A série “O Testamento: O segredo de Anita Harley”
A série “O Testamento: O segredo de Anita Harley”, disponível na plataforma Globoplay, tornou-se um dos conteúdos mais visualizados ao abordar uma disputa judicial complexa e repleta de reviravoltas. O documentário analisa a luta pela curatela e pelo controle da riqueza de Anita Harley, que é a principal acionista da empresa Pernambucanas. Desde 2016, ela se encontra em coma após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). O caso envolve uma série de personagens e versões conflitantes, incluindo um suposto testamento e alegações de relações e herdeiros não revelados anteriormente.
Com aproximadamente R$ 2 bilhões em disputa, a produção ressalta como conflitos familiares dessa magnitude podem adquirir contornos dramáticos. Além disso, evidencia que situações semelhantes não são exceções em famílias poderosas no Brasil, trazendo à tona também conflitos relacionados a outros clãs famosos, como os da família Safra, as Casas Bahia e a Fiat.
Família Safra: briga bilionária, ruptura familiar e acordo final
A disputa pela herança do banqueiro Joseph Safra, falecido em 2020, gerou um conflito judicial entre os herdeiros do que era considerado o homem mais rico do Brasil, dono de uma fortuna estimada em R$ 119,08 bilhões. Este embate tornou-se público em 2023, quando Alberto Safra processou sua mãe, Vicky Safra, e seus irmãos, Jacob e David. A acusação principal dizia respeito à suposta diluição deliberada da participação de Alberto na holding Safra National Bank.
Entretanto, para compreender a origem da disputa, é importante voltar a 2019. Naquela época, Alberto recebeu uma antecipação de sua herança e decidiu deixar o conselho de administração do grupo para fundar sua própria gestora, chamada ASA. Essa decisão contrariou a visão de seu pai, Joseph Safra, que sempre enfatizava a continuidade dos negócios dentro da estrutura familiar.
A saída de Alberto do grupo representou uma ruptura significativa e foi interpretada como uma mudança em sua posição dentro do imenso império Safra. Após meses de litígios e negociações, a família anunciou um acordo em 2024, encerrando o conflito. Por meio de um comunicado, foi informado que Alberto desinvestiria seus interesses no grupo e seguiria sua trajetória empresarial de forma independente.
O término da disputa foi marcado por um discurso de reconciliação, no qual os familiares expressaram sua satisfação em “deixar o assunto para trás” e preservar os laços, buscando fechar um capítulo que expôs publicamente tensões raramente vistas em uma das famílias mais discretas do país.
Casas Bahia: acusações, perícia e novas frentes de disputa
A disputa pela herança de Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, expansiva em complexidade, começou após sua morte em 2014, envolvendo seus filhos, Michael, Eva e Saul, em um conflito que gira em torno de um patrimônio avaliado em R$ 15 bilhões. O clímax dessa narrativa se deu quando Saul, o filho mais novo, acusou Michael, que era responsável pelo testamento e pelo inventário, de falsificar assinaturas de seu pai para garantir uma parte maior da herança.
A denúncia resultou em uma investigação que avaliou decisões financeiras críticas da companhia, incluindo a falta de distribuição de dividendos em 2015 e 2019, além da venda de imóveis e créditos tributários entre 2021 e 2022. Suspeitas emergiram quanto a essas operações terem sido realizadas para beneficiar alguns herdeiros em detrimento de outros.
Uma perícia técnica, no entanto, concluiu que as assinaturas eram autênticas, levando a Justiça a rejeitar a acusação de falsificação. Apesar disso, o caso continuou se desdobrando em novas direções e complexidades. Saul apresentou uma nova petição, na qual alegava ter descoberto que sua irmã, Eva Lea, fora declarada incapaz pela Justiça dos Estados Unidos em 2019 devido a uma demência frontotemporal, informação que não teria sido apresentada nos tribunais brasileiros, mesmo que Eva tenha assinado documentos considerados essenciais para o inventário.
Adicionalmente, Saul, já com mais de 70 anos, solicitou a antecipação de sua herança após uma internação em UTI, mas seu pedido foi negado pela Justiça. Outro fator que contribuiu para a tensão no caso foi a condenação de Saul, em 2023, por um processo do Ministério Público do Trabalho, que o responsabilizou por tráfico de mulheres e exploração sexual, resultando em uma indenização fixada em R$ 30 bilhões. Com várias frentes de disputa ainda em aberto, a questão permanece sem resolução e se arrasta por mais de uma década.
Fiat: herança, documentos conflitantes e disputa por poder
A luta pela herança de Gianni Agnelli ultrapassa a simples divisão de bens, transformando-se em uma disputa pelo controle de um dos maiores impérios industriais da Europa. Gianni Agnelli, que faleceu em 2003, deixou uma fortuna estimada em US$ 14,2 bilhões, conforme informações do Bloomberg Billionaires Index. O foco da disputa reside no controle da holding Dicembre, uma peça fundamental na estrutura de grupos como Stellantis e Exor, que administra a Ferrari e a Juventus.
Após a morte de Gianni, sua esposa, Marella Caracciolo, passou a seguir as diretrizes de uma carta de 1996, transferindo 25% da Dicembre ao neto John Elkann. Essa decisão assegurou a Elkann o controle sobre os negócios da família e consolidou sua posição como o principal herdeiro do império.
Entretanto, a configuração da herança começou a ser desafiada por Margherita Agnelli, filha de Gianni. Ela apresentou um documento mais recente, datado de 1998, que sugeria uma divisão diferente da participação, otorgando a seu irmão Edoardo Agnelli os 25% da holding. É relevante notar que Edoardo faleceu em 2000, antes mesmo do pai, o que complica ainda mais a disputa legal.
O caso ganhou novo impulso em 2025, quando surgiu a possibilidade de reinterpretação da divisão patrimonial. Margherita argumenta que a estrutura vigente favoreceu desproporcionalmente os três filhos de seu primeiro casamento, enquanto os cinco filhos do segundo casamento teriam recebido menos do que o que seria justo. Se essa argumentação avançar, a redistribuição da fortuna pode alterar substancialmente o equilíbrio de poder dentro da família e, consequentemente, nas empresas associadas ao grupo.
Por outro lado, John Elkann e sua equipe jurídica defendem que a divisão feita em 2004 é definitiva e não pode ser revista.
Fonte: www.moneytimes.com.br