No dia 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel realizaram ataques contra o Irã. Desde então, o Estreito de Ormuz, uma importante via marítima onde cerca de 30% de todo o petróleo mundial é transportado, está quase totalmente paralisado. Consequentemente, essa situação está elevando os preços do barril de petróleo, afetando a oferta e demanda.
No curto prazo, os preços dos alimentos no Brasil podem não ser significativamente impactados. Contudo, surge a dúvida: o que pode acontecer se o conflito se prolongar por mais de um mês?
Para compreender melhor essas possibilidades, o Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC – entrevistou dois especialistas na área: Alex André, Head de Acesso Corporativo da MZ Group, e André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica Consultoria.
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Petróleo caro pode encarecer alimentos no Brasil?
Apesar de o Brasil ser um país produtor de petróleo, a quantidade produzida ainda é insuficiente para garantir todo o abastecimento interno. Atualmente, conforme relatado anteriormente, o Brasil consegue produzir cerca de 5 milhões de barris de petróleo bruto por dia. Desses, 3 milhões são destinados ao consumo interno, enquanto 2 milhões são exportados.
Portanto, segundo Alex André, “se o petróleo continuar a altos níveis, há sim o risco de que os preços dos alimentos no Brasil aumentem de forma significativa. O impacto inicial se dá na produção agrícola e, posteriormente, se espalha para a logística, distribuição e varejo.”
Esse encarecimento seria provocado pelo fato de que “o aumento do preço do petróleo afeta praticamente toda a cadeia produtiva, desde o transporte até a energia necessária para a produção agrícola, dificultando a manutenção de preços estáveis”, acrescentou Alex.
Assim, espera-se um efeito dominó na economia. Com o aumento do preço do diesel, ocorre uma elevação nos fretes, o que pode desencadear uma série de aumentos que vai além dos alimentos. Isso pode afetar também o transporte público, os aplicativos de transporte, a gasolina e, por consequência, o preço do etanol, impactando a cadeia sucroalcooleira”, destacou André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica Consultoria.
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Impacto da guerra no Irã no agronegócio brasileiro
Ademais, é possível observar que a guerra no Irã pode impactar de forma direta o agronegócio brasileiro, resultando no aumento dos preços de fertilizantes industriais.
Esses fertilizantes são compostos por ingredientes que derivam do petróleo. Exemplos incluem os fertilizantes nitrogenados e fosfatados. Além disso, o Brasil tem uma alta exportação de ureia, que é um fertilizante nitrogenado amplamente utilizado na agricultura.
Assim, “se as tensões aumentarem, o mercado de fertilizantes pode sofrer os impactos no curto prazo. Embora haja uma alta volatilidade, o mercado normalmente se ajusta aos preços com o passar do tempo”, alertou o Head de Acesso Corporativo do MZ Group.
No cenário global, “o mercado de fertilizantes já enfrentava pressões desde a guerra entre Rússia e Ucrânia. O Leste Europeu, que era um grande fornecedor desses insumos, viu seu fluxo de produtos e matérias-primas fortemente afetado pelos riscos logísticos decorrentes do conflito”, completou o economista-chefe da Análise Econômica Consultoria.
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Alta do petróleo compete com a desinflação brasileira
Todavia, pode não ser o momento de desespero. Antes do início do conflito armado entre Irã, EUA e Israel, o mercado brasileiro estava à espera da redução da taxa básica de juros, que permanece em 15% por cinco reuniões consecutivas do Copom.
Essa expectativa era respaldada pelos níveis controlados da inflação no Brasil. Assim, conforme Galhardo, “não creio que haja motivos para pânico neste momento. É fundamental manter a calma ao discutir a inflação.”
Embora o aumento da inflação seja uma preocupação, a projeção para este ano é de 4,25%, um nível que é considerado moderado para o Brasil, segundo o economista-chefe da Análise Econômica Consultoria.
“Atualmente, vivemos um processo de desinflação. Portanto, mesmo com o aumento imediato dos preços do petróleo e os possíveis impactos indiretos, a alta do petróleo ainda se contrabalança com esse movimento de desinflação. Por isso, é crucial agir com tranquilidade e monitorar gradualmente qual será o impacto financeiro para a população, em meio à volatilidade”, concluiu Galhardo ao comentar sobre os potenciais aumentos nos preços dos alimentos no Brasil, em decorrência do cenário de conflito no Irã.
Fonte: timesbrasil.com.br

