Conta Corrente: Modelo Híbrido
Sobre a conta corrente, a preferência é por um modelo híbrido: a conta conjunta deve ser destinada aos gastos que envolvem a família, enquanto a conta individual é destinada a despesas pessoais. Essa orientação foi apresentada por Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Cef). “A conta conjunta exerce um efeito psicológico positivo: motiva o casal a sentir que está construindo algo em conjunto. A transparência nas finanças é um aspecto relevante dessa modalidade”, afirma.
Contas Individuais e Autonomia
Ter contas individuais também é considerado saudável, segundo Yoshinaga. “Possuir uma conta somente sua proporciona uma sensação de autonomia. Arrisco dizer que o dinheiro acaba não sendo gasto com a mesma despretensiosidade da conta conjunta, o que ajuda no controle financeiro.”
Aplicações: Separação de Objetivos
Investimentos destinados às próximas férias da família, à educação dos filhos, entre outros objetivos, podem ser realizados em algumas contas conjuntas. No entanto, os rendimentos geralmente ficam vinculados a apenas um CPF. Esse aspecto não representa um problema, porém, em um regime de casamento de separação parcial de bens, onde todo o patrimônio adquirido durante o casamento será dividido em um eventual divórcio.
Para metas como aposentadoria e desejos pessoais, os consultores financeiros recomendam a criação de uma conta de investimentos individual. Porém, é essencial combinar quais serão as contribuições previdenciárias, de modo que ambos atinjam a renda desejada para o futuro.
É preciso ter atenção ao concentrar uma grande parte dos investimentos na conta de apenas um dos cônjuges. “Se essa pessoa ficar incapacitada ou falecer, o cônjuge que ficou sem o acesso ao dinheiro pode enfrentar dificuldades. Por isso, é vital que ambos tenham um seguro de vida para ajudar a enfrentar essas situações no curto prazo”, diz Clay Gonçalves, planejadora financeira da SuperRico.
Trabalho Não Reconhecido
Para mulheres que se dedicam ao cuidado da casa e dos filhos, e que estão fora do mercado de trabalho formal, a recomendação é solicitar uma compensação mensal. Além disso, é importante que haja contribuições mensais que garantam uma aposentadoria remunerada no futuro. Yoshinaga destaca que estabelecer um valor para esse trabalho pode ser desafiador, pois há o risco de ofender as partes envolvidas. “É necessário chegar a um consenso onde ambas as partes se sintam confortáveis”, acrescenta.
Proteger-se financeiramente é fundamental para que a mulher não se sinta desamparada em casos de divórcio. “Embora as pessoas não casem pensando em se separar, as estatísticas mostram que os divórcios ocorrem com frequência bem maior do que antes. Portanto, é necessário se preparar minimamente para esta possibilidade”, aponta.
O falecimento do marido é outra circunstância crítica, especialmente porque as mulheres têm uma expectativa de vida maior. Os consultores sugerem que o marido faça um seguro de vida com uma indenização voltada à esposa. Essa medida pode ajudar a cobrir despesas até que a divisão da herança e o acesso ao dinheiro do testamento sejam concretizados.
O testamento, por sua vez, é uma ferramenta que pode ajudar a garantir a segurança financeira da mulher. É possível realizar doações em vida da parte que não será destinada aos herdeiros necessários.
Caso nenhuma medida tenha sido adotada antes da separação, a Justiça brasileiro oferece suporte para mulheres nessa situação. Existem previsões de alimentos temporários, que são concedidos até que a mulher consiga retornar ao mercado de trabalho. Dependendo da idade e das circunstâncias, essa concessão pode ser vitalícia, considerando o tempo hábil para que a mulher volte à atividade profissional. Para isso, é essencial comprovar a dependência financeira.
Outra possibilidade são os alimentos compensatórios, que se aplicam quando há a separação total de bens e o marido possui um alto valor patrimonial, enquanto a mulher não recebe nada no divórcio.
Divórcio: Desafios Financeiros
Quando um casamento apresenta dificuldades, frequentemente a mulher é a mais afetada, pois costuma acumular menos dinheiro e tem uma renda menor em relação ao cônjuge. A falta de suporte financeiro do parceiro pode resultar em um choque financeiro significativo. “Essa situação leva a um cenário em que muitas mulheres se sentem vulneráveis e, em casos de relações abusivas, podem optar por permanecer no relacionamento devido à dependência financeira. Assim, é recomendável que busquem algum tipo de blindagem e respaldo”, destaca Yoshinaga, da FGV.
Arranjos Não Convencionais
A presença das mulheres no mercado de trabalho tem crescido consideravelmente. Muitas delas já possuem patrimônio próprio e, em alguns casos, são responsáveis pela maior parte da renda do casal. Nesses cenários, formalizar um contrato de namoro pode proteger o patrimônio em uniões estáveis informais, que podem gerar implicações patrimoniais mesmo que o casal não resida oficialmente junto, conforme observa a advogada Paula Britto, autora do Manual da Separação.
A Importância da Comunicação
A discussão sobre como administrar as finanças é, em muitos casos, um tema considerado tabu. Isso torna o diálogo a respeito desse assunto mais desafiador do que a própria gestão financeira. Yoshinaga afirma: “Os casais muitas vezes hesitam em discutir esses tópicos; no entanto, se não for feita uma boa conversa antes de estabelecer uma vida em comum, essa falta de comunicação pode levar a problemas no casamento e também em um eventual divórcio”. Essa ausência de diálogo pode resultar em situações como a infidelidade financeira, em que um cônjuge descobre a existência de contas ocultas do outro, que servem para disfarçar ativos financeiros.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br


