Alterações na Estratégia de Financiamento da Dívida Pública
O Tesouro Nacional tem implementado alterações significativas em sua estratégia de financiamento da dívida pública brasileira em resposta a um cenário mais desafiador para a emissão de títulos de longo prazo. Nos últimos anos, a participação de papéis pós-fixados, vinculados à taxa Selic, aumentou na composição da dívida. Em contrapartida, os títulos prefixados e os indexados à inflação perderam espaço. Atualmente, os títulos atrelados à taxa básica representam 50,1% do estoque da dívida atual, um aumento em relação aos 41% registrados há três anos.
Fatores que Influenciam a Captação
Essa mudança de estratégia responde a diversos fatores que impactaram a capacidade de captação do governo. Entre os motivos estão os cancelamentos de leilões, a redução da oferta de certos papéis e a utilização do colchão de liquidez do Tesouro Nacional para gerenciar o cronograma de financiamento. No atual contexto, o alongamento dos vencimentos tem ocorrido, em grande parte, por meio das Letras Financeiras do Tesouro (LFTs). Por outro lado, a demanda pelas Notas do Tesouro Nacional Série B (NTN-B), que são vistas como estratégicas para estabilizar os custos de longo prazo, diminuiu de forma significativa.
Redução na Demanda pelas NTN-Bs
Diversas razões contribuem para a queda da demanda pelas NTN-Bs. Nos últimos dois anos, os fundos de pensão e previdência praticamente interromperam sua expansão, um movimento que está associado às mudanças na tributação dos planos de previdência. Ademais, em maio, houve uma saída de investidores estrangeiros do mercado, além de um aumento expressivo nos juros reais, que subiram de cerca de 6% para 8% ao ano.
Embora as NTN-Bs ofereçam uma remuneração fixa de até 8% ao ano, elas ainda enfrentam dificuldades para atrair compradores dispostos a correr o risco de marcação a mercado. De acordo com Ricardo Gallo, da Ethica Serviços Financeiros, tal problema não decorre da capacidade de pagamento do governo.
“É uma perda que o investidor de renda fixa não está preparado para absorver”, afirmou Gallo.
Impacto da Elevação de Juros Reais
O especialista explica ainda que, em um título com uma duration de oito anos, uma elevação do juro real de 6% para 8% pode resultar em uma perda aproximada de 16% no valor principal durante a marcação a mercado, o que leva a uma diminuição do apetite dos investidores por esses ativos.
Os dados que compõem a dívida mostram diferenças significativas entre os perfis dos investidores. Enquanto os estrangeiros possuem cerca de 10% da dívida pública total, essa participação varia conforme o tipo de papel. Eles concentram aproximadamente 42% das NTN-Fs, 28% das Letras do Tesouro Nacional (LTNs) e somente cerca de 3% das NTN-Bs.
Mudanças nos Indicadores de Prazo da Dívida
A ascensão das LFTs também alterou os indicadores de prazo da dívida pública. Em maio, o prazo médio caiu para 47,5 meses, abaixo dos 48,9 meses registrados no ano anterior. O prazo médio das LFTs aumentou de 68,5 para 73,6 meses. Em contrapartida, os títulos prefixados diminuíram seu prazo de 43,3 para 31,8 meses, enquanto as NTN-Bs passaram de 98,5 para 87,8 meses.
Simultaneamente, o risco de repactuação da dívida está em ascensão. Esse indicador aumentou de 58,5% em 2024 para 63% em maio. A exposição total aos títulos indexados à Selic e às operações compromissadas chegou a R$ 5,27 trilhões, correspondendo a 52,6% da dívida pública.
Ricardo Gallo também criticou o cálculo do prazo médio da dívida.
“Se você tem 99% da sua dívida vencendo em um ano e 1% em 100 anos, o prazo do resto da sua dívida é um ano,” disse ele, ilustrando um exemplo hipotético em que os 100 anos distorcem a média.
Emissões e Projeções
Os números de emissão reforçam a mudança na estratégia de financiamento. A emissão líquida das NTN-Bs foi de R$ 417 bilhões em 2025 e está projetada para R$ 590 bilhões em 2026. Já as LFTs, a emissão líquida subiu de R$ 786 bilhões em 2025 para uma projeção de R$ 1,07 trilhão em 2026.
Apesar desse movimento ascendente, Ricardo Gallo aponta que as LFTs também enfrentam desafios na atração de investidores. Atualmente, esses títulos oferecem um prêmio de aproximadamente 0,10% ao ano acima da Selic, considerado insuficiente em comparação com aplicações que oferecem liquidez diária e já remuneram integralmente a taxa básica.
“Se eu tenho liquidez diária aplicando a 100% da Selic, por que vou comprar um papel de cinco anos que paga 0,10 ponto percentual a mais?”, questionou Gallo.
Considerações sobre o Prêmio das LFTs
Na visão do especialista, o prêmio oferecido pelas LFTs deveria ser maior.
“Eu não estou falando de 110% do CDI, mas estou falando de 102% ou 103%”, afirmou em entrevista ao InfoMoney.
Ricardo Gallo destaca que a atuação do Tesouro acaba concorrendo diretamente com o mercado privado.
“Quem está atrapalhando as emissões privadas é o Tesouro”, declarou.
Ele também alertou sobre os riscos associados ao cenário macroeconômico.
“Aí a inflação sobe e o mercado volta a estressar”, advertiu Gallo.
De acordo com sua análise, esse desafio deverá ser enfrentado ao longo dos próximos 12 meses, “por bem ou por mal”.
Além dos fatores internos, o ambiente internacional também afeta o comportamento dos investidores. Desde 2020, os rendimentos dos títulos públicos de países como Estados Unidos, Europa e Japão têm apresentado forte alta, aumentando a concorrência global por recursos direcionados à renda fixa.
Sensibilidade das Contas Públicas
Com a maior concentração da dívida pública em títulos pós-fixados, a sensibilidade das contas públicas às decisões de política monetária tende a aumentar. Para o mercado financeiro, esse cenário pode resultar em uma elevada volatilidade dos juros futuros, impactar o comportamento da taxa de câmbio entre o Dólar Americano e o Real Brasileiro, e influenciar o desempenho da bolsa de valores brasileira, especialmente nos setores que são mais dependentes do custo de financiamento. A evolução da demanda pelos títulos públicos continuará sendo monitorada por investidores e analistas, em função de seus reflexos sobre o custo da dívida e as expectativas para a política fiscal.
Fonte: br.-.com