O debate está de volta, mas muitas vezes não acerta o alvo.

Resultados da Broadcom e o Debate Sobre o Mercado de Chips de IA

Os impressionantes resultados financeiros da Broadcom reacenderam um debate há muito tempo existente entre os investidores: qual a real firmeza da posição da Nvidia no mercado de chips de inteligência artificial (IA)? Contudo, pode não ser essa a melhor pergunta para os investidores neste momento. Em vez disso, o foco deve ser em quão grande o mercado de computação em IA pode realmente se expandir. Para os investidores engajados com a Nvidia e a Broadcom, é evidente que ambas as fabricantes de chips têm um papel a desempenhar na corrida pela IA.

A Posicionamento da Nvidia e da Broadcom

A Nvidia se destaca como a fornecedora dominante de "silício de comércio", disponibilizando os mesmos chips avançados para uma variedade de operadores de data centers, além de uma presença significativa no software. Em contrapartida, a Broadcom lidera a oferta de serviços de design de chips “customizados”, utilizados atualmente por uma pequena gama de empresas de tecnologia com grandes recursos financeiros, como o Google. Essas empresas estão, geralmente, buscando maximizar o desempenho de suas próprias pilhas de software.

É certo que algumas vendas que poderiam ter sido destinadas à Nvidia agora irão para a Broadcom nos próximos anos, à medida que gigantes da internet, como a Meta Platforms — uma companhia do mesmo grupo que se presume ser um cliente atual da Broadcom —, procuram executar certos processos internos a um custo mais baixo utilizando chips especializados. Além disso, alguns provedores de computação em nuvem podem considerar diversificar o tipo de poder computacional que oferecem a seus clientes.

Expectativas para o Crescimento e Dinâmica do Mercado

A tensão reside na seguinte questão: se essa dinâmica se concretizar, a Nvidia será incapaz de atender às expectativas de crescimento de seus investidores? Ou será que a demanda pela infraestrutura de IA é suficientemente grande na próxima década, permitindo que a Nvidia continue crescendo em vendas e lucros, mesmo que sua fatia de mercado diminua? A nossa aposta recai sobre o segundo cenário.

Duas notas divulgadas na manhã de segunda-feira vão ao cerne desse debate — uma originada da equipe de analistas da Citigroup e outra da Melius Research. O Citi reduziu sua estimativa de vendas para a Nvidia em 2026 em US$ 12 bilhões e, consequentemente, ajustou seu preço-alvo para as ações da empresa, citando diretamente os comentários da Broadcom na semana passada sobre a crescente demanda por seus serviços de chips personalizados de IA. O novo preço-alvo foi estabelecido em US$ 200 por ação, uma redução em relação aos US$ 210 anteriores, um movimento que contrasta com a tendência observada nos últimos anos, onde os preços-alvos da Nvidia geralmente aumentavam.

Por outro lado, a Melius manteve suas metas de preços para ambas as ações e argumentou que, mesmo com a Broadcom vendo um grande interesse em suas soluções de silício customizado, a demanda geral é ampla o suficiente para que ambas as empresas tenham um crescimento significativo nos anos vindouros, superando possivelmente as expectativas dos investidores.

Análise das Recomendações do Mercado

Embora os analistas da Citi tenham reduzido seu preço-alvo, mantêm uma visão positiva sobre a empresa. Eles mantiveram sua classificação de compra e afirmaram que mesmo suas estimativas reduzidas para 2026 estão acima do consenso de Wall Street. Apesar disso, uma firma otimista tornar-se um pouco menos otimista é um ponto a ser destacado e sublinha o debate atual entre os investidores.

A pergunta que surge é: deve-se reduzir a exposição à Nvidia para aumentar a participação na Broadcom? Acreditamos que a resposta correta é simplesmente possuir ambas, estabelecendo nossa posição no campo da Melius. Embora a Broadcom esteja se consolidando como uma das principais ações de IA a serem adquiridas, acreditamos que a demanda é tão grande que ambas as empresas sairão ganhando.

