Impactos do Fechamento do Estreito de Ormuz
Se o Estreito de Ormuz permanecer fechado por um período prolongado, isso terá um impacto profundo na economia mundial, gerando efeitos diretos sobre a inflação, o crescimento e a estabilidade financeira. Esta previsão é de Robson Gonçalves, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
De acordo com Gonçalves, cerca de 20% do petróleo negociado globalmente transita pelo estreito, que conecta o Golfo Pérsico ao Mar da Arábia. Ele afirma que “qualquer interrupção significativa nessa rota provocaria um choque imediato nos preços do petróleo”.
Consequências Imediatas no Mercado
O primeiro efeito observado seria a escalada do preço do barril no mercado internacional. Essa variação teria um impacto extraordinário nas cadeias produtivas globalmente, uma vez que o petróleo afeta diretamente o transporte, a indústria e a produção de alimentos.
Gonçalves explica que “o aumento do preço do petróleo rapidamente se transforma em inflação global. Fretes se tornam mais caros, insumos aumentam, e o custo final é repassado ao consumidor”.
Flávio Gualter Inácio Inocêncio, diretor da Helios Advisory, projeta que os preços do barril poderão alcançar US$ 100 nas próximas semanas. Segundo ele, “mesmo que a Arábia Saudita e os Estados do Golfo ampliem a oferta, não é possível exportar sem o desbloqueio do Estreito de Ormuz”, conforme explicado ao veículo CNN Money.
Os países importadores de energia seriam, sem dúvida, os mais impactados, particularmente na Ásia e na Europa, regiões que são altamente dependentes do petróleo que transita por Ormuz.
Turbulência nos Mercados Financeiros
Gonçalves ressalta que o fechamento do estreito provocaria uma forte reação nos mercados financeiros. Ele prevê que haveria uma fuga para ativos considerados seguros, como o ouro. A expectativa é que as bolsas de valores experimentem uma queda, e países emergentes possam enfrentar desvalorização cambial e fuga de capitais.
Entre os ativos de menor risco, o ouro provavelmente se destacaria como a principal opção de investimento. Jason Vieira, economista chefe da DTVM e especialista em câmbio, afirma que o dólar perdeu sua posição de destaque. Desde a ascensão de Trump ao governo dos Estados Unidos, com uma postura voltada para a redução de juros e a possibilidade de indicar um presidente mais dovish no Fed, os eventos geopolíticos parecem ter um impacto diminuído no câmbio.
Além disso, Vieira observa que o excesso de liquidez global tem influenciado a resposta dos investidores. “Estamos enfrentando uma quantia excessiva de dinheiro circulando, dificultando prever se haverá um efeito relevante”, explica. Ele descreve o ambiente atual como mais cauteloso e menos impulsivo, com o mercado se mostrando cético em relação a novos eventos.
Esse cenário é comparado à guerra na Ucrânia, onde diversos cenários foram traçados, mas muitos acabaram se revelando equivocadamente projetados. A percepção é que o excesso de previsões tem reduzido a sensibilidade dos investidores a novos choques geopolíticos.
Os episódios recentes, que envolvem ataques a Dubai e aos Emirados Árabes Unidos, impactando aeroportos e o sistema aéreo, são interpretados como ocorrências pontuais. Segundo Gonçalves, “o movimento atual é natural em função de um evento militar. Trata-se de eventos de breve duração.”
Perspectivas a Longo Prazo
No tocante ao petróleo, o efeito a longo prazo pode divergir do esperado. Vieira alerta que “no longo prazo, o efeito poderá ser de queda, especialmente com a reintegração do Irã ao mercado, o que proporcionaria petróleo de melhor qualidade”.
No entanto, persistem dúvidas consideráveis no curto prazo, especialmente quanto à logística e à segurança das rotas marítimas. Vieira indaga se “empresas de petróleo evitarão que embarcações transitem por determinadas rotas. Isso continuará acontecendo? Não sabemos.”
Os custos logísticos também têm um papel importante nessa equação, assim como a duração e a intensidade do conflito. “Tudo depende de quanto tempo o conflito prosseguirá”, conclui.
Impactos sobre o Gás Natural
Em relação ao gás natural, os efeitos podem ser ainda mais diretos no curto prazo. Uma fração significativa do GNL (gás natural liquefeito) proveniente do Golfo, principalmente do Qatar, que se destaca como o maior exportador mundial, transita pelo Estreito de Ormuz, segundo Késsio Lemos, professor da USP (Universidade de São Paulo) e especialista em energia.
Ele afirma que “qualquer perturbação provoca pressão sobre os preços spot e eleva os custos de energia em diversos países, tendo um efeito particularmente acentuado sobre a Europa e a Ásia”, segundo reportado ao veículo CNN Money.
Desafios em Perspectiva
Do ponto de vista militar, o Irã possui a capacidade real de causar interrupções no estreito, o que já seria suficiente para gerar choques nos mercados. Contudo, especialistas acreditam que um fechamento prolongado do estreito é considerado improvável, pois isso exigiria uma resposta militar internacional, encabeçada pelos Estados Unidos.
Além disso, a maior parte do petróleo que passa pelo estreito abastece a Ásia, com destaque para a China, que mantém uma parceria estratégica com Teerã. Um bloqueio prolongado tenderia a contrariar interesses energéticos essenciais de Pequim, criando incentivos adicionais para que a China pressionasse contra tal movimento.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


