A Preocupação com a Bolha de Inteligência Artificial
Recentemente, o mercado tem se mostrado preocupado com a discussão em torno da possibilidade de uma bolha relacionada à inteligência artificial (IA). Essa discussão envolve argumentos apresentados por grandes gestoras globais, que, em sua maioria, rejeitam essa tese.
O que é uma bolha no mercado de investimentos
O conceito de bolha no contexto dos investimentos refere-se a movimentos de alta expressiva no preço de um ativo, fazendo com que seu valor ultrapasse o que seria considerado seu valor real ou justo. O mercado tende a precificar de forma equivocada, e, quando os resultados subsequentes não sustentam o nível de avaliação alcançado, ocorre o que se chama de "estouro da bolha".
Como explica Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP, essa é uma questão relacionada a expectativas. Muitas vezes, as bolhas são identificadas como especulativas. Ela destaca:
“A bolha é muito fácil de reconhecer depois que ela estoura. Ela acontece e cresce à medida em que as pessoas vão criando expectativas irreais com relação a uma empresa”.
A tese da bolha de IA se encaixa nessa dinâmica. As ações de diversas empresas estão apresentando um crescimento de forma exponencial, ao mesmo tempo em que essas companhias estão realizando investimentos substanciais, na casa de bilhões de dólares, em infraestrutura para viabilizar suas operações no setor de inteligência artificial. A grande questão, conforme salienta Yoshinaga, é se esses investimentos irão gerar os retornos financeiros necessários para justificar os preços atuais das ações.
O que ocorre quando a bolha ‘estoura’
Não se pode falar de uma bolha sem mencionar seu estourar. Quando isso acontece, a euforia que sustentava os preços irrealmente elevados chega ao fim, resultando em uma correção brusca desses valores. Devido à natureza especulativa, assim como a ascensão dos preços foi rápida e expressiva, a queda também tende a ser acentuada.
Claudia Yoshinaga explica que os impactos de uma bolha que estoura podem ir além do mercado financeiro. A primeira consequência é evidentemente sentida por quem possui investimentos na área afetada. Contudo, o alcance do prejuízo pode se espalhar, dependendo do perfil dos investidores envolvidos.
Como exemplo, podemos observar a crise do subprime entre 2007 e 2008, na qual diversos fundos de pensão estavam investidos em títulos hipotecários de alto risco. Quando esses ativos desvalorizaram, muitos americanos viram suas aposentadorias comprometidas.
Além disso, essa sensação de riqueza ilusória, onde o investidor possui ações avaliadas a preços que não refletem seu valor verdadeiro, pode desencadear um efeito cascata. Yoshinaga menciona: “Potencialmente, isso impacta o quanto essas pessoas vão conseguir consumir, afetando assim a economia como um todo”. Em um caso semelhante, se uma empresa está investindo, adquirindo matéria-prima e expandindo operações, qualquer desdobramento desfavorável impactará todas as partes envolvidas.
As bolhas mais marcantes da história
A primeira bolha financeira registrada na história ocorreu entre 1636 e 1637, e, curiosamente, não envolvia um ativo comum, mas sim tulipas holandesas. Hamurabi edificado e levado para a Holanda no final dos anos 1500, esse flor exótica e rara despertou grande interesse entre os especuladores da época. Os preços das tulipas dispararam, chegando a aumentar mais de vinte vezes, sendo negociadas em troca de bens materiais. Com isso, surgiram contratos de tulipas, que podem ser comparados aos contratos futuros atualmente negociados em bolsas. Quando um dos compradores desses contratos não conseguiu honrar o pagamento, a euforia deu lugar ao pânico, culminando no estouro da bolha.
Outra bolha famosa foi a conhecida como a bolha .com, ou bolha da internet, que teve início na metade da década de 1990, um período marcado pelo rápido desenvolvimento do setor de tecnologia e telecomunicações. A utilização de computadores pessoais aumentou significativamente, assim como a popularidade da World Wide Web (www), que revolucionou a indústria da época.
No entanto, essa excitação também atingiu empresas que ainda não apresentavam resultados lucrativos ou que operavam em setores pouco relacionados à tecnologia. Empresas que continham “.com” em seus nomes passaram a ser avaliadas a preços que superavam seu real valor no mercado, levando o índice Nasdaq a registrar um crescimento de 86% em 1999. Contudo, em 2000, a bolha estourou, com ações do setor tecnológico experimentando uma drástica queda e muitas startups encerrando suas atividades. Em 2002, o Nasdaq havia caído 77% em comparação ao seu pico anterior, um clima de pessimismo que rapidamente se espalhou globalmente para outras bolsas de valores.
Entre 2007 e 2008, eclodiu a crise gerada pela concessão de empréstimos hipotecários de alto risco, mais conhecida como a crise do subprime. Essa bolha foi identificada antecipadamente pelo investidor americano Michael Burry, cuja estratégia se destacou e lhe trouxe notoriedade. A crise resultou na falência do Lehman Brothers, entre outras instituições financeiras, além de provocar uma recessão nos Estados Unidos. O PIB do país contraiu, a taxa de desemprego ultrapassou 10%, e o Federal Reserve, banco central dos EUA, precisou injetar US$ 850 bilhões no sistema bancário para evitar um colapso financeiro. O impacto sentido nos Estados Unidos logo se propagou para o resto do mundo, demonstrando a interconexão dos mercados financeiros globais.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br


