Queda nos Preços ao Consumidor
Na terça-feira, o Departamento de Estatísticas do Trabalho divulgou a informação de que os preços ao consumidor apresentaram uma diminuição em junho em comparação ao mês anterior. Este evento marca a primeira redução mês a mês em dois anos e apenas a terceira desde o início da pandemia.
Causas da Queda
A maior parte dessa queda nos índices de preços é atribuída à forte diminuição nos preços do gás e do petróleo durante o mês passado, especialmente após a assinatura de um memorando de entendimento entre o presidente Donald Trump e o Irã. Na semana anterior, Trump declarou o acordo como “encerrado”, o que resultou em uma leve recuperação nos preços do petróleo.
Ao desconsiderar a volatilidade dos preços do petróleo, no entanto, o panorama inflacionário não parece tão otimista.
Impactos da Queda nos Combustíveis
Estimativas da FactSet indicam que economistas previam uma queda de 0,2% nos preços gerais em junho devido à acentuada queda nos preços dos combustíveis. Adicionalmente, eles previam uma desaceleração na taxa de inflação anual.
Conforme dados divulgados pelo Departamento de Estatísticas, o índice de preços ao consumidor subiu 3,5% nos 12 meses anteriores a junho, após uma alta de 4,2% em maio. Este indicador mostrou um recuo de 0,4% em junho, depois de um aumento de 0,5% em maio.
Os consumidores costumam notar aumentos de preços quando a média ultrapassa 2%, que é a meta do Federal Reserve. Segundo Kevin Warsh, novo presidente da instituição, o banco central não atingiu essa meta ao longo dos últimos cinco anos.
Entretanto, a redução nos custos de energia não elimina os aumentos de preços que já estavam em curso, causados pela alta prévia nos preços do petróleo e dos combustíveis, bem como pela oferta limitada de materiais essenciais, como fertilizantes e metais.
Claudia Sahm, economista-chefe da New Century Advisors, destacou que os aumentos nos preços da energia registrados entre fevereiro e maio ainda estão presentes na economia, refletindo-se em outros tipos de preços de bens e serviços.
Ela também comentou que esses impactos levam algum tempo para chegar aos consumidores, mas observou que o indicador de inflação “núcleo” — que exclui custos de energia e alimentos — pode oferecer uma visão mais precisa sobre como esses aumentos de preços estão se disseminando pela economia.
Aumento Persistente de Preços
A inflação subjacente já se encontrava em um nível elevado de 2,5% antes das tensões geradas pelos ataques dos EUA e de Israel ao Irã, continuando a crescer mês a mês até maio, quando atingiu 2,9% ao ano. Essa situação pode persistir por um período prolongado.
As empresas vêm repassando os custos gerados pelas tarifas impostas por Trump, o que provocou aumentos nos preços dos produtos. Além disso, os Estados Unidos enfrentam um fenômeno que os economistas classificam como inflação “persistente”.
Esse tipo de inflação se torna particularmente desafiador de controlar quando os preços dos serviços começam a subir — como em serviços de beleza, consultas médicas ou reparos em veículos. Esses preços geralmente não diminuem e tendem a seguir uma única direção: para cima.
A desinflação, que é a diminuição no ritmo de aumento dos preços, costuma ser mais lenta no setor de serviços, já que esses custos são amplamente determinados pela mão de obra. Diferentemente dos preços dos bens, que podem ser ajustados conforme a oferta e a demanda, os salários frequentemente não sofrem reduções.
A inflação persistente é um problema relevante por conta da estrutura da economia americana, que se baseia principalmente em serviços. Segundo o Federal Reserve de St. Louis, quase três quartos da economia dos EUA é composto por empresas desse setor.
Perspectivas e Desafios
No setor de serviços, existem algumas boas notícias: a área de habitação, que compõe uma parte significativa do Índice de Preços ao Consumidor, tem demonstrado um ligeiro, mas constante, caminho de desinflação nos últimos três anos. A inflação relacionada à habitação está em níveis vistos anteriormente entre 2016 e 2019.
Em contrapartida, a inflação nos serviços essenciais, excluindo o setor imobiliário, tem se mostrado notavelmente persistente e até acelerada no primeiro semestre deste ano. Economistas estão cada vez mais apreensivos em relação à possibilidade de que uma nova onda de inflação se some aos aumentos já existentes.
Inflação Artificial e Tecnologia
O grande esforço para estabelecer a base para a revolução da inteligência artificial tem altos custos. De acordo com análise do Morgan Stanley, estima-se que as empresas de tecnologia gastarão mais em IA no próximo ano do que o valor total utilizado pelos Estados Unidos em suas forças armadas.
A expansão dos centros de dados levou à elevação dos preços da eletricidade, com um aumento próximo de 6% no último ano. Os preços dos chips de memória e de armazenamento estão em alta, devido à grande demanda por parte dos centros de dados. Recentemente, a Apple anunciou aumentos nos preços do iPad e do Mac, em resposta à subida acentuada nos preços dos chips.
Segundo Abiel Reinhart, economista sênior do JPMorgan, a cada aumento de 10% nos custos de hardware relacionados à inteligência artificial, a inflação ao consumidor poderia subir cerca de 0,1%.
Além disso, a adição de recursos de IA em software empresarial também levará a aumentos nos preços. Por exemplo, a Microsoft elevou os preços do Office 365 para uso pessoal em 43% em fevereiro, após uma década de estabilidade, com a nova ferramenta de IA, Copilot, sendo o principal atrativo.
De acordo com a ata da reunião do Federal Reserve divulgada recentemente, a inteligência artificial deverá, eventualmente, aumentar a produtividade, reduzindo a inflação em longo prazo, porém, a data exata para que essa mudança ocorra ainda não é clara.
Reabastecimento Pós-Guerra
Em função da rápida diminuição dos estoques de armamentos dos Estados Unidos durante o conflito com o Irã, economistas projetam uma recuperação da produção industrial no segundo semestre do ano. O Pentágono solicitou um gasto de US$ 1,5 trilhão, incluindo um suplemento de 87,6 bilhões de dólares para reabastecer seu arsenal.
Esse incremento nos gastos com a fabricação de armamentos e com a tecnologia de inteligência artificial resultará em uma demanda acentuada por componentes tecnológicos e mão de obra, justamente em um momento em que esses recursos já estão escassos.
Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US, apontou que essa situação pode gerar um impulso favorável para uma economia que já está crescendo de maneira robusta, considerando que isso é, indiscutivelmente, inflacionário.
A guerra também provocou interrupções nas cadeias de suprimentos globais, influenciando a inflação que os consumidores enfrentam atualmente, conforme apontado em uma nova pesquisa do Fed de Atlanta.
Atualmente, os americanos enfrentam um aumento médio de preços de cerca de um terço a mais em comparação com os valores antes da pandemia. Gus Faucher, economista-chefe do The PNC Financial Services Group, destacou que serão necessários alguns anos de baixa inflação para que os consumidores considerem que a situação está retornando ao normal, prevendo um processo longo e gradual até que as percepções de bem-estar se reestabeleçam.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br