.
Para Jeff Dyke, presidente da Sonic Automotive, ainda há muito potencial no modelo de franquia, embora precise passar por adaptações. “As concessionárias familiares têm um papel importante no setor. O que ocorre é que o pequeno revendedor precisa evoluir em sua forma de pensar”, disse Dyke em entrevista à CNBC.
Sylvester, que planeja se dedicar à aposentadoria em uma fazenda de 92 acres na Pensilvânia, não demonstra arrependimento. “Tivemos uma boa vida. Ajudamos a comunidade. As coisas boas têm um fim.”
Fonte: timesbrasil.com.br

