Desafios na Implementação de Veículos Autônomos na China
BEIJING — Embora as atualizações de inteligência artificial (IA) sejam destaque nas notícias a cada algumas semanas, esses avanços não são suficientes para acelerar a presença de veículos autônomos nas estradas. Essa afirmação é feita por empresas chinesas de transporte autônomo que argumentam que as melhorias em modelos de linguagem, como o Claude da Anthropic e o DeepSeek da China, têm pouca relevância para o cronograma de implantação de veículos.
“O melhor especialista em linguística do mundo não significa que ele seja um bom motorista”, declarou James Peng, CEO da Pony.ai, a jornalistas na semana passada. “IA é um termo muito amplo. São coisas completamente diferentes. Absolutamente … zero relevância”, acrescentou.
Segundo Peng, diferentes habilidades são utilizadas em diversas atividades, como processar linguagem, praticar esportes e conduzir veículos. A condução autônoma se baseia em inteligência artificial para emular a ação de um motorista humano, utilizando uma combinação de sensores, chips e algoritmos. No entanto, os dados de treinamento necessários para essa tecnologia diferem significativamente dos dados que alimentam modelos de linguagem, como o ChatGPT da OpenAI, exigindo o que é conhecido como modelos de mundo.
Prazos para Comercialização de Caminhões Autônomos
A Inceptio, uma startup de caminhões autônomos, mantém sua meta de comercialização para meados de 2028, sem se deixar influenciar pelos avanços gerais em IA, segundo seu CEO, Julian Ma, em entrevista ao CNBC. Ma prevê que até o terceiro ou quarto trimestre de 2028, a Inceptio terá acumulado 5 bilhões de quilômetros (3,1 bilhões de milhas) de dados de condução de caminhões na China — uma quantidade considerada suficiente para permitir que caminhões pesados autônomos circulem nas estradas públicas.
Com 5 bilhões de quilômetros em dados de condução coletados, a inteligência artificial pode extrapolar isso para 50 bilhões de quilômetros de experiência em um modelo de mundo — o que seria suficiente para viabilizar a condução completamente autônoma de um caminhão pesado, segundo Ma. Ele acredita que, em algumas regiões do país, os caminhões poderão operar sem a presença de motoristas.
Alcançar essa meta em menos de dois anos já é considerado um feito rápido. Ma ressaltou que, para que caminhões sem drivers se tornem uma realidade amplamente difundida, serão necessárias parcerias com fabricantes e a aprovação regulatória, além do desenvolvimento tecnológico.
A Importância dos Dados para Veículos Autônomos
Veículos autônomos dependem intensamente de dados sobre a dinâmica de condução nas estradas. Assim como as empresas de táxis robóticos, os operadores de caminhões autônomos realizam testes com motoristas humanos para coletar dados de treinamento de maneira segura.
A Inceptio já registrou a maior quantidade de milhas comerciais de caminhões autônomos na indústria, superando concorrentes dos Estados Unidos, segundo o relatório Big Ideas 2026 da ARK Invest, publicado em janeiro. Naquela época, a empresa havia percorrido 250 milhões de milhas — um número exponencialmente maior do que o segundo colocado, a Pony.ai, que teve um total de 4,2 milhões de milhas.
Concorrentes baseados nos Estados Unidos, como Aurora, Kodiak e Gatik, completaram o top cinco, acumulando juntos 8,9 milhões de milhas, conforme o relatório mencionado.
Julian Ma, da Inceptio, afirmou no final de abril que os caminhões da empresa já haviam percorrido 700 milhões de quilômetros (434,96 milhões de milhas) e que eles almejam alcançar 1 bilhão de quilômetros (621,4 milhões de milhas) até o final do ano. Ele destacou que a companhia utiliza IA para identificar quais cenários específicos devem ser priorizados na coleta de dados para testes.
Avanços da Pony.ai em Novos Modelos de IA
No Salão do Automóvel de Pequim, a Pony.ai anunciou também uma atualização para seu modelo de IA PonyWorld 2.0, visando melhorar sua capacidade de coletar dados específicos e treinar o modelo de forma mais eficiente. A empresa, que já opera táxis robóticos na China e em outros países, apresentou um caminhão leve completamente autônomo que foi desenvolvido em colaboração com o gigante de baterias CATL.
Desafios Regulatórios
Apesar de a China ter planos de desenvolvimento de cinco anos que enfatizam cada vez mais objetivos tecnológicos, Ma afirmou que frequentemente são as empresas que lideram a inovação. “Nós fazemos acontecer”, disse ele, antes que os reguladores vejam a tecnologia em ação e fiquem convencidos a fornecer apoio político.
Contudo, Ma reconheceu que ainda há um longo caminho a percorrer até que seja possível ver caminhões e carros circulando pelo país sem a presença de motoristas. “Os automóveis representam na verdade a área mais desafiadora para a IA e superam, em certa medida, a dificuldade da IA corpórea, pois envolve a segurança”, ressaltou Ma, referindo-se a robôs humanóides.
Fonte: www.cnbc.com