Considerações Finais sobre o Mercado e a Oportunidade de Crescimento

Os investidores devem realizar suas análises sobre ambas as empresas e ajustar suas respectivas ponderações com base nas disciplinas de gerenciamento de portfólio que costumam seguir — por exemplo, se uma delas tiver uma alta expressiva, considerar realizar alguns lucros; o mesmo se aplica caso uma ação ultrapasse o limite de ponderação, que, para o nosso grupo, é de aproximadamente 5% em qualquer posição.

A análise do cenário exclusivamente comparando uma companhia com a outra é uma visão de curto prazo. O que realmente importa é o tamanho do mercado total endereçado, frequentemente abreviado para TAM. Em certas ocasiões, pode haver uma empresa que detém uma participação de mercado tão significativa em uma nova indústria em rápido crescimento que é previsível que saia perdendo participação à medida que concorrentes vejam os lucros robustos e decidam competir. Entretanto, à medida que o mercado se expande, ela pode perder uma parte dessa participação e ainda assim continuar a crescer.

Exemplos do Mercado de Comércio Eletrônico

Um exemplo notável é o da Amazon no mercado de compras online. Em junho de 2018, a empresa de pesquisas eMarketer indicou que a Amazon terminara 2017 com cerca de 44% do mercado de comércio eletrônico dos EUA, prevendo que capturaria pouco menos de 50% no ano seguinte. Em 2023, a eMarketer estimou que a participação da Amazon no comércio eletrônico dos EUA estava em torno de 40%. Entretanto, as vendas da Amazon na América do Norte cresceram de US$ 141,4 bilhões em 2018 para US$ 352,8 bilhões em 2023, com projeções de chegar a US$ 424 bilhões este ano, de acordo com estimativas compiladas pela FactSet.

Implicações para a Nvidia e a Broadcom

Assim, enquanto a participação de mercado é um fator importante, o tamanho do mercado é uma métrica a ser considerada ao se buscar avaliar a magnitude da oportunidade. O foco deve estar no crescimento das vendas e dos lucros da empresa. Desde o final de 2017, a Amazon returnou cerca de 304%, em contraste com os 175% do S&P 500, incluindo dividendos reinvestidos.

Ao aplicar um raciocínio semelhante a Nvidia e Broadcom, acreditamos que a lógica se sustenta. A Nvidia, como pioneira no espaço dos semicondutores de IA, colheu os frutos de sua posição de destaque no mercado. Porém, à medida que mais empresas começam a perceber a magnitude da demanda por IA, é natural que busquem entrar nesse espaço, o que, neste caso, implica em procurar a ajuda de empresas como a Broadcom para o design de seus próprios chips de IA.

Conclusões sobre o Cenário Atual

Estamos vendo também a AMD intensificar seus esforços para competir com a Nvidia no segmento de "silício de comércio" de IA. Isso, no entanto, não significa que a Nvidia deixará de crescer. De fato, a empresa mal consegue atender à demanda atual, e todos os sinais indicam que a necessidade por infraestrutura de IA só tende a aumentar.

Os analistas da Melius Research mencionaram que há indícios de que o TAM de computação e rede de IA está caminhando para um crescimento impressionante, que é difícil de imaginar. Segundo suas estimativas, o mercado endereçado que pode ser atendido (SAM) está avaliado em cerca de US$ 2 trilhões até o final da década, representando aproximadamente metade dos US$ 3 trilhões a US$ 4 trilhões em gastos de capital em data centers que o CEO da Nvidia, Jensen Huang, previu que ocorrerão até 2030.

Nesse contexto, a Melius argumentou que tanto a Nvidia quanto a Broadcom "têm uma probabilidade muito maior de superar nossas estimativas de 2027 do que não". Segundo eles, caso a Broadcom consiga apenas 20% desse estimativa de US$ 2 trilhões e a Nvidia mantenha 40%, ambas as ações podem se valorizar consideravelmente.

Dessa forma, a essência do debate contemporâneo não deve residir tanto em quem está vencendo ou perdendo, mas, sim, em se a oportunidade diante de nós continua sendo significativa ou não.

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