Como um bolo estragado desencadeou uma crise no setor de delivery na China?

Como um bolo estragado desencadeou uma crise no setor de delivery na China?

by Fernanda Lima
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A Investigação de Fornecedores Irregulares de Alimentos na China

A reclamação de um cliente referente a um bolo insatisfatório deu início a uma investigação de grande porte que revelou a existência de milhares de fornecedores irregulares de alimentos na China. Essa situação resultou em multas significativas aplicadas a algumas das principais empresas do país, evidenciando os riscos associados à intensa concorrência de preços.

O Caso que Iniciou a Investigação

A investigação, marcada pela tensão entre os investigadores e funcionários de serviços de entrega, além de uma falsa emergência médica, começou no verão do ano passado. Um homem em Pequim, identificado como Liu, encomendou um bolo de aniversário decorado com uma flor não comestível, segundo diversas reportagens da mídia estatal. O cliente expressou sua insatisfação e decidiu denunciar o fornecedor às autoridades locais.

Descoberta de Fornecedores “Fantasmas”

A ação dos reguladores revelou uma rede de confeitarias que operavam irregularmente, alegando ter quase 400 lojas, mas utilizando licenças comerciais falsas e sem a existência de estabelecimentos físicos. O incidente deflagrou uma investigação nacional e expôs uma cadeia de abastecimento alimentar paralela. Nela, um comerciante realizava a cobrança do pedido ao cliente e, em seguida, publicava a solicitação em uma plataforma intermediária, permitindo que outros produtores apresentassem propostas. O menor preço era escolhido, comprometendo a qualidade e a segurança alimentar.

De acordo com a agência de notícias estatal Xinhua, mais de 67.000 fornecedores irregulares foram identificados, os quais haviam vendido mais de 3,6 milhões de bolos.

Consequências para as Plataformas de Entrega

A Administração Estatal para a Regulamentação do Mercado, o órgão responsável pela supervisão do setor, concluiu a investigação na semana passada. Foram verificadas falhas significativas em sete grandes plataformas de entrega, incluindo PDD (proprietária da Temu), Alibaba, Douyin da ByteDance, Meituan e JD.com, quanto à proteção dos clientes e à verificação das licenças dos fornecedores de alimentos. Como resultado, foi imposta uma multa recorde total de 3,6 bilhões de yuans (equivalente a aproximadamente US$ 528 milhões), a maior penalidade desde a atualização da legislação de segurança alimentar no país em 2015.

Intensa Concorrência de Preços

A investigação de duração de 10 meses destacou os esforços do governo de Pequim para conter a concorrência desleal que levou as empresas a um ciclo insustentável, onde a busca por preços baixos comprometeu a segurança alimentar. As chamadas guerras de preços, também conhecidas como “involução” ou “neijuan” na China, têm se espalhado por vários setores nos últimos anos, abrangendo de veículos elétricos a painéis solares. Essa tendência tem exacerbado problemas de deflação na China, afetando negativamente a economia, à medida que os preços caem e o consumo enfraquece.

Ação do Governo

Como resposta ao cenário atual, Pequim lançou uma campanha anti-involução no ano anterior, prometendo coibir tais práticas nocivas em toda a economia. Recentemente, o jornal estatal Economic Daily publicou um artigo enfatizando a necessidade de terminar com as guerras de preços no setor de entrega de alimentos.

O jornal afirma que empresas do ramo alimentício foram forçadas a sacrificar a qualidade e a diminuir suas margens de lucro, resultando em um ciclo vicioso. Flora Chang, analista da agência de classificação de risco S&P Global Ratings, comentou sobre a intervenção do governo, referindo que houve algum impacto inicial na redução da concorrência desleal. No entanto, alertou que as plataformas poderiam encontrar novas formas de competir, incluindo subsidiar suas operações de outras maneiras.

Cenário de Concorrência Desleal

Um exemplo apresentado pela Xinhua ilustra a complexidade da situação: um consumidor pagou 252 yuans (cerca de US$ 35) por um bolo de 15 centímetros, mas a encomenda foi revendida de forma clandestina por meio de uma plataforma intermediária. Assim, fornecedores deram lances de 100, 90 e 80 yuans para atender ao pedido, com o menor valor sendo selecionado. Como consequência, o comerciante irregular ganhou quase metade do preço pago pelo consumidor, enquanto a plataforma de entrega ficou com uma taxa de serviço de 20%, deixando apenas 30% para o verdadeiro padeiro, o que reduziu significativamente sua margem de lucro.

Um funcionário da Administração Estatal de Regulamentação do Mercado, Han Bing, descreveu essa prática irregular como um novo tipo de atividade ilegal que se tornou industrializada e em larga escala.

Atos de Resistência durante a Investigação

No processo de mapeamento da cadeia de abastecimento irregular, os reguladores se depararam com a falta de cooperação por parte de funcionários de plataformas de entrega. De acordo com o jornal estatal China Quality Daily, houve casos em que um funcionário escreveu discretamente em um papel “fique calado” durante um interrogatório, e outro episódio envolveu um grupo liderado pelo chefe de segurança que invadiu o local da investigação, agredindo os agentes da lei.

Após um episódio em que um executivo desmaiou durante o interrogatório, foi constatado que ele não apresentava problemas médicos graves. Essas ocorrências foram caracterizadas como parte de um padrão de obstrução, enquanto outras empresas também atrasaram a disponibilização de dados ou forneceram informações incompletas às autoridades.

Penalidades Aplicadas

A PDD foi alvo da penalidade mais severa entre as sete empresas multadas, recebendo um total de 1,5 bilhão de yuans (aproximadamente US$ 221 milhões). Essa punição foi justificada pela recusa recurrente da empresa em fornecer informações relevantes, pela apresentação de documentos falsificados e, em alguns casos, pela resistência violenta à aplicação das regulamentações.

Em resposta, a PDD anunciou que aceitaria as penalidades e se comprometeu a encarar essa situação como uma oportunidade para melhorar suas operações. Outras empresas como Alibaba, Douyin, Meituan e JD também emitiram declarações semelhantes, reconhecendo as penalidades e prometendo reforçar suas medidas de conformidade e governança para eliminar práticas inadequadas.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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