A indústria de pérolas na China: um crescimento surpreendente
Poucas indústrias oferecem uma visão tão clara do crescimento econômico da China desde os anos 1980 quanto a indústria de pérolas. Antigamente praticamente inexistente no país, a produção de pérolas cultivadas atualmente representa mais de 98% da produção mundial, conforme dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A China adaptou e refinou uma técnica inicialmente desenvolvida no Japão, conseguindo escalá-la de modo a impactar significativamente o mercado de luxo, tornando a pérola acessível a um consumo mais amplo.
Como funciona a indústria de pérolas da China?
Para compreender o desenvolvimento da indústria de pérolas, é essencial iniciar com o processo natural de formação das pérolas em moluscos de água salgada. Quando um grão de areia ou um parasita invade um molusco, ele reage recobrindo o invasor com camadas de nácar, uma substância composta por minerais e proteínas que conferem cor e brilho à pérola, já que o animal não consegue expulsar o elemento irritante. Assim, forma-se uma pérola.
Esse fenômeno é raro na natureza e pode levar de três a nove anos para ocorrer. Entretanto, o cultivo de pérolas por intervenção humana surgiu no final do século XIX, graças ao japonês Mikimoto Kokichi, que descobriu que era viável induzir artificialmente a produção de nácar.
Ele introduziu um núcleo esférico feito de concha de mexilhão de água doce, oriundo dos Estados Unidos, nas ostras marinhas. Este material não era rejeitado pelos moluscos, devido à similaridade química. A técnica provou ser eficaz, criando um mercado para pérolas cultivadas, embora inicialmente a produção fosse limitada, gerando uma média de três gemas por ostra.
Como a China adaptou esse processo
Cientistas chineses modificaram o método de cultivo para os mexilhões de água doce, aumentando a produção para dezenas de pérolas por ostra. Esse avanço ocorreu após a descoberta de que essa espécie não requer o núcleo; em vez disso, basta inserir um fragmento de tecido retirado do manto de um mexilhão doador para induzir a produção de nácar. Ao eliminar o núcleo, cada mexilhão pode comportar múltiplos enxertos simultâneos.
Dessa maneira, as pérolas resultantes são formadas totalmente de nácar, ao contrário das pérolas japonesas que possuem um miolo de concha. Assim, a biologia do animal transformou o método japonês em uma linha de produção eficiente.
Volume não é sinônimo de valor
Quimicamente, não existe diferença entre pérolas naturais e cultivadas, uma vez que ambos os nácares compartilham a mesma estrutura, desde a composição até a origem celular. A distinção se dá apenas no estímulo que dá origem ao seu desenvolvimento.
Mas, por que uma pérola natural pode valer centenas de vezes mais do que uma cultivada, e por que as pérolas taitianas são valorizadas em comparação com as chinesas? Em 2022, o Japão produziu 13 toneladas de pérolas marinhas, resultando em exportações no valor de aproximadamente 150 milhões de dólares. O Taiti, famoso por suas pérolas escuras altamente valorizadas, exportou cerca de 100 milhões de dólares em 2023, com volume semelhante ao do Japão.
Em contraste, a China produz anualmente em torno de 4.500 toneladas em pérolas, mas a receita gerada por tonelada é uma fração do que as pérolas japonesas e taitianas produzem. O custo de um colar de pérolas cultivadas chinesas varia entre R$ 200 a R$ 500, enquanto um colar verdadeiro de pérolas do Taiti pode custar entre R$ 8 mil a R$ 30 mil. Hoje em dia, praticamente todas as pérolas comercializadas são cultivadas, incluindo as do Taiti.
A especialidade das ostras marinhas da Polinésia Francesa não permite a mesma escala industrial alcançada pelos mexilhões chineses de água doce. A espécie Pinctada margaritifera, responsável pela produção das pérolas taitianas, normalmente gera apenas uma ou duas gemas por ciclo, que pode levar até dois anos. Além disso, a mortalidade das ostras é alta, e fatores como temperatura, salinidade e qualidade da água impactam diretamente no brilho e na coloração das pérolas.
Assim, o valor da pérola vai além da composição química, envolvendo também a escassez biológica e o custo temporal do seu cultivo e produção.
A pérola como símbolo de luxo
Quando uma pérola natural é encontrada sem intervenção humana, geralmente ela é certificada por laboratórios gemológicos especializados. Essas pérolas são extremamente raras. Antes da popularização do cultivo, era preciso abrir centenas ou até milhares de ostras para encontrar uma pérola que pudesse ser aproveitada.
Essa escassez foi a responsável por transformar a pérola, ao longo dos séculos, em um dos principais símbolos de riqueza e status.
Fonte: www.moneytimes.com.br

