Como a China Construiu seu "Projeto Manhattan" para Concorrer com o Ocidente em Inteligência Artificial

Como a China Construiu seu “Projeto Manhattan” para Concorrer com o Ocidente em Inteligência Artificial

by Fernanda Lima
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Desenvolvimento de Tecnologia de Chips na China

Em um laboratório de alta segurança localizado em Shenzhen, cientistas chineses criaram um protótipo de uma máquina que tem o potencial de produzir chips de última geração, utilizados para processamento em aplicações de inteligência artificial, em smartphones e em armamentos estratégicos que são cruciais para a supremacia militar do Ocidente. Este equipamento foi finalizado no início de 2025 e está atualmente na fase de testes, ocupando quase todo o espaço da fábrica.

Construção e Engenharia Reversa

O protótipo foi desenvolvido por uma equipe composta por ex-engenheiros da ASML, uma renomada empresa holandesa especializada na fabricação de máquinas para produção de chips. Esses profissionais realizaram engenharia reversa nos equipamentos de litografia ultravioleta extrema (EUV) da companhia, conforme revelaram duas fontes que possuem conhecimento sobre o projeto. As máquinas EUV são fundamentais em uma Guerra Fria tecnológica, uma vez que utilizam feixes de luz ultravioleta extrema para gravar circuitos em discos de silício, com dimensões milhares de vezes menores que um fio de cabelo. Esta tecnologia é amplamente dominada por empresas ocidentais e a redução do tamanho dos circuitos leva ao aumento da potência dos chips produzidos.

A máquina criada na China está em operação e consegue gerar luz ultravioleta extrema, embora ainda não tenha conseguido produzir chips funcionais, de acordo com as informações fornecidas pelas fontes. Em abril, o presidente-executivo da ASML, Christophe Fouquet, afirmou que a China levaria “muitos anos” para desenvolver essa tecnologia. No entanto, a existência desse protótipo sugere que a China pode estar mais próxima da autossuficiência em semicondutores do que inicialmente estimado pelos analistas.

Desafios e Metas Técnicas

Apesar do progresso, a China ainda enfrenta principais desafios técnicos, especialmente na reprodução dos sistemas ópticos de precisão que são fornecidos por empresas ocidentais. O acesso a peças de máquinas ASML antigas em mercados secundários permitiu que a China edificasse esse protótipo nacional, enquanto o governo estabelecer uma meta de produzir chips funcionais até 2028. Contudo, pessoas próximas ao projeto acreditam que uma previsão mais viável seria 2030, uma data que ainda representa uma antecipação em relação à estimativa de uma década que os analistas previam para a igualdade com o Ocidente no setor de chips.

Até o momento, as autoridades chinesas não se manifestaram sobre o assunto quando abordadas pela Reuters.

Iniciativa Governamental de Semicondutores

Esta inovação representa um ponto culminante de uma iniciativa governamental que se estende por seis anos, cujo objetivo é alcançar a autossuficiência em semicondutores — uma prioridade fundamental do presidente Xi Jinping. Embora as metas em semicondutores da China tenham sido divulgadas publicamente, o projeto de EUV em Shenzhen foi realizado de maneira discreta, conforme sinalizado pelas fontes. O esforço se insere na estratégia de chips do país, que foi identificada pela mídia estatal como liderada por Ding Xuexiang, um dos principais conselheiros de Xi Jinping, responsável pela Comissão Central de Ciência e Tecnologia do Partido Comunista.

A Huawei, uma gigante do setor eletrônico, desempenha um papel essencial na coordenação de uma rede de empresas e institutos de pesquisa estatais em todo o país, envolvendo milhares de engenheiros, conforme detalhado por duas fontes e uma terceira. As pessoas envolvidas na iniciativa descreveram o projeto como a versão chinesa do Projeto Manhattan, que nos Estados Unidos visava o desenvolvimento da bomba atômica.

