Reunião da Naskar e a Situação dos Investidores
Na tarde e noite de sexta-feira (15), enquanto cerca de 3 mil investidores lesados aguardavam informações sobre a possível devolução de seus recursos, um dia após a divulgação de uma proposta de venda para uma gestora americana, os três sócios da Naskar estavam em um escritório de advocacia na Avenida Paulista, em São Paulo, especializado em reestruturação empresarial e recuperação judicial, segundo informações de uma fonte próxima ao caso.
Investigações da Naskar e Desaparecimento de Recursos
A Naskar está sendo investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal pelo desaparecimento de cerca de R$ 1 bilhão pertencente a aproximadamente 3 mil clientes em todo o Brasil. A fintech prometia retornos de 2% ao mês, o que representa 175% do CDI, e atuava sem registro no Banco Central ou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Os pagamentos pela empresa foram interrompidos no início de maio, o aplicativo deixou de funcionar, e os três sócios—Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, conhecido como Maurício Jahu, ex-apresentador da ESPN Brasil—cessaram toda forma de comunicação com investidores e clientes.
Durante aquela semana, a empresa declarou estar passando por uma “auditoria interna” e que as atividades seriam retomadas na semana seguinte, o que não ocorreu.
Anúncio da Aquisição pela Azara Capital
Gestora Recentemente Criada
No dia 14 de maio, a Naskar e a Azara Capital publicaram uma nota conjunta informando a aquisição das empresas Naskar, 7Trust e Next por uma gestora americana, por cerca de R$ 1,2 bilhão. Na nota, prometeu-se que as negociações para a devolução do dinheiro aos investidores começariam na semana seguinte.
Essa operação despertou interesse pela aparente solução para os problemas financeiros e de credibilidade da fintech. A Azara Capital LLC se apresentou como uma gestora norte-americana com sede em Miami, Flórida. O site da empresa fornece um endereço na 1000 Brickell Avenue, mas uma busca no Google Maps revela que o local é um edifício misto, que abriga residências e um banco comercial, sem relação direta com a Azara. Ao pesquisar “Azara Capital” em aplicações de geolocalização, não foram encontrados resultados relevantes.
Falta de Registro nos Órgãos de Regulamentação
A empresa não aparece nos registros da Securities and Exchange Commission (SEC) e da Financial Industry Regulatory Authority (FINRA), entidades reguladoras dos mercados financeiros dos Estados Unidos. Sem esse registro, a Azara Capital não pode legalmente gerenciar recursos de terceiros nos Estados Unidos.
Em resposta ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, a assessoria da Azara Capital declarou que a empresa está “devidamente registrada em território insular americano” e não requer registro perante a SEC ou a FINRA, alegando operar exclusivamente com capital próprio. No entanto, o termo “território insular americano” refere-se a jurisdições como Porto Rico e Ilhas Virgens, conhecidas por uma regulação mais flexível. Além disso, operar com “capital próprio” não exime uma gestora da necessidade de registro.
Sobre o contrato de compra e venda da Naskar, a assessoria confirmou que o documento foi assinado em 13 de maio de 2026, um dia antes do anúncio público, mas destacou que não pode ser compartilhado “por razões de confidencialidade e cláusulas de sigilo corporativo”. Nenhum regulador, credor ou investidor teve acesso a esse documento até o fechamento desta reportagem.
No Brasil, a empresa está registrada como Azara Instituição de Pagamento Ltda, sob o CNPJ 65.032.964/0001-67, aberta em 4 de fevereiro de 2026, exatamente 100 dias antes do anúncio da compra da Naskar. A Receita Federal classifica a empresa como uma Empresa de Pequeno Porte, com um capital social de R$ 13 milhões, e seu CNAE é genérico, não autorizando a gestão de ativos ou captação de recursos de investidores.
Infraestrutura e Presença Digital da Azara Capital
Estrutura Digital Questionável
A infraestrutura digital da Azara Capital levanta questões sobre a seriedade da empresa. O site azara.capital é uma página única, sem subpáginas, sem histórico de operações, e não apresenta informações sobre a equipe ou clientes. O domínio foi registrado por meio da Hostinger, um serviço de hospedagem com preços acessíveis, e o servidor está na Amazon Web Services (AWS), na qual qualquer usuário pode se inscrever sem verificação de identidade.
