O ponto mais relevante foi o guidance da Nvidia (projeções de desempenho da própria companhia). A empresa projeta US$ 78 bilhões para o próximo trimestre, superando o consenso de US$ 72 bilhões, o que alivia a principal preocupação do mercado, que era uma possível desaceleração, observa Celso Brandão, CEO e fundador da Avex AI Lab. Esse ritmo de crescimento representa uma base anual superior a US$ 300 bilhões, trazendo a empresa a um novo patamar de receita. A companhia fechou 2025 com um faturamento de US$ 215,9 bilhões, apresentando um aumento de 65% em comparação com o 4T24. “A tese de que os agentes de IA aumentarão o consumo de computação contribui para sustentar esse cenário”, afirma.
Diferente de um chatbot comum, como o ChatGPT, o agente de IA opera ativamente no mundo digital, abrindo abas, realizando pesquisas, utilizando ferramentas, enviando e-mails, atualizando planilhas e até fazendo compras.
Guidance da Nvidia afasta o medo de desaceleração
Para Maria Irene Jordão, estrategista global da XP Investimentos, as projeções da Nvidia indicam que o ciclo de investimento em infraestrutura de IA, realizado por ‘hyperscalers‘ como Microsoft e Alphabet (controladora do Google), ainda está longe de mostrar sinais de desaceleração. “Os guidances de capex (investimentos) divulgados pelas companhias, contrastam com os debates recentes sobre ‘AI capex fatigue,’” argumenta. As hyperscalers operam data centers que fornecem infraestrutura em grande escala para a expansão da IA. Esses clientes da Nvidia já investiram quase US$ 2 trilhões em expansão computacional até 2025 e projetam mais US$ 630 bilhões para este ano. Esses números impressionantes, no entanto, intensificam os temores de sobreinvestimento.
“O risco sempre existe quando o capex aumenta a esse nível,” comenta Brandão. “Todavia, neste momento, o movimento ainda parece estrutural,” observa.
Data centers puxam crescimento
Os investimentos se justificam, pois as big techs — empresas líderes do setor tecnológico com grande infraestrutura de nuvem — necessitam de mais poder de computação. “Para empresas que competem pela liderança em inteligência artificial, não é viável acumular GPUs (chips de IA) e data centers desatualizados”, explica Jordão.
Nesse contexto, a Nvidia está continuamente introduzindo novos ciclos de inovação, promovendo uma renovação constante de hardware para maximizar desempenho e eficiência. “Simultaneamente, os grandes hyperscalers permanecem focados em aumentar a produtividade e monetização dos modelos, o que deve sustentar a demanda por chips mais avançados”, afirma.
Atualmente, a Nvidia, a maior empresa do mundo em valor de mercado (US$ 4,77 trilhões), continua apresentando uma taxa de crescimento trimestral superior a 50% em relação ao ano anterior, o que impressiona os analistas.
Nos resultados do 4T25, a receita de data centers se destacou, alcançando US$ 62,3 bilhões, um aumento de 75,1% em relação ao 4T24. Esse desempenho revela a forte demanda por chips de IA.
| Indicador | Nvidia | Setor IA |
| Receita trimestral | US$ 68,1 bilhões | – |
| Receita Data Centers | US$ 62,3 bilhões | – |
| Guidance próximo trimestre | US$ 78 bilhões | – |
| Projetos de investimento | – | US$ 630 bilhões |
| Investimento acumulado | – | US$ 2 trilhões |
Mercado reage com cautela mesmo com números fortes
Após os resultados, as ações da companhia (NVDA) subiram mais de 2,5%, embora essa alta tenha desacelerado para cerca de 0,5%. Na visão da estrategista da XP, esse comportamento do mercado está em linha com o padrão observado nos últimos dois trimestres.
Apesar de apresentar números sólidos, as ações sofreram uma correção devido a questões de posicionamento, realização de lucro e preocupações sobre a sustentabilidade de margens e capex futuros.
