Inteligência Artificial pode se tornar a nova vilã da inflação? Especialistas indicam como resguardar seus investimentos.

Inteligência Artificial pode se tornar a nova vilã da inflação? Especialistas indicam como resguardar seus investimentos.

by Rafael Martins
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Alta do preço do petróleo, os impactos do fenômeno climático El Niño, o aumento no custo da gasolina, as contas de luz elevadas: diversas questões podem ser apontadas como responsáveis pela inflação. Entretanto, ao observar as perspectivas para os próximos meses, um fator menos evidente está começando a chamar a atenção do mercado e pode intensificar a alta dos preços tanto no Brasil quanto no restante do mundo. Este fator é a inteligência artificial. Enquanto inicialmente se esperava que sua adoção tornasse muitos produtos mais acessíveis, os investimentos na criação da infraestrutura necessária para sua implementação trouxeram um efeito colateral inesperado: a elevação nos preços de semicondutores, energia elétrica, materiais básicos e construção, resultando em uma pressão inflacionária significativa.

Recentemente, Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve dos Estados Unidos e ex-secretária do Tesouro Americano, defendeu em um evento da Expert XP que a inteligência artificial está contribuindo para o aumento da inflação global. Essa afirmação foi apoiada por diversos agentes do mercado, incluindo Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, que vê os investimentos em IA como um componente que pode contribuir para a inflação brasileira no longo prazo.

Diante desta teoria, surgem questionamentos: será que essa afirmação tem fundamento ou é uma mera tendência do momento no mercado financeiro? O Bora Investir procurou entender quem são os beneficiados, quem são os prejudicados e como os investidores podem proteger suas carteiras neste contexto. A seguir, as informações.

IA gera mesmo inflação?

Com base nas opiniões dos especialistas consultados, existe um consenso de que a inteligência artificial pode, de fato, provocar um aumento inflacionário. Contudo, eles enfatizam que essa é uma análise de curto prazo, uma vez que o que estamos experimentando é a inflação associada à construção e implementação da IA, e não ao seu uso em operações rotineiras.

Paulo Ernani, COO da AVEX AI Lab, aponta que o cenário atual deve ser interpretado como a fase inicial de uma revolução tecnológica. Nessa fase, frequentemente observamos um choque de demanda sobre recursos limitados antes que se possam colher os frutos da produtividade. “Isso aconteceu com a introdução das ferrovias, a eletrificação e a internet nos anos 1990”, comenta Ernani.

Os investimentos realizados pelas grandes empresas de tecnologia em inteligência artificial oferecem evidências para essa análise. Ernani relembra que empresas como Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft planejam investir cerca de US$ 720 bilhões até 2026, principalmente na construção de data centers. Esses investimentos devem elevar os preços de semicondutores, eletricidade, mão de obra e insumos de construção.

O banco JPMorgan já projeta que alguns chips de memória poderão ter um aumento de mais de 400% no valor nos próximos dois anos, até o final de 2026. Além disso, a Apple já repassou aos consumidores um aumento de 15% a 25% nos preços de produtos como MacBooks e iPads.

Nos Estados Unidos, a expectativa é de que os data centers respondam por quase metade do crescimento da demanda elétrica até 2030. O Goldman Sachs antecipa uma incrementação nas tarifas de eletricidade na ordem de cerca de 6% ao ano em 2026 e 2027.

“Um data center não é apenas um software, mas um projeto complexo. Para sua construção, são necessários transformadores, turbinas, cabos de cobre, chips, memória, subestações e eletricistas industriais, bens que não podem ser rapidamente escalados em um curto espaço de tempo”, explica Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital. Segundo ele, a demanda substancial gerada causa ajustes de preços, em vez de alterações na quantidade disponível.

Bassani também chama a atenção para um aspecto menos evidente e frequentemente subestimado: o efeito riqueza. Em sua análise, a valorização das ações conectadas à inteligência artificial aumentou o patrimônio das famílias nos Estados Unidos, o que, por sua vez, sustentou um aumento no consumo. “A demanda agregada foi estimulada pela IA muito antes de que houvesse um incremento na oferta agregada, o que contrasta com o que muitos esperavam”, conclui.

Bruno Corano, economista da Corano Capital, pondera que a inteligência artificial não é inflacionária por natureza. Para ele, o verdadeiro responsável pela inflação é o ciclo de investimentos.

Corano faz referência a dados da Agência Internacional de Energia, que indicam que o consumo de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025, enquanto os data centers voltados especificamente para a inteligência artificial aumentaram em cerca de 50%. “A expectativa é que o consumo total desses centros praticamente dobre até 2030”, assegura.

De acordo com Corano, no curto prazo, a onda de investimentos se manifesta antes de que os efeitos da produtividade se tornem visíveis, resultando em uma tendência inflacionária. Entretanto, esse panorama poderá mudar no médio e longo prazos, quando os ganhos em produtividade se concretizarem, fazendo com que a inteligência artificial se torne desinflacionária.

O motivo está no fato de que, enquanto os investimentos estão se mostrando acelerados, os ganhos de produtividade ainda não são percebidos na economia em sua totalidade.

IPCA já sente efeitos de IA?

No Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apresentou recentemente sinais de desaceleração, com uma variação de apenas 0,07% em julho, a menor taxa para o mês desde 2022.

Entretanto, a planejadora financeira Luciana Ikedo não descarta que a proliferação da inteligência artificial possa vir a pressionar o índice de inflação nacional no médio prazo, especialmente no que diz respeito a itens relacionados à energia e infraestrutura.

