O “grande e belo projeto” de Trump contém armadilha de “dupla tributação”, afirmam advogados.

Benefícios Fiscais e Limitações para Ricos

Uma versão deste artigo foi publicada pela primeira vez no boletim Inside Wealth da CNBC, com Robert Frank, um guia semanal para investidores e consumidores de alta renda. O conteúdo pode ser assinado para receber futuras edições diretamente no e-mail.

O “one big beautiful bill” trouxe diversos benefícios fiscais para os grupos de alta renda, mesmo com limitações sobre o montante que podem deduzir. Contudo, advogados que representam os ricos afirmaram ter descoberto uma surpresa escondida nas notas de rodapé de um guia de legislação fiscal divulgado na semana passada pelo pessoal da política do Congresso, que pode resultar em uma tributação dupla.

Limitação de Deduções para Trusts e Propriedades

Os advogados informaram que o limite de dedução é aplicado a trusts e propriedades, algo inesperado. Mesmo que um trust distribua toda sua renda para os beneficiários, ele terá que pagar impostos sobre uma parte dessa renda, conforme a interpretação dos juristas do documento. As consequências são mais acentuadas para os trusts e propriedades dos ultra-ricos, mas até trusts com apenas R$ 16 mil em renda também estariam sujeitos a impostos adicionais.

Dan Griffith, diretor de estratégia de riqueza no Huntington Bank, destacou: “Há potencialmente um elemento de tributação dupla. Isso é algo que irá afetar alguém com um trust de necessidades especiais de R$ 400 mil. Não é apenas uma questão que grandes trusts familiares de R$ 100 milhões enfrentam”.

Griffith está especialmente preocupado com trusts que são obrigados a distribuir toda sua renda. Ele comentou que os trusts terão que vender ativos para pagar os impostos, sacrificando o retorno de investimentos futuros, ou reduzir suas distribuições para os beneficiários.

Impactos na Filantropia

Essa disposição cria um “pesadelo matemático” para advogados tributários e consultores financeiros, de acordo com Justin Miller, diretor nacional de planejamento de riqueza na Evercore Wealth Management. Ele citou o exemplo de um casal abastado que deseja deixar sua herança para a caridade.

“Se eu tiver que pagar impostos sobre a renda, isso significa que estou doando menos dinheiro para a caridade porque estou pagando ao IRS. Isso significa que agora preciso ajustar ainda mais minha dedução porque menos dinheiro vai para a caridade”, explicou. “O Congresso realmente pretendeu criar uma fórmula algébrica?”

Historicamente, trusts e propriedades puderam deduzir a renda dada aos beneficiários, a qual é então tributada no nível individual. Essa dedução de distribuição foi projetada para garantir que a renda seja tributada apenas uma vez.

No entanto, a nova limitação de dedução para os indivíduos de maior renda agora se aplica a trusts e propriedades, segundo uma nota de rodapé no recente explicativo fiscal do Joint Committee on Taxation (JCT), conhecido popularmente como Bluebook. O JCT é uma entidade não partidária que serve para explicar a legislação.

O limite de deduções itemizadas do One Big Beautiful Bill Act significa que os contribuintes na faixa mais alta receberão um benefício de dedução de 35 centavos para cada dólar, ao invés de 37 centavos. Essa regra se aplica às deduções de doações, e especialistas afirmam que isso já influenciou a forma como os mais ricos apresentam suas doações.

Implicações para Trusts em Situações Específicas

Embora o Bluebook seja uma interpretação do OBBBA e não uma lei em si, essa disposição está causando preocupação na comunidade de consultoria financeira, conforme informou o advogado Robert Keebler. Por exemplo, ele frequentemente estabelece trusts para clientes em segundas uniões, que fornecem renda ao cônjuge sobrevivente, mas deixam o restante para os filhos da primeira união.

Keebler apresentou o seguinte exemplo: considere um trust que distribui R$ 370 mil de sua renda líquida a uma viúva. Aplicar o limite de dedução aos trusts significa que o trust só pode deduzir R$ 350 mil de sua renda líquida a ser distribuída, resultando em R$ 20 mil sujeitos a impostos, mesmo que a viúva seja tributada sobre os R$ 370 mil. Para quitar o imposto, o trust terá que recorrer a seu capital, reduzindo o benefício futuro das crianças, ou pedir permissão para dar menos ao cônjuge, o que pode exigir uma ação judicial.

Essa disposição se aplica no ano fiscal atual, de acordo com Keebler.

A questão da tributação dupla pode ser resolvida por uma emenda do Congresso ou, mais provavelmente, por orientação do Departamento do Tesouro. Keebler está se preparando com a expectativa de que a regra se mantenha.

“Esperamos o melhor, mas planejamos para o pior”, afirmou.

Aguardando Esclarecimentos do Departamento do Tesouro

O Departamento do Tesouro não respondeu às perguntas da CNBC até o fechamento desta reportagem. Miller mencionou que é “razoável esperar” que o Departamento do Tesouro emita orientações até o final deste ano. Entretanto, ele alertou que os detalhes sobre quais deduções o departamento decidirá limitar serão cruciais.

Por exemplo, o departamento pode permitir que os trusts tomem deduções ilimitadas em distribuições de renda para beneficiários, como membros da família, o que resolveria a maior preocupação para os consultores financeiros, segundo Miller. A nota de rodapé no Bluebook menciona essa dedução.

Contudo, Miller indicou que a nota de rodapé do Bluebook não menciona deduções de doações para trusts e propriedades. Ele informou à CNBC que acredita que a omissão foi intencional e que é possível que o Tesouro mantenha o limite de dedução sobre doações para trusts e propriedades.

Uma pessoa familiarizada com os procedimentos do JCT comunicou à CNBC que a equipe interpretou a partir do OBBBA que a dedução de doações seria tratada de forma diferente de outras deduções. Essa pessoa falou sob condição de anonimato, pois não estava autorizada a se pronunciar publicamente sobre o assunto.

Com seis meses até o final do ano, o que os consultores mais precisam é de clareza, conforme destacou Miller.

“Precisamos apenas saber as regras”, finalizou. “No final das contas, os consultores querem apenas fazer a coisa certa. No momento, não sabemos o que isso é”.

Fonte: www.cnbc.com

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