Atualmente, as chamadas Sete Magníficas — grupo que abrange as empresas Nvidia, Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet, Meta e Tesla — continuam a ter um peso considerável no S&P 500, representando cerca de 33% do índice. No entanto, o ceticismo do mercado financeiro em relação à capacidade dessas empresas de manterem o crescimento tem se tornado prevalente, impactando negativamente o desempenho de suas ações e pressionando o índice para baixo, enquanto outros setores promovem seu avanço.
Maria Irene Jordão observa que, ao contrário do início da euforia, quando qualquer empresa que alegasse estar relacionada à narrativa da inteligência artificial recebia avaliações excessivas, o mercado tornou-se mais seletivo atualmente.
O que pode acender o alerta de bolha de IA
Na análise da XP Investimentos, um ciclo saudável de IA é sustentado por três pilares principais: alavancagem controlada, retornos sustentáveis e compatíveis com o risco dos investimentos realizados e, “sobretudo”, crescimento em receita e lucro que justifique a avaliação das ações.
“O mercado tem separado as empresas que atendem a esses critérios e colocado como mais expostas a correções aquelas que não cumprem esses requisitos. Contudo, até o momento, não observamos sinais evidentes de uma bolha generalizada no setor”, afirma.
Para ela, a corrida relacionada à IA tende a gerar tanto vencedores quanto perdedores, com ajustes nos preços ao longo do caminho, “que não configuram necessariamente o estouro de uma bolha”.
Múltiplos da Nvidia ainda são sustentáveis?
Brandão, da Avex, destaca que os múltiplos atuais (a Nvidia está avaliada em 49 vezes seu lucro) fazem com que o mercado exija uma execução consistente. Ele menciona que a companhia não é mais apenas uma empresa de crescimento, mas sim uma infraestrutura central da economia digital. “Isso justifica um prêmio. Entretanto, qualquer sinal de desaceleração mais significativa, compressão de margens ou ganho expressivo de participação de concorrentes poderá levar a uma reprecificação das ações”, adverte.
Comparação histórica de preço sobre lucro (P/L) da Nvidia nos últimos 5 anos
| Ano | P/L |
| 2021 | 84,1x |
| 2022 | 74,6x |
| 2023 | 80,7x |
| 2024 | 80,5x |
| 2025 | 46,6x |
*P/L indica quantos anos de lucro são necessários para um investidor recuperar o valor gasto na compra da ação e revela as expectativas de crescimento do mercado. Um P/L elevado sinaliza alta expectativa, enquanto um P/L baixo pode indicar riscos ou oportunidades. Fonte: Investing.com
Diferentemente da bolha da internet nos anos 2000, quando diversas empresas eram negociadas a múltiplos elevados sem uma geração consistente de caixa, no atual ciclo de IA o mercado precifica o crescimento já alcançado, mas demanda que essa continuidade seja mantida em grande escala.
Investimentos em IA terão de mostrar resultados
Até o momento, o preço atual pressupõe que o ciclo de IA continua e que a empresa mantém sua liderança tecnológica. A mesma lógica se aplica às hyperscalers, que precisarão apresentar um crescimento real em suas receitas, e não apenas um aumento no capex. Na visão do executivo da Avex, o mercado estará atento à taxa de utilização dos data centers, e qualquer indício de capacidade ociosa pode funcionar como um sinal de alerta.
Ademais, os investidores começarão a exigir uma evolução nas margens operacionais após esses investimentos bilionários e prestarão atenção à adoção corporativa concreta de agentes e automações em produção em larga escala. A diversificação da demanda, além das big techs, é um aspecto importante, pois uma aplicação restrita poderia indicar problemas nesta infraestrutura.
“A bolha se forma quando o investimento cresce, mas a geração de valor não acompanha”, afirma Brandão. Segundo ele, um ciclo saudável se caracteriza por tecnologias que melhoram produtividade e margem de maneira mensurável. “Ainda percebo um maior foco na construção sólida do que na especulação desmedida”, conclui, à medida que os resultados da Nvidia no 4T25 aliviam as preocupações em relação à bolha da IA.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br