Ponto de Virada na Gestão de Patrimônio
O momento de transformação se concretiza quando o patrimônio deixa de ser uma meta de crescimento e se torna uma responsabilidade de preservação. Bruno Dietrich Bicca, cofundador da Origin Inovação, afirma: “Para quem já construiu patrimônio, o jogo deixa de ser ganhar dinheiro e passa a ser permanecer rico”.
Essa mudança não implica em abrir mão de retornos, mas sim em reorganizar prioridades. Ao invés de focar em encontrar o “melhor investimento do momento”, a abordagem se baseia em três fundamentos essenciais: disciplina, diversificação e utilização estratégica da liquidez.
Embora essas práticas sejam mais observadas entre pessoas com grande fortuna, elas não requerem necessariamente produtos financeiros complexos e podem ser adotadas também por investidores comuns.
Disciplina: a Importância de Não Errar
Um dos equívocos recorrentes é a ideia de que os investidores de alta renda possuem uma habilidade superior em prever o mercado ou acesso a informações privilegiadas. Na realidade, o que diferencia esses investidores é a execução eficaz. Luis Ferreira, CIO do EFG Bank, esclarece: “O investidor de alta renda não tem maior capacidade de prever o mercado. O que ele tem é muito mais disciplina e estrutura na forma como toma risco.”
A disciplina se torna evidente em momentos de pressão no mercado. Quedas significativas, crises políticas e mudanças abruptas de cenário frequentemente levam a decisões precipitadas, como vender ativos no pior momento ou abandonar estratégias de longo prazo.
Uma ferramenta fundamental nesse processo é o rebalanceamento periódico da carteira. Ao estabelecer uma alocação definida previamente e ajustá-la ao longo do tempo, o investidor adota uma lógica objetiva, em vez de emocional. Según Bicca, “o rebalanceamento força o investidor a vender o que subiu e comprar o que caiu”.
Para Bruno de Paula, diretor de investimentos da Ghia MFO, isso diminui a necessidade de tentar “acertar o timing” do mercado. Em vez de estar constantemente decidindo quando investir ou desinvestir, o investidor trabalha segundo regras definidas. “A gente troca a adivinhação por execução disciplinada”, conclui.
Diversificação: Protegendo-se Contra o Imprevisível
No contexto da alta renda, a preocupação com os riscos vai além da volatilidade diária e abrange eventos extremos que podem impactar estruturalmente o patrimônio. Isso inclui crises econômicas, mudanças políticas e transformações tecnológicas que podem tornar setores inteiros obsoletos.
Neste cenário, diversificar não significa apenas ter múltiplos ativos, mas garantir que esses ativos respondam de maneiras diversas a diferentes cenários. Luis Ferreira alerta para a ilusão de diversificação que, comumente, afeta investidores em início de jornada. “Se está tudo no Brasil, não há diversificação de moeda, geográfica ou setorial”, afirma.
Portanto, mesmo possuindo vários ativos, o investidor pode ainda estar exposto ao mesmo risco — centralizado em um único país, moeda ou ciclo econômico. Bicca ressalta que a exposição internacional desempenha um papel crucial nessa proteção. “Quem mora, ganha e gasta em real já está concentrado em uma moeda emergente. Manter também os investimentos em real é carregar esse risco sem perceber.”
Investir em ativos fora do país funciona como uma forma de proteção contra desvalorizações da moeda e instabilidades locais. Para o investidor comum, essa estratégia não requer estruturas complexas: a combinação de renda fixa, renda variável e alguma exposição internacional pode resolver grande parte dos problemas, desde que o foco seja a proteção e não apenas a multiplicação do capital.
Menor Liquidez: Limitar Opções para Evitar Erros
A renúncia à liquidez imediata pode parecer contraintuitiva, mas, na prática, essa abordagem serve como uma proteção contra um dos maiores riscos que um investidor enfrenta: ele mesmo. Bicca observa: “Quando o investidor pode mexer no patrimônio a qualquer momento, ele tende a mexer — especialmente nos piores momentos”.
Investimentos menos líquidos dificultam o resgate e, assim, diminuem a probabilidade das decisões impulsivas durante crises ou momentos de estresse emocional. Ferreira complementa: “Se você não pode transacionar a qualquer momento, evita vender exatamente na pior hora”.
Adicionalmente, a menor liquidez geralmente está associada a horizontes de investimentos mais longos, mudando o foco do curto prazo para a criação de valor ao longo do tempo.
No entanto, para o investidor comum, essa abordagem demanda atenção. A ausência de uma reserva de emergência clara pode transformar a falta de liquidez em um problema. Quando adequadamente administrada, no entanto, essa estratégia ajuda na disciplina do comportamento e reforça a orientação para o longo prazo.
Adaptações para o Investidor Comum
Os três especialistas abordados concordam sobre um conjunto de medidas práticas — embora pouco seguidas — como fundamentos para a proteção patrimonial:
1. Organizar as finanças e manter uma reserva de emergência: Uma reserva de liquidez evita que o investidor precise resgatar ativos em momentos desfavoráveis.
2. Definir uma estratégia clara de investimentos: A elaboração de uma alocação pré-definida, prazos e regras reduz a possibilidade de decisões impulsivas.
3. Diversificar de forma significativa, incluindo ativos no exterior: Através da distribuição entre vários ativos, mercados e moedas, é possível diluir riscos estruturais.
4. Manter consistência nos aportes: A automatização dos investimentos diminui a dependência do timing do mercado.
5. Criar barreiras contra decisões impulsivas: A implementação de prazos, divisão de investimentos por objetivos e regras simples auxilia na manutenção do planejamento em períodos de pressão.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br