Mapeamento de Locais Vulneráveis ao Clima e Propostas de Soluções

Mapeamento de Locais Vulneráveis ao Clima e Propostas de Soluções

by Fernanda Lima
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Com o auxílio da inteligência artificial, juntamente com outras ferramentas, o projeto da UFF (Universidade Federal Fluminense), denominado Riskclima, busca identificar as regiões do Brasil que apresentam maior vulnerabilidade aos extremos climáticos e aos problemas sociais associados a estas condições.

A partir destas informações, são criadas propostas de soluções específicas para cada localidade, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população afetada.

Em algumas situações, as soluções sugeridas são simples, como a recomendação constante de ingestão de água. “Essa prática pode salvar vidas”, destaca o coordenador do projeto, Márcio Cataldi, professor no Laboratório de Monitoramento e Modelagem do Sistema Climático (Lammoc) da UFF. Durante períodos de ondas de calor extremo, o risco de infarto aumenta, especialmente entre os idosos, e a desidratação figura entre os principais fatores contribuintes.

Financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), o projeto Riskclima foi instituído em 2022 e está programado para se estender até 2026. Os pesquisadores analisam as mudanças climáticas ocorridas ao longo das últimas seis décadas e realizam projeções sobre o clima futuro.

“A intenção é desenvolver um relatório executivo e, de alguma forma, contribuir para a formulação de políticas públicas”, afirma Márcio Cataldi.

Como funciona o projeto

Os pesquisadores do Riskclima examinam quais são os fenômenos extremos que ocorrem com maior frequência e intensidade, os quais, de acordo com a avaliação de vulnerabilidade, podem provocar tipos variados de risco. Com base na análise dos perigos presentes em cada região do país, realiza-se um levantamento das ações a serem implementadas para mitigar os impactos climáticos específicos a cada área.

Uma das ferramentas utilizadas no projeto é a inteligência artificial, que é aplicada para adaptar os modelos climáticos do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) à realidade atual do Brasil. O IPCC disponibiliza modelos que são empregados globalmente para prever as alterações climáticas para os próximos 20 anos.

A inteligência artificial é utilizada para avaliar os modelos mais eficazes na previsão do clima presente. Por exemplo, se um determinado modelo realiza uma simulação satisfatória, mas subestima a quantidade de chuvas, a inteligência artificial aprende e ajusta esse conhecimento para futuras previsões.

Resultados encontrados

Na Região Norte, onde será realizada a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, no Pará, a pesquisa tem identificado um aumento significativo nas ondas de calor intensas.

“Temos observado a intensificação das ondas de calor e, durante o desenvolvimento do projeto, aplicamos um índice de onda de calor que havia sido utilizado anteriormente na Europa. Para nossa surpresa, ao aplicá-lo ao Brasil, encontramos que a região com maior aumento nas ondas de calor nos últimos dez anos é a Região Norte”, explica Cataldi.

“Embora tenham aumentado em todo o território nacional, a Região Norte apresentou o maior crescimento. Este dado foi chocante, pois é uma área com limitada capacidade de adaptação”, acrescenta.

Cataldi defende que a discussão sobre a região Norte deve ser abordada sob várias perspectivas. As comunidades mais ribeirinhas e tradicionais, por exemplo, costumam rejeitar intervenções invasivas. Segundo o professor, estas populações estão acostumadas a lidar com a variabilidadeNatural do clima.

“Portanto, não é viável simplesmente introduzir ventiladores ou geradores de eletricidade. É fundamental trabalhar com soluções que elas aceitem. Para isso, é primeiro necessário promover uma educação ambiental, que demonstre que a variabilidade climática a que estão habituadas não existe mais”, ressalta o professor.

“Seus antepassados lidaram com essas oscilações climáticas, mas a forma como a variação climática ocorre atualmente é distinta. Assim, eles necessitam de adaptações tecnológicas ou soluções criativas, embora estas precisem ser diferentes das que estão acostumados. Esse é o primeiro desafio. Estamos falando de populações tradicionais”, conclui.

Enchentes no Sul

Na Região Sul, por sua vez, as chuvas constituem a maior preocupação. O projeto Riskclima está investigando o crescente fenômeno dos bloqueios atmosféricos.

“Isso ocorre quando há um bloqueio na Região Sudeste, impedindo que as frentes frias avancem para o Sudeste, que permanecem estacionárias no Sul. Esse fenômeno foi observado em abril e no início de maio do ano passado”, referindo-se aos alagamentos que resultaram em 184 mortes no Rio Grande do Sul em 2024, ressalta o pesquisador.

Márcio Cataldi mencionou que, neste ano, o mesmo fenômeno aconteceu, embora com intensidade reduzida. “O que preocupa é que esse pode se tornar um padrão normal daqui em diante”, alerta.