Os servidores de e-mail divulgados no site funcionam através da Hostinger, sugerindo que não existe uma infraestrutura corporativa real. O registro técnico do domínio foi atualizado em 14 de maio de 2026, o mesmo dia da divulgação da nota sobre a compra, e o custo estimado dessa estrutura digital pode ser inferior a US$ 50 por ano.
Uma reportagem do portal Metrópoles revelou que o perfil da Azara Capital no Instagram foi criado apenas três meses atrás, e a investigação do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC observou que a empresa não possui um perfil no LinkedIn. Após a notícia de Matos, o perfil da Azara Capital eliminou uma postagem sobre “capital rápido para negócios imobiliários” e bloqueou a opção de comentários.
Serviços e Comunicações duvidosas
O site da Azara Capital destaca a promessa de “US$ 100 milhões financiados em imóveis” em território americano, mas não foram encontrados registros públicos que comprovem essa afirmação. Além disso, a empresa é apresentada como fornecedora de “soluções bancárias inovadoras”, embora não seja um banco e não tenha qualquer registro regulatório. Oferecer essas soluções sem a devida autorização é considerado, no mínimo, publicidade enganosa.
Outro ponto relevante é que o site menciona uma equipe dedicada, porém nenhum membro é identificado. O único nome publicamente associado à Azara Capital é o de Douglas Silva de Oliveira Azara, de 25 anos, morador de Uberlândia.
Perfil de Douglas Azara e Situação Financeira
Douglas é o único sócio-administrador da Azara Instituição de Pagamento Ltda, e seu perfil pessoal no Instagram o classificava como fundador e diretor da Azara Capital, informação que foi removida logo após a divulgação da compra da Naskar. Em resposta ao Times Brasil | CNBC, Douglas confirmou ser o “único proprietário e principal executivo” da Azara Capital e da Azara IP.
Porém, levantamento de dados públicos indica um perfil que não combina com a gestão de uma empresa bilionária. Sua renda declarada é de R$ 1,7 mil por mês, e seu endereço residencial se localiza em um conjunto habitacional popular com aluguel médio de R$ 2,5 mil e valor de venda médio de R$ 320 mil.
Informações obtidas pelo Times Brasil | CNBC sugerem que Douglas apresenta alto risco de crédito, com 24 protestos ativos totalizando R$ 386 mil e várias ações por estelionato. Ele alega que o capital das empresas é de “origem familiar” e foi valorizado por investimentos em criptoativos, mas não apresentou documentação que comprove essas afirmações.
Conexões entre Empresas e Suspeitas
Parte das empresas de Douglas está conectada à TRX Investimentos SA, que está registrada com um CNAE relacionado à criação de gado, mas atua no setor financeiro. Essa empresa possui 96 protestos ativos somando R$ 870 mil e já foi mencionada em processos por estelionato. A conexão entre essa empresa e os demais envolvidos está sendo investigada.
No mesmo dia da abertura da Azara IP, Douglas constituiu a Phoenix Instituição de Pagamento Ltda, com as mesmas características da Azara. Ambas foram criadas sem explicação pública.
Pressões sobre a Naskar e Interpretação Legal
A nota sobre a compra foi divulgada pela Naskar e pela Azara Capital simultaneamente, o que suscita dúvidas sobre a transparência, posto que, em aquisições legítimas, o comprador costuma ser o responsável pela divulgação. A assessoria da Azara informou que o contato com os sócios da Naskar foi feito через uma consultoria, cujo nome não foi revelado.
Consultores, como Bruno Boris, apontam que o anúncio pode ser ineficaz do ponto de vista jurídico. Para Rafael Mortari, as declarações podem servir para atrasar ações judiciais enquanto ativos são movimentados. Eduardo Terashima chama atenção para um padrão em casos de captação irregular onde anúncios semelhantes surgem em momentos de crise.
Uma fonte próxima ao caso comunicou que os sócios da Naskar consideram solicitar recuperação judicial. Rogério Vieira é presidente da 7Trust, empresa associada à venda da Naskar, e Maurício Jahu ocupa o cargo de diretor.
A assessoria da Naskar recusou-se a comentar, enquanto a Azara afirmou que assumiu a “sucessão integral dos ativos e passivos da Naskar”. Contudo, uma empresa sem autorização do Banco Central não pode captar recursos ou gerenciar dinheiro de terceiros no Brasil.
Fonte: timesbrasil.com.br