Corano, por sua vez, prevê uma pressão gradual no IPCA, mais evidente a partir de 2027. “No Brasil, o efeito tende a existir, mas deve ocorrer de forma mais lenta, indireta e em menor intensidade do que nos Estados Unidos”, ressalta. Isso se deve ao fato de que o Brasil não possui o mesmo volume de investimentos voltados para a inteligência artificial e data centers que as principais economias, embora esteja tentando se estabelecer como um importante hub para o processamento de dados.

Ernani, da Avex, acredita que a pressão direta será mais notada nos eletrônicos e na taxa de câmbio, com efeitos perceptíveis em 2026 e 2027. No caso dos produtos eletrônicos importados, como chips e memórias, que possuem preços globalmente padronizados, “a alta nos custos de um laptop nos Estados Unidos também impacta o mesmo produto no Brasil, sendo exacerbada pela variação cambial”, afirma. Ele cita, ainda, a Resolução Gecex 852/2026, que aumentou as taxas de Imposto de Importação sobre servidores e semicondutores entre 7,2% e 25%.

Por outro lado, Breno Falseti, gestor e sócio da Rubik Capital, tem uma visão contrária, argumentando que, no Brasil, a influência da inteligência artificial tende a ser desinflacionária em todas as suas fases. Ele menciona que embora exista um canal direto de custo, ele é limitado. Por exemplo, o impacto da alta nos preços globais das memórias sobre os eletrônicos importados representa um peso pequeno no IPCA.

“A corrida em direção à IA também favorece a pauta exportadora brasileira, que inclui minérios, minerais estratégicos e terras raras, além de atrair investimentos para setores como data centers e mineração”, conclui Falseti.

Na visão de Bassani, o entendimento a respeito dos riscos reais vinculados à inteligência artificial está distorcido em diversas direções. “Aqueles que afirmam que a IA está pressionando a inflação brasileira estão forçando uma narrativa que atribui a inflação atual a fatores como petróleo, câmbio e serviços. Mas quem acredita que isso não nos afeta também está errado”, reforça.

Quem ganha e quem perde na corrida de IA

Na análise da economia real, os especialistas consultados pelo Bora Investir concordam que os setores vulneráveis nesse cenário de inteligência artificial e inflação são aqueles que não conseguem repassar os custos aumentados de chips, energia e capital para os consumidores. Entre esses, destacam indústrias como a de alumínio, siderurgia, química e papel e celulose. Além disso, os fabricantes de eletrônicos de consumo e as montadoras também enfrentam pressões, especialmente em relação ao aumento do custo das mercadorias importadas e ao encarecimento do crédito.

O setor da construção civil também é citado entre os perdedores, pois enfrenta desafios relacionados a juros elevados, adotados como medida para conter a inflação.

Do lado oposto, os especialistas identificam que os setores de semicondutores e memória, bem como os de geração de energia—em especial renováveis, nuclear e gás—são favorecidos. Além deles, empresas que produzem equipamentos elétricos ou atuam na engenharia de data centers e na mineração de cobre ou metais críticos também emergem como oportunidades promissoras.

No Brasil, Falseti, da Rubik Capital, menciona especificamente minerais críticos, como terras raras, nióbio e grafita, além de empresas que operam no setor de energia renovável e de infraestrutura ligada ao desenvolvimento da inteligência artificial.

Na bolsa de valores

Tanto no cenário nacional quanto no internacional, várias empresas listadas já começam a observar os impactos da inteligência artificial em seus preços. Corano cita nomes como Nvidia, AMD, Broadcom, TSMC, ASML e Micron, que fazem parte da cadeia de produção de chips, além de Vertiv, Eaton, GE Vernova, Quanta Services, Equinix e Digital Realty, que atuam na infraestrutura, como ações que já refletiram o desenvolvimento da IA no mercado.

Empresas de serviços públicos e geradoras de energia independentes também estão se sentindo impactadas positivamente pelo crescimento impulsionado pela inteligência artificial.

Quanto à bolsa brasileira, Ikedo e Corano observam que as empresas do setor elétrico e aquelas voltadas para tecnologia já têm experimentado os efeitos dessa nova onda de inovação. Exemplos incluem Weg, Axia, Engie, CPFL, Isa Energia, Taesa, Copel, Cemig e Equatorial, além de Totvs, Telefônica, Tim e Locaweb.

Rubik também destaca a Vale, pela sua relevância no mercado de metais relacionados à eletrificação.

Como proteger a carteira da inflação gerada pela IA

Se as previsões dos especialistas sobre a inflação decorrente da inteligência artificial se concretizarem no médio e longo prazos, a melhor estratégia de proteção para a carteira de investimentos, segundo eles, envolve a aquisição de títulos atrelados à inflação, especialmente o Tesouro IPCA+ com vencimentos de curto e médio prazo. “Com uma taxa real superior a 7%, o investidor está sendo adequadamente compensado para se defender contra essa nova onda inflacionária”, ressalta Ernani.

Além disso, as debêntures incentivadas de infraestrutura são apresentadas como outra alternativa viável, dado que são isentas de Imposto de Renda, uma vez que financiam setores relacionados à energia e transmissão, empresas cuja receita é ajustada pelo IPCA.

Os especialistas ainda recomendam que os investidores considerem uma alocação em ativos pós-fixados de curto prazo e em ouro como forma de diversificação. Também é sugerido o investimento em ETFs (fundos de índice) e BDRs (recibos de ações) de empresas que operam nos segmentos de semicondutores, energia, cobre e urânio.

Por fim, os agentes do mercado reiteram que as empresas que conseguirem extrair primeiro o ganho de produtividade da inteligência artificial serão as verdadeiras vencedoras. Quando essa fase se concretizar, o cenário inflacionário projetado poderá ser revertido.

Fonte: borainvestir.b3.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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