Reação da Rússia à Queda de Maduro
A reação do presidente da Rússia, Vladimir Putin, à destituição do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi cautelosa. Moscovo está avaliando os potenciais benefícios e oportunidades geopolíticas que a ação unilateral dos Estados Unidos representa, em contraste com a perda de um importante aliado na América Latina.
Inicialmente, Moscovo condenou os ataques dos EUA à Venezuela ocorridos no último sábado, que resultaram na captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Através do seu Ministério das Relações Exteriores, a Rússia desqualificou as “ações agressivas” dos EUA, afirmando que essas atitudes representam “uma infringência inaceitável sobre a soberania de um estado independente”. Contudo, o Kremlin não emitiu uma resposta oficial sobre a destituição e, até o momento, o presidente Vladimir Putin não se manifestou sobre o assunto.
Maduro era um aliado próximo de Putin e a Venezuela manteve laços históricos com a Rússia. Caracas apoiou a invasão da Rússia à Ucrânia e os dois países desfrutaram de relações estreitas nas áreas de energia e cooperação militar. Além disso, ambos compartilhavam o interesse em contrabalançar a influência geopolítica, militar e econômica dos EUA na região.
No entanto, a remoção de Maduro pode não ser um sinal totalmente negativo para a Rússia. Moscovo provavelmente está buscando maneiras de tirar proveito da crise na Venezuela para seus próprios interesses.
Distração na Crise da Ucrânia
Primeiramente, a crise na Venezuela surge em um momento delicado nas relações de Moscovo com Washington. É provável que a Rússia esteja cautelosa quanto a deteriorar as relações com a Casa Branca, especialmente quando busca favor do governo para obter as condições mais favoráveis em um eventual acordo de paz sobre a Ucrânia.
Os acontecimentos na Venezuela podem servir como uma distração benéfica nesse contexto, pois a Rússia pode se favorecer de um eventual relaxamento nos esforços — ou na pressão — para alcançar um acordo de paz na Ucrânia ou para implementar um cessar-fogo como parte de qualquer entendimento.
Embora as forças russas sejam percebidas como tendo vantagem no campo de batalha, especialmente em termos de manpower, e estejam progredindo de maneira incremental no leste da Ucrânia, um cessar-fogo não é visto como sendo do interesse da Rússia.
Segundo analistas do Institute for the Study of War, a resposta do Kremlin à operação dos EUA na Venezuela tem sido padrão até agora, destacando que o Kremlin “provavelmente terá que equilibrar suas respostas entre a manutenção de sua credibilidade como parceiro de outros estados e seus contínuos esforços para agradar a administração de Trump.”
Risco para Zelenskyy?
Alguns analistas levantaram preocupações sobre a captura de Maduro e as acusações criminais contra ele, afirmando que isso poderia dar à Rússia “carta branca” para agir da mesma forma em relação ao presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, que frequentemente é descrito por Moscovo como um “criminoso”, sem que provas sejam apresentadas para sustentar tais acusações.
Sarah Lenti, consultora política e ex-diretora do Conselho de Segurança Nacional na Casa Branca, comentou que a posição de Trump fornece permissão a Putin para agir conforme desejar em relação a Zelenskyy.
“O presidente afirmou que Maduro era um criminoso, logo ele tinha o direito de capturá-lo. Sabemos que o presidente Putin frequentemente chama Zelenskyy, equivocadamente, na minha opinião, de criminoso. Portanto, isso estabelece um precedente que sugere que é aceitável para países infringirem sobre a soberania política de outra nação,” declarou Lenti em uma entrevista ao CNBC na segunda-feira.
Ela também destacou que esse comportamento está estabelecendo um precedente alarmante para nações que estão sob a mira da Rússia e da China, seja em relação a Taiwan ou à Ucrânia.
Aumento Ideológico?
Do ponto de vista ideológico, a intervenção de Trump na Venezuela e a postura de política externa subjacente — um desejo de reafirmar o poder e a dominação dos EUA no Hemisfério Ocidental — ressoam com os objetivos da Rússia.
Putin é amplamente visto como alguém que deseja restabelecer a esfera de influência da Rússia na Europa e na Ásia Central, que foi perdida após o colapso da União Soviética em 1991, um evento que Putin classificou como “a maior catástrofe geopolítica” do século XX.
Especulações surgem de que o novo foco de Trump em restaurar a hegemonia americana no Ocidente poderia permitir à Rússia realizar o mesmo em sua própria região. No entanto, vários analistas relataram ao CNBC que a intervenção dos EUA na Venezuela demonstrou a países como a Rússia e o Irã que Trump está disposto a agir, caso isso seja considerado como sendo do interesse dos EUA.
Amrita Sen, fundadora da Energy Aspects, observou que “as ações na Venezuela serão claramente observadas e ouvidas no Irã e na Rússia.” Ela ressaltou a necessidade de que os líderes mundiais levem a sério as declarações de Trump.
Perda de um Aliado
Analistas enfatizam que a derrubada de Maduro não será celebrada em Moscovo, uma vez que essa mudança remove um aliado importante e um baluarte contra a influência e as aspirações dos EUA na América Latina.
Na avaliação de Tina Fordham, fundadora da Fordham Global Insight, a queda de Maduro representa o desmoronamento de mais um estado cliente da Rússia, diminuindo significativamente o valor de uma garantia de segurança por parte do Kremlin.
Além disso, Fordham apontou que a operação dos EUA superou facilmente os sistemas de defesa aérea S-300 da Rússia que haviam sido instalados na Venezuela, assim como falharam em fornecer proteção aérea na Síria e no Irã.
Fonte: www.cnbc.com

