Impacto da China nas negociações do petróleo
Enquanto os Estados Unidos e o Irã dialogam sobre a reabertura permanente do Estreito de Ormuz e a restauração do fluxo de petróleo do Oriente Médio, o próximo movimento no mercado pode ser influenciado por um país que não está diretamente envolvido nessas negociações: a China.
A China, a segunda maior consumidora global de petróleo bruto, tem adotado diversas medidas para proteger seus estoques, especialmente em decorrência da guerra com o Irã, que prejudicou o acesso a mais de 11 milhões de barris de petróleo por dia. Por meio da redução das importações, do aproveitamento de suas vastas reservas e do aumento do uso de fontes de energia mais limpas, a China conseguiu mitigar os efeitos da elevação dos preços no mercado interno.
Essas ações também tiveram reflexos no mercado global de petróleo.
Após mais de três meses de conflito, algumas análises indicaram que os preços do petróleo poderiam alcançar US$ 200 por barril neste ano. No entanto, apesar da perda total estimada em oferta, que ultrapassa 1 bilhão de barris de petróleo, os preços do petróleo bruto se mantiveram relativamente estáveis. Muitos especialistas atribuem essa estabilidade em grande parte à atuação da China.
“A China desempenhou um papel crucial aqui para atenuar o impacto sobre o restante da Ásia, protegendo, assim, a economia global”, afirmou Daan Walter, diretor da Ember, um think tank focado em energia.
Na segunda-feira, 22 de agosto, o preço do petróleo Brent, referência global, caiu para menos de US$ 78 o barril, motivado pelas expectativas de que o Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial, possa em breve retomar o comércio normal. Antes do ataque dos EUA e de Israel ao Irã, o petróleo Brent havia sido negociado abaixo de US$ 70 o barril e, no início de maio, atingiu o pico de quatro anos, alcançando US$ 114 o barril.
Nesta terça-feira, 23 de agosto, o petróleo WTI para agosto, negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex), fechou com queda de 0,88% (US$ 0,65), a US$ 73,21 o barril. O petróleo Brent para setembro, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), encerrou com uma redução de 0,93% (US$ 0,72), a US$ 76,80 o barril.
Com a crescente influência da China no contexto energético global, especialistas acreditam que as políticas e padrões de consumo neste país serão fundamentais para o mercado, independentemente da velocidade com que o Estreito de Ormuz seja reaberto.
A “mão invisível” da China
Em uma nota de pesquisa divulgada no início deste mês, analistas do Societe Generale relataram que uma perda de 7% na oferta global de petróleo bruto, provocada pelo embargo árabe de 1973, resultou em um aumento de 134% no preço do petróleo. Contudo, os preços não dispararam com a mesma intensidade durante a guerra no Irã, mesmo com o conflito afetando 14% da oferta global.
A equipe de analistas atribuiu essa discrepância em grande parte à China, que foi considerada “a mão invisível que está reequilibrando o mercado”, devido à sua capacidade de reduzir as importações de petróleo em cerca de 3 milhões de barris por dia — um volume quase equivalente à demanda total de petróleo bruto do Japão.
A China obteve uma redução significativa no consumo de petróleo por uma série de razões. Antes do conflito, o país havia intensificado a formação de estoques de petróleo bruto, beneficiando-se de entregas com preços favorecidos provenientes de fontes sancionadas, como a Rússia e o Irã, destacou Janiv Shah, vice-presidente de mercados de petróleo da Rystad Energy.
Atualmente, a China dispõe de mais de 1 bilhão de barris de petróleo em reservas comerciais e estratégicas, que começaram a ser exploradas em maio, segundo os analistas do setor.
O governo chinês também restringiu as exportações de produtos refinados, como gasolina e diesel, para assegurar o abastecimento interno. Essa estratégia desestimulou as refinarias de petróleo do país, que enfrentam margens de lucro mais baixas, a realizar compras de petróleo bruto no mercado internacional.
A ascensão dos veículos elétricos na China também atenuou a necessidade por combustíveis fósseis. Aproximadamente um em cada dois carros de passageiros novos vendidos no país atualmente é um veículo de nova energia. De acordo com estimativas da Agência Internacional de Energia, a frota de veículos elétricos na China reduziu o consumo de petróleo em aproximadamente 1 milhão de barris por dia no ano passado.
Perspectivas em meio à oferta e demanda
Após meses prevendo as consequências da mais grave crise do petróleo da história, a Agência Internacional de Energia (AIE) alerta que a reabertura do Estreito de Ormuz pode eventualmente levar a um excesso de oferta no ano seguinte.
Em um relatório mensal sobre petróleo, a AIE prevê que o crescimento da oferta superará a demanda no próximo ano em 4,7 milhões de barris por dia, à medida que a produção de petróleo bruto no Oriente Médio tende a reverter a níveis normais.
“Isso pode oferecer um alívio bem-vindo ao mercado e uma oportunidade para reabastecer os estoques esgotados ou construir novas reservas estratégicas, na medida em que os países revisitem suas estratégias e políticas energéticas frente à crise”, relatou a entidade.
Embora a demanda global por petróleo deva apresentar crescimento no ano seguinte, a atual instabilidade fomentou um interesse crescente em energias renováveis, o que pode reduzir a necessidade de petróleo bruto ao longo do tempo. A China, que lidera mundialmente na produção de veículos elétricos, baterias e energia solar, alcançou exportações recordes de tecnologia em energia limpa em março, após o início do conflito no Oriente Médio.
“Essa aceleração em direção à eletrificação está se intensificando”, afirmou Cosimo Ries, analista da Trivium China que acompanha os setores de energia e automotivo. “Teremos que observar como progridem as negociações [entre EUA e Irã], mas, em termos gerais, este pode ser um excelente momento para a descarbonização global”, concluiu.
Muyu Xu, analista sênior de pesquisa de petróleo bruto da Kpler, uma plataforma de inteligência de commodities, mencionou que o excesso de oferta pode se concretizar já no próximo mês. Se o Estreito de Ormuz reabrir de forma rápida, isso significaria a reintegração de 100 milhões de barris de petróleo que estavam retidos no mercado, observou ela.
Paralelamente, o Irã deve elevar agressivamente sua produção, especialmente na hipótese de as sanções dos Estados Unidos serem suspensas. Essa dinâmica pode tornar o petróleo iraniano menos interessante para a China, que o adquire com desconto, considerando que o Irã, sob sanções, enfrenta dificuldades para comercializá-lo.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


