Conflito em Ascensão no Oriente Médio
O conflito em crescente intensificação no Oriente Médio gera preocupações a respeito da intenção de Washington em promover uma mudança de regime no Irã e da possível retaliação de Teerã, o que poderia desestabilizar regiões que vão do Golfo Pérsico até a Europa. Líderes globais estão se mobilizando para avaliar as consequências desse cenário.
Ação Militar dos EUA e Israel
No final de semana, os Estados Unidos e Israel realizaram ataques conjuntos no Irã, resultando na morte do líder supremo da República Islâmica, Ayatollah Ali Khamenei, o que provocou uma onda de retaliações por parte de Teerã em toda a região.
Em uma mensagem em vídeo divulgada no sábado, logo após a primeira onda de ataques dos EUA e de Israel, o presidente Donald Trump afirmou que seu objetivo era “eliminar ameaças iminentes do regime iraniano, um grupo cruel de pessoas muito duras e terríveis”.
Possível Campanha Militar Sustentada
Analistas geopolíticos alertaram que os ataques realizados no sábado poderiam representar o início de uma campanha militar prolongada com o propósito de desmantelar o regime iraniano, visto que os Estados Unidos almejam afirmar seu domínio sobre a mais crítica região produtora de petróleo do mundo.
“A magnitude dos ataques realizados pelos EUA e Israel, juntamente com a aparente meta de mudança de regime no Irã, sugere que o conflito militar pode se intensificar de forma rápida e imprevisível”, afirmou Rexon Ryu, presidente do The Asia Group, uma empresa de consultoria. “Há um risco imediato substancial de escalada regional e, potencialmente, global, uma vez que o Irã pode agora utilizar qualquer opção disponível para responder”.
Foco dos Ataques e Possíveis Retaliações
David Silbey, professor de história militar na Universidade Cornell, indicou que “os ataques anteriores foram direcionados ao programa de armas nucleares”, referindo-se à guerra de 12 dias ocorrida em junho do ano passado, quando os EUA e Israel realizaram ataques aéreos que danificaram três locais nucleares iranianos cruciais.
Entretanto, ele acrescentou que “esta nova ação será muito mais ampla, focada em comando e controle, quartéis-generais e liderança, além de operações da polícia secreta em geral”. Silbey destacou que, como não parece haver uma campanha terrestre dos EUA em vista, a meta é provocar a queda do regime internamente, por meio de uma insurreição popular ou um golpe de palácio.
Silbey advertiu que o Irã poderia retaliar com ataques, incluindo mísseis direcionados a bases militares e embarcações israelenses e norte-americanas no Golfo Pérsico, além de potenciais operações terroristas em várias regiões, como o Oriente Médio, Europa e Estados Unidos.
“Caso o regime se sinta ameaçado, reagirá de forma mais severa do que se acreditasse que poderia suportar os ataques”, afirmou Silbey.
Conflito se Espalha pelo Golfo
A mais recente série de hostilidades já se espalhou para outras partes da região do Golfo. Mísseis iranianos foram direcionados a Israel e a vários Estados do Golfo, incluindo os Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Arábia Saudita, Kuwait e Jordânia, todos possuindo bases aéreas com ativos norte-americanos.
“Anos de construção de um clima de détente por parte do Irã com os países do Golfo podem ter chegado ao fim”, declarou Aysha Chowdhry, principal do The Asia Group.
Papel de Rússia e China no Conflito
Tanto a Rússia quanto a China emitiram declarações condenando as ações dos Estados Unidos, um posicionamento que provavelmente continuará mesmo com a escalada da situação. No entanto, analistas afirmam que nenhum dos dois países está em condição de oferecer suporte material significativo a Teerã.
A China, que representa uma linha de sobrevivência econômica crítica para o Irã em meio a pesadas sanções ocidentais, adquiriu mais de 80% do petróleo iraniano exportado em 2025, o que representou 13,5% de todo o petróleo que a China importou por via marítima. O Irã também tem sido um fornecedor essencial de drones militares e mísseis para apoiar os esforços de guerra de Moscou na Ucrânia.
No entanto, a prolongada guerra na Ucrânia esvaziou a capacidade da Rússia de projetar poder além de suas fronteiras, segundo Matt Gerken, responsável pela estratégia geopolítica na BCA Research. Ele acrescentou que, com sua força militar sobrecarregada e sua economia sob pressão constante devido às sanções ocidentais, a influência de Moscou no Oriente Médio está destinada a diminuir ainda mais.
Diplomacia como Alternativa
Beijing, por outro lado, tem se abstido de manifestar forte apoio ao Irã, especialmente à medida que Washington intensificou sua presença militar no Golfo antes do ataque. A capital chinesa tem se concentrado em promover a diplomacia e a segurança regional.
Analistas estão atentos a possíveis indícios de que o mais recente conflito no Oriente Médio possa comprometer o engajamento diplomático entre os EUA e a China, assim como a visita planejada do presidente Trump a Pequim ainda neste mês.
Em uma declaração na noite de sábado, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China pediu que os EUA e Israel “cessassem imediatamente as ações militares” na região e restabelecessem o diálogo, invocando o “respeito pela soberania, segurança e integridade territorial do Irã”.
Trump e o presidente chinês Xi Jinping discutiram, entre outros assuntos, a situação do Irã, Taiwan e comércio em uma ligação telefônica realizada em 4 de fevereiro. “Pequim pode buscar concessões em assuntos mais diretamente relacionados aos seus interesses, como Taiwan e comércio, em troca de uma mensagem significativamente suavizada sobre o Irã”, afirmou Ahmed Aboudouh, pesquisador do Chatham House, um think tank baseado em Londres.
Um Irã enfraquecido, paradoxalmente, pode atender aos interesses da China. “Quanto mais fraco o regime iraniano se torna, seja devido a ataques militares dos EUA ou de Israel ou por agitações internas, mais dependente diplomática, economicamente e tecnologicamente ele se tornará da China”, disse Aboudouh.
No longo prazo, a China deverá enfrentar a pressão para afirmar seu domínio na região. “A China precisará fazer uma demonstração de projeção de poder em sua região para deter ações militares americanas e criar uma esfera de influência”, embora, no momento, as vulnerabilidades no fornecimento de petróleo possam limitar suas opções”, concluiu Aboudouh.
Negociações Fracassadas
Ações militares mais recentes parecem ter, ao menos por ora, arruinado qualquer perspectiva remanescente de um acordo negociado a respeito do programa nuclear do Irã.
Os EUA e o Irã haviam passado por três rodadas de negociações indiretas com o foco em alcançar um pacto sobre os programas nuclear e de mísseis balísticos do Irã, além da possibilidade de Washington levantar as sanções econômicas impostas ao país.
Com o regime iraniano em um momento de “vulnerabilidade crítica”, Washington e Jerusalém foram incapazes de garantir a desnuclearização e o desarmamento de Teerã e decidiram que não poderiam perder a oportunidade de reconfigurar a região”, afirmou Gerken.
Fonte: www.cnbc.com

