Retorno sobre Investimentos em Cenário Econômico Desafiador
Como posicionar a carteira em um ambiente de juros elevados, câmbio volátil e bolsa que já acumula forte valorização nos últimos meses? Essa foi uma das questões centrais abordadas por Luis Stuhlberger, CEO e CIO do Verde Asset Management, em uma palestra realizada nesta terça-feira (27), no UBS LAIC. Durante a apresentação, o gestor detalhou a estratégia do fundo, explicando como combina a exposição a ações, títulos indexados à inflação e estruturas de câmbio para lidar com o atual cenário da economia brasileira.
Composição da Carteira
Segundo Stuhlberger, a carteira do Verde mantém uma alocação diversificada, buscando um equilíbrio entre investimentos em bolsa, títulos de juros e operações de câmbio. “Temos uma carteira diversificada de ativos de bolsa, NTN-B 35 [Tesouro IPCA+ 2035] e algumas estruturas de câmbio. Nesse quesito, buscamos um relativo equilíbrio entre as exposições, incluindo alguns produtos de hedge,” afirmou.
Desempenho da Bolsa em Comparação a Outros Ativos
Na avaliação do gestor, a bolsa brasileira apresentou um desempenho muito superior ao do câmbio e dos juros nos últimos meses, gerando distorções significativas entre os preços relativos dos ativos. “Se você observar a outperformance da bolsa em relação ao câmbio e ao juro, é imensa,” disse.
Mesmo após a recente valorização, Stuhlberger acredita que esse movimento não reflete necessariamente uma melhora estrutural no cenário econômico interno, mas sim ajustes relativos e fatores externos que impactam o mercado. Para ele, o câmbio permanece sendo um dos ativos mais desalinhados em relação aos fundamentos da economia. “Em nossa análise, a moeda está ainda extremamente desalinhada. Quando olhamos para nossos modelos, o preço justo seria em torno de R$ 4,40, o que representa um desvio de 26%,” completou.
Essa percepção justifica a presença de estruturas de câmbio na carteira do fundo, tanto como instrumentos de proteção quanto como oportunidades para capturar correções de preço ao longo do tempo.
Expansão de Múltiplos Impulsiona Ações de Commodities e Bancos
Parte do desempenho da bolsa, segundo Stuhlberger, se deve menos a mudanças significativas nos preços das commodities e mais a uma expansão de múltiplos, motivada por fatores globais e por um fluxo de capital estrangeiro em direção às bolsas de países emergentes. “Um movimento, que vem de fora, é a expansão de múltiplos em ações de commodities e financials, resultante desse movimento de saída de ativos dolarizados,” afirmou.
O gestor destacou que esse fenômeno foi particularmente notável em empresas como Vale e Petrobras. “A expansão de múltiplo em Vale e Petrobras foi significativa, e isso ocorreu sem alta no minério de ferro e no petróleo,” disse, enfatizando que o movimento foi mais financeiro do que operacional.
Fluxo Global Incipiente e Potencial Elevado
Ao discutir o contexto internacional, Stuhlberger ressaltou o volume significativo de recursos concentrados nos Estados Unidos e o impacto que uma eventual realocação pode ter nos mercados globais. Segundo ele, investidores estrangeiros detêm atualmente cerca de US$ 36 trilhões em ativos americanos, que incluem dívida pública, dívida corporativa e ações. “Se apenas 3% disso for direcionado para outros mercados, representaria um movimento colossal,” acrescentou.
Apesar desse potencial, o gestor fez uma observação cautelosa, afirmando que o fluxo de capital estrangeiro ainda não se concretizou de maneira clara. “Até o momento, não observamos uma saída significativa; temos notado um fluxo menor de entradas,” ressaltou, sugerindo que o movimento recente pode estar mais ligado à diminuição da demanda por ativos dolarizados do que a uma efetiva migração de capital para outros mercados.
Contexto Macroeconômico e Riscos Futuros
Embora o cenário macroeconômico atual ajude a sustentar a atividade e os preços dos ativos no curto prazo, o ambiente fiscal apresenta riscos que podem se agravar em um horizonte mais longo. Para Stuhlberger, a resiliência da economia brasileira está fortemente atrelada ao impulso fiscal e de crédito disponível atualmente. “Quando analisamos o nosso cenário macro, percebemos que estamos com juros em 15% e um déficit nominal em torno de 8-9% do PIB, sem perspectiva de melhora – especialmente em função das eleições. Isso explica a atual resiliência da economia brasileira,” afirmou.
O gestor destacou que a arrecadação do governo já alcançou níveis elevados quando comparado a outros países emergentes. Com uma carga tributária equivalente a 34,3% do PIB e cerca de 2,5% do PIB em receitas não tributárias, como royalties e dividendos provenientes de estatais, o total arrecadado soma 37,8% do PIB. Considerando o déficit primário, o gasto público totaliza 38,5% do PIB. “Essa taxa é insustentável para um país emergente e com dificuldades econômicas,” disse.
De acordo com Stuhlberger, o ponto de inflexão pode ocorrer quando o governo precisar implementar um ajuste fiscal. “A questão que fica é: o que acontecerá na nossa economia quando o governo for forçado a realizar um ajuste fiscal? Encerraremos esse governo com uma relação entre dívida e PIB acima de 80%”, ponderou.
Esse nível de endividamento, conforme Bruno Coutinho, cofundador e CEO da Mar Asset Management, estabelece o contexto para um risco estrutural, conhecido como dominância fiscal. “Uma relação entre dívida e PIB superior a 80% cria um pano de fundo que pode inviabilizar o Banco Central na condução da política econômica,” afirmou.
Coutinho explicou que esse tipo de cenário surge quando o aumento das taxas de juros deixa de ser eficaz no controle da inflação, já que eleva o custo da dívida pública, agrava o quadro fiscal e pode reativar as expectativas inflacionárias. Não obstante, ele destacou que esse risco ainda não se manifesta nos preços dos ativos. “Esse é um risco que paira sobre a economia brasileira, mas só se torna evidente quando há uma aceleração inflacionária. No momento, isso não é o que estamos observando,” concluiu.
O contexto atual ainda se caracteriza como relativamente benigno, com uma apreciação do real e um ambiente internacional favorável para mercados emergentes. “Estamos vendo o real se valorizando em um cenário global que é positivo para emergentes. Apesar da presença do risco de dominância fiscal, esse cenário não está se manifestando neste momento,” finalizou Stuhlberger.
Fonte: borainvestir.b3.com.br


