O Papel do Pix nas Relações Brasil-Estados Unidos
O Pix tem se destacado nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, sendo considerado mais uma ferramenta de negociação do que um elemento decisivo para sanções contra o Brasil. Essa análise é de Gesner Oliveira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio da GO Associados.
Redução de Custos e Inclusão Financeira
Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Gesner destacou que o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, possui uma defesa sólida devido à sua contribuição na redução de custos de transação e na ampliação do mercado, além de promover a inclusão de consumidores no sistema financeiro.
“O Brasil tem uma posição muito forte em relação ao Pix, porque ele realmente representa uma redução muito grande do custo de transação e, consequentemente, amplia o mercado”, afirmou Oliveira.
Análise Concorrencial do Pix
O economista argumenta que uma análise mais detalhada do concorrencial enfraquece a crítica de que o Pix atua como uma barreira ao mercado ou afasta concorrentes de maneira artificial. Segundo Gesner, há evidências de que o número de transações com empresas americanas utilizando o Pix é superior ao que se observaria sem a sua implementação.
“Não é um sistema que feche o mercado, que restrinja o mercado ou que desloque de forma artificial concorrentes”, disse o professor. Ele acredita que a tese levantada pelos Estados Unidos não se sustenta perante uma análise mais rigorosa.
Negociações Comerciais Internacionais
Oliveira destaca que é comum existirem pleitos e pressões no comércio internacional. Contudo, no que diz respeito ao Pix, ele considera que o Brasil possui uma posição “inegociável”. O tema do Pix pode diferir de outras questões na agenda biliteral, onde concessões comerciais são frequentemente parte do jogo diplomático.
“Na questão do Pix, nossa tese é sólida e deve prevalecer”, afirmou Gesner.
Impactos da Investigação
Gesner aponta que a investigação no âmbito da Seção 301 já tem gerado incertezas para empresas de tecnologia, bancos, instituições financeiras e meios de pagamento. Ele observa que essa disputa gera dúvidas sobre previsões de transações, crescimento de mercado e novos investimentos.
Apesar disso, ele não acredita que o caso represente uma barreira estrutural para o desenvolvimento das relações comerciais ou dos setores impactados pelo Pix. “É uma disputa importante que coloca um possível freio no avanço de investimentos em determinadas áreas”, disse.
O Pix como Instrumento de Barganha
De acordo com Gesner, tanto o Pix quanto outros temas levantados na investigação têm mais a função de enriquecer a agenda de negociação dos Estados Unidos, em vez de determinarem senão haverá ou não sanções ao Brasil.
“Eles cumprem mais um papel de uma agenda de negociação do que propriamente a questão que vai decidir se haverá ou não uma sanção por parte dos Estados Unidos”, ressaltou o economista.
Contexto da Seção 301
Gesner lembra que a Seção 301 é uma ferramenta antiga da política comercial americana, utilizada para pressionar parceiros a dialogar bilateralmente. Segundo ele, essa estratégia é uma prática que já existia antes do governo de Donald Trump, mas se intensificou durante suas administrações.
Ele avalia que a discussão atual é menos técnica e mais baseada em estratégias de negociação. Nesse contexto, o Pix pode ser utilizado como uma forma de barganha a fim de facilitar concessões em outras áreas das relações comerciais.
“Você muitas vezes quer uma concessão em um tema que não tem nada a ver com o Pix, mas o Pix serve para a barganha que poderá viabilizar uma determinada concessão em outro tema completamente diferente”, explica o professor.
Diversidade de Temas na Investigação
Gesner afirma que a amplitude dos temas incluídos na investigação indica uma tentativa de criar uma ampla gama de opções de negociação. Ele acredita que um diálogo entre o setor privado, as empresas e os consumidores pode auxiliar na identificação de concessões aceitáveis e reduzir conflitos.
Para o professor, promover uma agenda mais abrangente de integração comercial poderia ser mais eficaz do que a perpetuação de disputas bilaterais. Ele sugere que uma possível área de livre comércio nas Américas poderia ampliar os mercados e fortalecer a posição da região em face da concorrência com a Ásia e a União Europeia.
“Talvez esses atritos e confrontos e negociações duras bilaterais possam eventualmente levar as partes a uma negociação mais ampla”, concluiu Gesner.
Fonte: timesbrasil.com.br