Objetivos e Ambições Futuras

O objetivo declarado é que, em algum momento, a China possa fabricar chips avançados utilizando máquinas totalmente desenvolvidas internamente. “O desejo é que os EUA sejam completamente excluídos de suas cadeias de suprimentos”, conforme afirmado por uma das fontes. A Huawei, o Conselho de Estado da China, a Embaixada da China em Washington e o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China não responderam a solicitações de comentários sobre essas questões.

Atualmente, a ASML é a única empresa que domina a tecnologia EUV, com sede em Veldhoven, na Holanda. Suas máquinas possuem um custo aproximado de 250 milhões de dólares e são imprescindíveis na fabricação dos chips mais avançados criados por empresas como Nvidia e AMD, e fabricados por gigantes como TSMC, Intel e Samsung. A ASML iniciou a construção de seu primeiro protótipo funcional da tecnologia EUV em 2001, e empresas informaram que foram necessários cerca de duas décadas e investimentos de bilhões de euros em pesquisa e desenvolvimento para que os primeiros chips comercializáveis fossem produzidos em 2019.

Implicações Geopolíticas e Estratégias de Restrição

A ASML, em comunicado à Reuters, indicou que faz sentido que outras empresas tentem replicar sua tecnologia, mas advertiu que a tarefa não é simples. Os sistemas EUV da companhia estão disponíveis apenas para aliados dos Estados Unidos, incluindo Taiwan, Coreia do Sul e Japão. A partir de 2018, os EUA começaram a convencer a Holanda a proibir a ASML de comercializar máquinas EUV para a China.

As restrições foram ampliadas em 2022, quando o governo Biden implementou amplos controles de exportação com o intuito de limitar o acesso da China a tecnologias avançadas em semicondutores. De acordo com a ASML, nenhuma máquina EUV foi vendida a clientes na China até o momento. Os controles de exportação não afetaram apenas as máquinas EUV, mas também equipamentos de litografia ultravioleta profunda (DUV), que são usadas na produção de chips menos sofisticados, como os da Huawei, buscando manter a China pelo menos uma geração atrás em capacidade de fabricação de chips.

O Departamento de Estado dos EUA mencionou que a administração Trump intensificou a aplicação dos controles de exportação sobre equipamentos de fabricação avançada de semicondutores e está colaborando com aliados para minimizar brechas à medida que a tecnologia avança. O Ministério da Defesa holandês informou que está desenvolvendo políticas que exigem triagens de pessoal para assegurar que tecnologia sensível não caia em mãos erradas ou seja utilizada para fins mal intencionais.

As restrições impostas à exportação atrasaram o progresso da China em direção à autossuficiência em semicondutores por vários anos, conforme indicado pelas fontes, e restringiram a capacidade de produção de chips avançados na Huawei.

Desafios na Estrutura do Projeto Chinês

Um engenheiro veterano da ASML, recrutado para integrar o projeto, ficou perplexo ao perceber que seu generoso bônus incluía uma carteira de identidade emitida com um nome falso. Ao ser incorporado à equipe, encontrou outros ex-colegas da ASML que também utilizavam pseudônimos e foram instruídos a manter essa prática de ocultação no ambiente de trabalho, a fim de preservar o sigilo das operações, segundo a fonte. Outras informações confirmaram que os recrutas receberam identidades falsas, evitando que suas verdadeiras identidades fossem conhecidas pelos demais trabalhadores da instalação segura.

As diretrizes estabelecidas eram claras: o projeto foi classificado como segurança nacional, o que significava que ninguém fora do complexo poderia saber o que estava sendo construído nem que os especialistas estavam presentes ali. A equipe era composta por ex-engenheiros e cientistas da ASML que haviam se aposentado, considerados alvos ideais para recrutamento devido ao seu conhecimento técnico, mas que enfrentavam menos restrições profissionais após deixar suas funções na empresa.

Dois atuais funcionários da ASML, de nacionalidade chinesa e atuando na Holanda, afirmaram à Reuters que foram abordados por recrutadores da Huawei desde pelo menos 2020. A Huawei não fez comentários a respeito. As leis de privacidade europeias limitam a capacidade da ASML de monitorar ex-trabalhadores e, embora os empregados assinem acordos de não divulgação, a execução desses contratos em outros países mostrou-se desafiadora.