O pesquisador enfatizou a importância de realizar um levantamento de áreas propensas a inundações.

Em Porto Alegre, muitas das regiões inundadas são geograficamente predispostas a esse tipo de ocorrência. Cataldi destacou que a tragédia na cidade foi exacerbada pela falta de manutenção e a ineficácia das comportas.

Segundo Cataldi, é imprescindível que esses problemas sejam enfrentados de forma eficaz, através da criação de políticas e da legislação que garantam a continuidade das ações.

“Não pode ser uma iniciativa de um governo específico, pois quando um novo assume o cargo pode simplesmente ignorar o que foi feito anteriormente”, declara.

Seca

Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, a seca é predominante em virtude da escassez de chuvas. Um artigo publicado pelos pesquisadores do Riskclima na Revista Nature indica que o estágio mais grave da seca é a progressiva diminuição da umidade do solo.

Esse processo é resultado de anos consecutivos em que as chuvas têm estado abaixo da média. Sensores de satélite da NASA foram empregados para confirmar estas observações.

Cataldi enfatizou que Sudeste e Centro-Oeste são as regiões mais populosas do país, áreas onde se concentra a maior parte da agricultura e dos principais reservatórios de energia.

Por esse motivo, há uma necessidade premente de que a ciência e os responsáveis pelas decisões priorizem o uso sustentável da água em nível nacional. “Cada setor precisa de soluções específicas”, declara.

Por exemplo, é essencial otimizar a irrigação, explorar eficientemente os aquíferos, promover a geração de energias alternativas e renováveis, como a eólica e a solar, além de preservar a geração hídrica.

“Essas soluções precisam ser planeadas para diferentes setores que demandam energia e abastecimento de água, tais como para consumo humano e de animais, agricultura, pois tudo isto é fundamental para a população brasileira”, explica.

A seriedade com que a problemática da seca e seu agravamento são tratados é um ponto crucial que demanda atenção imediata, segundo Cataldi.

Ainda no Nordeste, na região da Caatinga e no semiárido, observa-se que o agravamento da seca avança em direção a um processo de desertificação, que já está em curso. “É uma região que sempre foi seca, mas que está se tornando ainda mais árida”, destaca.

Saúde pública

Todos esses desafios climáticos impactam significativamente a saúde pública, com variações conforme as regiões. Os bloqueios atmosféricos, por exemplo, tornaram-se mais frequentes na região Sudeste.

A pesquisa realizada pela UFF analisa como esses bloqueios influenciam a qualidade do ar, já que eles retêm poluentes nas proximidades da superfície.

“Um dos impactos que observamos é a deterioração da qualidade do ar, acompanhada do aumento destes bloqueios. Outro ponto de destaque é o calor; em situações de intensa perda de água durante ondas de calor, o sangue torna-se mais viscoso, facilitando a coagulação e aumentando o risco de trombose e ataques cardíacos”, explica.

O professor mencionou dados alarmantes sobre mortes devido à desidratação na Europa, com registros de 70 mil óbitos durante a última onda de calor em 2023.

“Devemos estar atentos, pois, mesmo que o Brasil já esteja acostumado a lidar com ondas de calor, é fundamental enfatizar a hidratação, especialmente para os idosos”, ressalta.

Márcio Cataldi também alertou sobre a necessidade de que cuidadores e familiares dos idosos estejam cientes da importância da hidratação para todos. Ele considera que este é um grande desafio e que devemos estar continuamente alertas para esses aspectos do cotidiano.

Próximos passos

Antes da conclusão do projeto, agendada para 2026, será elaborado um relatório executivo com recomendações de soluções a serem apresentadas às autoridades do Brasil, com o objetivo de fomentar a tomada de decisões e o desenvolvimento de políticas públicas que abordem as diversas questões climáticas enfrentadas.

“O essencial é estabelecer diálogos com as autoridades, evidenciando a urgência da implementação dessas políticas e nos oferecendo, como universidade pública, para auxiliar na mitigação dos problemas climáticos”, afirma Cataldi. “Não podemos postergar a ação”.

Cataldi argumentou que não é sensato aguardar até 2050, pois os riscos climáticos já são uma realidade presente. O enfoque, conforme ele, deve ser aplicado ao nível de conhecimento disponível atualmente, a fim de adaptar essas soluções e iniciar sua efetividade em relação ao alívio dos problemas climáticos e sua mitigação.

O pesquisador também esclareceu que, mesmo que os países cessem as emissões de gases de efeito estufa imediatamente, o clima não retornará ao estado anterior; um período de aproximadamente duas décadas é necessário para restaurar o equilíbrio. “O que pretendemos é dirigir nossos esforços para identificar onde as ações de mitigação devem ser priorizadas”.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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