A valorização das ações de tecnologia e o temor de uma bolha
A recente valorização acentuada das ações vinculadas ao setor de tecnologia, aliada a um recorde de investimentos em inteligência artificial (IA), trouxe à tona uma preocupação antiga entre os investidores: estaríamos assistindo ao surgimento de uma nova bolha, reminiscente da bolha da internet no final da década de 1990?
A avaliação do Deutsche Bank sobre a situação atual
Conforme análise divulgada pelo Deutsche Bank, a resposta para essa questão não é simples. O banco argumenta que não existe uma única “bolha de IA”, mas uma multiplicidade de narrativas que coexistem. No relatório referente ao mês de dezembro, a instituição financeira indica que os alertas acerca de uma possível bolha são, neste momento, exagerados. Contudo, existem sinais de riscos importantes que merecem atenção.
A análise proposta pelo Deutsche Bank busca dividir a discussão em três dimensões principais: valuations, investimentos e tecnologia. Essa abordagem revela por que algumas áreas do setor tecnológico parecem remeter a ciclos especulativos do passado, ao passo que outras estão respaldadas por fundamentos sólidos e por uma demanda real.
Valuations elevados não contam toda a história
Um dos sinais de alerta identificados pelo Deutsche Bank é que o índice Shiller CAPE do S&P 500, instrumento utilizado para avaliar o preço do mercado, já superou a marca de 40. Este valor se aproxima do nível observado durante a bolha da internet, quando o indicador alcançou aproximadamente 44 pontos.
Esse dado sugere que o mercado em sua totalidade está negociando próximo de níveis historicamente elevados, o que aumenta a suscetibilidade a choques macroeconômicos ou a eventuais frustrações em resultados. No entanto, o banco ressalta que, diferentemente do período de 1999 a 2000, a alta recente das ações de tecnologia tem sido impulsionada por um crescimento nos lucros, não somente por uma expansão nos múltiplos.
O prêmio de valuation do setor de tecnologia, em relação ao restante do S&P 500, está em torno de 60%. Este patamar é considerado pelo Deutsche Bank compatível com uma expectativa de crescimento de lucros superior a 20%. Além disso, as maiores distorções de preço não estão concentradas nas empresas listadas em bolsa, mas sim em companhias privadas e ainda não lucrativas.
O relatório menciona múltiplos elevados em empresas como OpenAI e Anthropic. Em contraposição, companhias como Nvidia, Microsoft, Google e Amazon operam a preços mais moderados quando comparados à sua geração de caixa e às receitas que já possuem.
Investimentos em IA ainda são financiados por recursos próprios
Outro aspecto fundamental deste debate é o volume de investimentos. O Deutsche Bank estima que o Capex global em data centers e infraestrutura relacionada à IA pode chegar a US$ 4 trilhões até 2030, um valor sem precedentes. Entretanto, a instituição argumenta que o ciclo atual é distinto do passado, na medida em que os hyperscalers estão majoritariamente financiando esses investimentos com recursos próprios, em vez de recorrer a um endividamento excessivo ou a emissões especulativas.
Atualmente, o Capex do setor tecnológico permanece abaixo de 40% do Ebitda, um nível que se encontra inferior ao observado no fim da década de 1990 e está alinhado com o restante do S&P 500. Ademais, já é possível notar um início de retorno sobre esses investimentos.
O Deutsche Bank observa uma tendência consistente de elevação do retorno sobre o capital investido (ROIC) nas grandes empresas de tecnologia desde o início do ciclo de IA. Esse fenômeno é impulsionado pela demanda corporativa por serviços em nuvem, ferramentas baseadas em IA e pela busca por ganhos de eficiência, principalmente no desenvolvimento de software.
No que se refere ao setor tecnológico, o banco admite que a IA generativa ainda apresenta falhas, como alucinações, dificuldades para ser aplicada em larga escala e custos elevados de treinamento. Há também o risco de que a escalada no poder computacional encontre barreiras físicas, como limitações na movimentação de dados entre chips e no consumo de energia.
Contudo, o relatório defende que a tecnologia ainda não “atingiu um limite”. Avanços recentes, como o lançamento do modelo Gemini 3 pelo Google, indicam que o escalonamento continua a oferecer ganhos significativos de capacidade, principalmente em tarefas multimodais e de raciocínio. Simultaneamente, os custos dos modelos estão caindo rapidamente, o que estimula novas aplicações e expande a demanda — uma situação descrita pelo banco como a aplicação do Paradoxo de Jevons à IA, pois sugere um ganho em eficiência e um aumento no número de usuários.
A IA como motor da economia americana
O Deutsche Bank enfatiza que o impacto da IA se estende além do mercado financeiro. Segundo o relatório, a economia dos Estados Unidos estaria à beira de uma recessão em 2025 caso não fosse pelo investimento em tecnologia, especialmente em software, equipamentos de TI e infraestrutura relacionada à inteligência artificial.
Os outros componentes do gasto privado permanecem praticamente estagnados desde o período pós-pandemia. Esse aspecto reforça a tese de que, mesmo com o aumento dos riscos, a IA já se consolidou como um pilar do crescimento econômico, dificultando comparações diretas com bolhas meramente especulativas do passado.
Possíveis riscos ao crescimento da IA
Apesar do tom relativamente otimista do relatório, o Deutsche Bank menciona cinco riscos principais que poderiam transformar o atual boom do setor em um bust:
- Financiamentos circulares que sustentam valuations, com acordos complexos entre empresas de IA, prestadores de serviços de nuvem e fabricantes de chips;
- Um aumento no endividamento, caso os custos de infraestrutura continuem em ascensão;
- Declínio nos retornos tecnológicos, caso a escalabilidade dos modelos se torne progressivamente mais cara e menos eficiente;
- Reações sociais e políticas, com resistência à IA devido ao temor de perda de empregos, preocupações com privacidade e controle;
- Gargalos na oferta, especialmente em relação à energia elétrica e semicondutores, que podem atrasar a adoção da tecnologia e elevar custos.
Se de fato houver uma bolha, segundo o banco, ela parece estar ainda em um estágio inicial. Sair do mercado muito cedo poderia resultar na perda de ganhos significativos, similar ao que ocorreu antes do colapso da bolha da internet.
Fonte: www.moneytimes.com.br