Caso de Litígios e Repercussões Legais

A ASML ganhou um julgamento de 845 milhões de dólares em 2019 contra um ex-engenheiro da China acusado de roubar segredos comerciais. Contudo, o réu solicitou falência e continua operando em Pequim com apoio do governo chinês, como evidenciado em documentos judiciais. A empresa deixou claro que “protege rigorosamente” seus segredos comerciais e informações confidenciais, afirmando que, embora não possa controlar onde ex-funcionários trabalham, todos estão vinculados a cláusulas de confidencialidade em seus contratos, e a ASML já obteve sucesso em ações legais por conta de roubo de segredos comerciais.

A Reuters não conseguiu verificar se alguma ação legal foi tomada contra ex-funcionários da ASML envolvidos no programa de litografia da China. A companhia reforçou que protege o conhecimento sobre EUV assegurando que apenas funcionários selecionados tenham acesso a essas informações, mesmo dentro da organização.

Um relatório de abril da inteligência holandesa alertou que a China “utilizou vastos programas de espionagem” para adquirir tecnologia avançada dos países ocidentais, incluindo o recrutamento de “cientistas ocidentais e funcionários de empresas de alta tecnologia”.

Avanços na Tecnologia de Litografia

Veteranos da ASML foram cruciais para a recente descoberta em Shenzhen, segundo relatos. Sem o conhecimento especializado sobre a tecnologia, a engenharia reversa das máquinas teria sido praticamente inviável. O recrutamento desses profissionais faz parte de uma iniciativa mais ampla, lançada pela China em 2019, visando especialistas em semicondutores que trabalham fora do país, oferecendo pacotes salariais que variam entre 3 e 5 milhões de iuans (aproximadamente 420 mil a 700 mil dólares), além de subsídios para compra de imóveis, segundo análise de documentos de políticas do governo publicada pela Reuters.

Entre os recrutas, destaca-se Lin Nan, ex-chefe da tecnologia de fontes de luz da ASML. Sua equipe no Instituto de Ótica de Xangai, vinculado à Academia Chinesa de Ciências, registrou oito patentes sobre fontes de luz EUV em apenas 18 meses, conforme registros de patentes. O Shanghai Institute of Optics and Fine Mechanics não respondeu aos pedidos de comentários. Lin não pôde ser contatado para se pronunciar.

Além disso, duas fontes mencionaram que alguns cidadãos naturalizados de outros países receberam passaportes chineses e foram autorizados a manter a dupla cidadania, uma prática que é oficialmente proibida na China. O governo não respondeu a perguntas a respeito da emissão de passaportes.

Prototipagem e Funcionamento da Fábrica de EUV

As máquinas EUV de última geração, fabricadas pela ASML, apresentam um tamanho comparável ao de um ônibus escolar e pesam cerca de 180 toneladas. Após várias tentativas não bem-sucedidas de replicar seu tamanho, o protótipo desenvolvido em Shenzhen foi ampliado significativamente para aumentar sua capacidade de operação, como afirmaram as fontes. O protótipo chinês, embora rudimentar em comparação com as máquinas desenvolvidas pela ASML, é suficientemente funcional para atividades de teste.

No entanto, ele ainda apresenta desvantagens em relação às máquinas da ASML, principalmente devido à dificuldade enfrentada pelos pesquisadores em adquirir sistemas ópticos, como os fornecidos pela Carl Zeiss, um dos principais parceiros da ASML. A Zeiss não forneceu comentários sobre este assunto.

As máquinas da ASML operam disparando lasers contra estanho fundido a uma taxa de 50 mil vezes por segundo, produzindo plasma em temperaturas de 200 mil graus Celsius. A luz gerada é focalizada por meio de espelhos que demandam meses para a produção, conforme evidenciado no site da Zeiss. Principais instituições de pesquisa da China têm participado ativamente do desenvolvimento de alternativas nacionais.

