Desaceleração da Economia Brasileira
A economia brasileira deve continuar em um processo de desaceleração gradual ao longo do segundo semestre de 2023, segundo a análise de especialistas. Este cenário resulta de uma combinação de fatores, incluindo a política monetária restritiva que limita a atividade econômica, as tarifas impostas pelos Estados Unidos aumentando a incerteza no mercado e o pagamento de precatórios, além de um mercado de trabalho aquecido, que atua como um freio na economia.
Crescimento do PIB
Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram, em um relatório emitido nesta terça-feira, que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil desacelerou para 0,4% no segundo trimestre de 2023. Em comparação, o crescimento havia sido de 1,4% nos primeiros três meses do ano. As expectativas são de que a atividade econômica permaneça em níveis baixos no futuro próximo.
“O resumo à frente ainda é de desaceleração. A melhor palavra hoje é acomodação da atividade”, explicou Lucas Barbosa, economista da AZ Quest. Ele prevê um crescimento de apenas 0,1% no terceiro trimestre, com o PIB registrando uma alta acumulada entre 2% e 2,2% ao longo do ano, depois de um aumento de 3,4% em 2024.
Para Barbosa, a situação do crédito merece atenção, uma vez que a taxa básica de juros Selic está fixada em 15%, e o Banco Central já indicou que essa taxa permanecerá em um nível restritivo por um tempo prolongado. “O crédito tem dado sinais de desaceleração, ao mesmo tempo em que os indicadores de saúde financeira das famílias têm apresentado preocupações”, destacou.
Inadimplência e Confiança
Em julho de 2023, a taxa de inadimplência no Brasil alcançou 5,2%, que é o nível mais alto desde novembro de 2017, conforme dados do Banco Central (BC). Além disso, análises feitas com base nas pesquisas da Fundação Getulio Vargas indicaram uma queda na confiança entre consumidores, indústrias e serviços em agosto. Essa diminuição da confiança é atribuída à cautela em um ambiente caracterizado por juros elevados, incertezas econômicas e aumento no endividamento das famílias.
Entretanto, os efeitos do aperto monetário na economia estão sendo atenuados por estímulos fiscais. Um exemplo notável é o pagamento de R$ 60,5 bilhões em precatórios realizado pelo governo em julho, além de um mercado de trabalho robusto com crescimento na renda, que deve continuar a se manter por mais tempo.
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, avaliou que “o impacto não está sendo maior devido aos estímulos fiscais, como os precatórios. Se não fossem esses estímulos fiscais, a desaceleração seria mais intensa”. Ela calcula uma retração de 0,3% do PIB no terceiro trimestre, porém uma alta de 0,6% no quarto, resultando em uma expansão total de 2% ao final do ano.
Tarifas dos Estados Unidos
Diante de incertezas relacionadas às tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, especialistas acreditam que essas tarifas não devem causar uma desestabilização significativa na economia do Brasil. Isso se deve à existência de amplas isenções e à melhoria das relações comerciais com a China.
“A questão das tarifas deve ter algum impacto, mas, considerando as negociações e isenções de alguns produtos, este impacto tende a ser menor. Além disso, os precatórios ajudam a suavizar parte do impacto proveniente dessas tarifas, pois representam dinheiro disponível na mão do consumidor”, afirmou Leonardo Costa, economista do ASA. Ele projeta uma expansão do PIB de 0,2% no terceiro trimestre e estagnação no quarto.
Barbosa, da AZ Quest, também acredita que o impacto direto das tarifas é pequeno, mas ressalta que o principal risco reside na possibilidade de uma desaceleração global, já que as elevações nas taxas dos EUA podem afetar diversos países. “O principal risco causado pelas tarifas atualmente não é um impacto direto, mas a desaceleração da demanda global. Isso reduziria a necessidade de nossos produtos”, comentou. Ele sugere um redirecionamento das exportações, buscando novos mercados.
Medidas do Governo
O plano de ações do governo para apoiar setores afetados pelas tarifas, que compreende uma série de iniciativas como a concessão de crédito, prorrogações de obrigações tributárias e incentivos para exportações e compras governamentais, tende a causar impactos pontuais.
Costa, do ASA, observou que “as medidas são bem-vindas e devem ajudar setores específicos; no entanto, a maioria das ações se baseia em crédito ou isenções tributárias, e, portanto, não têm um impacto tão direto sobre o PIB”.