Crédito mais seletivo revela disparidades entre incorporadoras, afirma Itaú BBA.

Mercado de Crédito Privado para Incorporadoras

O mercado de crédito privado voltado para incorporadoras está atravessando uma fase mais seletiva, em decorrência do elevado custo de capital e da maior restrição ao funding tradicional. De acordo com o Itaú BBA, o setor imobiliário permanece com fundamentos sólidos. No entanto, o acesso ao financiamento passa a depender, cada vez mais, de fatores específicos relacionados a cada empresa, como níveis de alavancagem, liquidez e capacidade de geração de caixa.

O setor apresentou um desempenho robusto ao longo de 2025, com resultados positivos tanto na faixa econômica quanto nos segmentos de média e alta renda. Contudo, o banco nota sinais crescentes de desaceleração, especialmente na classe média, onde a demanda se mostra mais sensível às condições de crédito.

Segmento de Baixa Renda

No segmento voltado para a baixa renda, o cenário continua sendo favorável, sustentado pelo fortalecimento do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). O funding recorde do FGTS, que se aproxima de R$ 125 bilhões, aliado à ampliação do programa — que inclui a redução das taxas, aumento dos limites de renda e do preço-teto, bem como a criação de uma nova faixa — tem garantido uma elevada velocidade nas vendas e uma maior previsibilidade de repasses para as incorporadoras que estão expostas a este programa.

Segmento de Média e Alta Renda

funding proveniente da poupança (SBPE), que atualmente enfrenta um fluxo negativo, está pressionando o crédito imobiliário. Isso eleva o custo das parcelas e exige um maior uso de fontes alternativas para financiamento. Algumas medidas anunciadas, que visam liberar cerca de R$ 38 bilhões, ajudam na margem, mas são consideradas insuficientes para reverter a situação a curto prazo.

Diante desse panorama, o Itaú BBA projeta que 2026 demandará maior disciplina das empresas, com um ritmo de lançamentos reduzido, ênfase na venda de estoques e a preservação das margens, especialmente entre as companhias mais expostas à classe média.

Análise por Incorporadora

Entre as incorporadoras que atuam nos segmentos de média e alta renda, Cyrela e Eztec se destacam por conseguirem equilibrar o crescimento com a execução de seus projetos.

A Cyrela acelerou os lançamentos, totalizando R$ 13 bilhões em 2025, o que representa um aumento de 35% em comparação ao ano anterior. As vendas, no entanto, permaneceram praticamente estáveis, alcançando R$ 9,2 bilhões. O crescimento dos estoques, especialmente em São Paulo, requer atenção redobrada. Do lado financeiro, a alavancagem aumentou em função da queima de caixa e do pagamento de dividendos. Entretanto, a companhia mantém uma liquidez elevada, com aproximadamente R$ 7 bilhões disponíveis em caixa.

A Eztec também ampliou seus lançamentos, registrando um crescimento de 46,7%. A empresa apresenta uma alavancagem baixa, de 2,9%. Contudo, o incremento no número de projetos em fase inicial está pressionando o reconhecimento de receita, enquanto o estoque pronto gera preocupação, embora as margens se mantenham elevadas.

No segmento econômico, as incorporadoras Direcional e Pacaembu atuam como destaques, fundamentadas pelo bom desempenho do MCMV. Ambas apresentam uma velocidade de vendas elevada e margens robustas.

A Direcional, entretanto, registrou um aumento do endividamento após o pagamento de dividendos, optando por ampliar o uso de cessão de recebíveis. Esse movimento inicialmente melhora o giro de caixa, mas também aumenta os riscos em um ambiente mais adverso. A companhia, por sua vez, mantém dívida alongada e uma liquidez adequada para honrar os vencimentos de longo prazo.

A Pacaembu, por sua vez, combina crescimento com uma estrutura de capital considerada conservadora. A empresa apresentou lançamentos e vendas recordes, contabilizando um VSO de 69% e um landbank robusto. Apesar da redução no caixa após o pagamento de dividendos, a companhia não enfrenta concentrações relevantes de amortizações em curto prazo.

A MRV, por sua vez, se destaca como o caso mais sensível sob a perspectiva de crédito. A operação brasileira continua sólida, mas a subsidiária Resia mantém a pressão sobre a alavancagem e a liquidez da empresa. Ao final de 2025, a MRV encerrou com uma dívida líquida equivalente a 102,9% do patrimônio líquido, ou 173% quando ajustada por cessão de recebíveis, e enfrenta vencimentos significativos entre 2026 e 2027 que superam o caixa disponível. Nesse caso, a desalavancagem dependerá da venda de ativos nos Estados Unidos.

A Plaenge aparece em uma posição intermediária, com crescimento acompanhado por uma alavancagem ainda elevada, próxima de 60%. A companhia combina um ritmo de lançamentos mais contido com um aumento nas entregas, o que sustenta a receita. A manutenção de uma posição robusta de caixa e a estrutura de dívida ajudam a mitigar parcialmente os riscos, mesmo com a concentração de vencimentos em 2027 ainda presente no radar.

Para o ano de 2026, o Itaú BBA destaca que o acompanhamento do setor deverá se concentrar na evolução das vendas e estoques, no controle na distribuição de dividendos, no uso de cessão de recebíveis e no comportamento dos custos de construção. Para a MRV, o foco permanecerá na execução do plano de desalavancagem.

A avaliação do banco é de que o crédito privado permanecerá firme, mas com critérios mais rigorosos, favorecendo empresas com balanços mais sólidos e maior previsibilidade de caixa, enquanto maiores pressões serão impostas sobre empresas mais alavancadas ou que dependem de eventos específicos para seu andamento.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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