O CIOMP (Instituto de Óptica, Mecânica Fina e Física de Changchun da Academia Chinesa de Ciências) conseguiu um avanço na integração da luz ultravioleta extrema no sistema óptico do protótipo, permitindo que ele se tornasse operacional no começo de 2025, embora a óptica ainda necessite ser refinada consideravelmente. O CIOMP não respondeu aos pedidos de comentários.

No mês de março, durante uma chamada de recrutamento realizada em seu site, o instituto anunciou que estava oferecendo salários “ilimitados” para pesquisadores de litografia com doutorado e bolsas de pesquisa que podem chegar a 4 milhões de iuans (cerca de 560 mil dólares), além de 1 milhão de iuans (aproximadamente 140 mil dólares) em subsídios pessoais.

Jeff Koch, analista da empresa de pesquisa SemiAnalysis e ex-engenheiro da ASML, declarou que a China teria feito “avanços significativos” se a “fonte de luz for suficientemente potente, confiável e não gerar muita contaminação”. Ele também ressaltou que essa meta é tecnicamente viável, sendo apenas uma questão de tempo: “A China se beneficia do fato de que a tecnologia EUV comercial já está estabelecida, logo, eles não estão iniciando do zero”.

Obtenção de Componentes e Recursos

Para conseguir as peças necessárias à operação de suas máquinas, os chineses estão recuperando componentes de modelos antigos da ASML e adquirindo peças de fornecedores da empresa através de mercados de segunda mão. Redes de empresas intermediárias são frequentemente utilizadas para disfarçar o comprador final, afirmaram as fontes. Componentes cujo uso é restrito, fornecidos pelas japonesas Nikon e Canon, também estão sendo empregados para o protótipo, conforme relatado por uma das fontes e corroborado por outra.

A Nikon não se pronunciou a respeito, e a Canon declarou não ter conhecimento sobre tais informações. A Embaixada do Japão em Washington não respondeu a um pedido de comentário. Além disso, bancos internacionais frequentemente leiloam equipamentos de semicondutores antigos, e leilões na China têm disponibilizado equipamentos de litografia ASML até outubro de 2025, segundo análise de listagens na Alibaba Auction, uma plataforma pertencente ao Alibaba.

Uma equipe formada por cerca de 100 recém-formados está atualmente focada na engenharia reversa de máquinas de litografia EUV e DUV. Cada funcionário possui sua mesa monitorada por câmeras individuais para documentar seus esforços de desmontagem e remontagem de peças, um trabalho considerado fundamental para os esforços litográficos da China. Aqueles que conseguem montar um componente com êxito recebem bônus, conforme indicaram as fontes.

Participação da Huawei e suas Operações

Embora o projeto de EUV seja administrado pelo governo da China, a Huawei está envolvida em todas as etapas da cadeia de suprimentos, desde o design dos chips e o equipamento necessário para sua fabricação até a manufatura e integração final em produtos como smartphones. De acordo com uma das fontes, o presidente-executivo da Huawei, Ren Zhengfei, mantém os líderes seniores da China informados sobre o progresso do projeto.

Desde 2019, os EUA colocaram a Huawei em uma lista de entidades, o que proíbe as empresas americanas de se relacionarem comercialmente com a companhia sem uma licença prévia. Para fortalecer seu esforço, a Huawei tem enviado funcionários para escritórios, fábricas e centros de pesquisa em toda a China para contribuir com o projeto.

Os funcionários designados às equipes de semicondutores geralmente permanecem no local de trabalho durante toda a semana e têm acesso restrito a comunicações telefônicas, especialmente aqueles que lidam com tarefas mais confidenciais. Dentro da Huawei, poucos funcionários têm ciência da amplitude desse trabalho, levando as equipes a serem mantidas isoladas umas das outras para proteger a confidencialidade do projeto. “As equipes não sabem a respeito das atividades realizadas por outras”, explicou uma das fontes.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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