Juros Altos e Desalinhamento de Políticas
Juros próximos de 15% ao ano apresentam um nível "absurdo" para o Brasil, refletindo um desalinhamento entre as políticas econômica e fiscal do país. A avaliação é de Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central (BC). Ele destaca que o trabalho da autoridade monetária é prejudicado por uma política fiscal expansionista que vai na direção oposta ao esforço de controle da inflação.
“Os juros elevados que o Brasil paga, considerados exorbitantes, são consequência desse desajuste político. Há políticas claramente em direções opostas”, afirmou.
Conflito entre a Política Monetária e Fiscal
Em entrevista ao programa Money Minds, do Money Times, Figueiredo comenta que, enquanto o Banco Central tenta esfriar a economia para reduzir pressões inflacionárias, o governo continua a estimular a demanda com aumento de gastos. “O problema do Banco Central é que há alguém do outro lado da Esplanada que não para de gastar e mantém uma política altamente expansionista.”
Na prática, essa situação força a autoridade monetária a manter os juros elevados por um período mais longo. O ex-diretor da autarquia ilustra esse conflito com a metáfora de um carro que precisa reduzir a velocidade antes de uma curva: enquanto o BC freia, a política fiscal acelera.
Figueiredo argumenta que, para melhorar o cenário econômico e possibilitar a redução dos juros de forma sustentável, é fundamental haver maior disciplina nas contas públicas.
Rigidêz Orçamentária e Crescimento da Arrecadação
Figueiredo critica a rigidez orçamentária, que reduz a capacidade de implementar mudanças significativas. Em sua visão, em vez de enfrentar problemas estruturais, o governo opta por aumentar a arrecadação para acomodar novas despesas. “É necessário ter alguma liberdade orçamentária”, concluiu.
Trajetória de Queda da Selic em Risco?
O ex-diretor acredita que a guerra entre Estados Unidos e Irã não compromete a trajetória de queda da Selic que inicialmente era esperada, embora possa afetar o ritmo dos cortes. “Estou quase certo de que o Banco Central fará a próxima redução”, afirmou.
Ele observa que questões geopolíticas adicionam um grau elevado de incerteza ao ambiente econômico, principalmente devido às oscilações no preço do petróleo. “Quando falamos em incerteza, o valor não é calculável. O preço do petróleo subiu de US$ 70 para US$ 100, mas poderia atingir US$ 200. E esses níveis de preço representam cenários muito distintos.”
Nesse contexto, Figueiredo sugere que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve reagir conforme os dados surgem, ao invés de antecipar cenários incertos. “Diante de incertezas, o Banco Central deve responder a elas, não se antecipar”, reiterou.
Cenário Atual da Selic
Figueiredo avalia que a Selic permanece em níveis bastante restritivos e, mesmo diante de conflitos externos, não parece ser o momento de interromper o ciclo de redução de juros. “A política monetária no Brasil está excessivamente apertada. Com o nível de incerteza que enfrentamos atualmente, não parece apropriado interromper a redução da taxa de juros”, afirmou.
Ainda assim, ele salientou que o cenário pode exigir decisões mais cautelosas nas próximas reuniões. “Diante de uma incerteza tão grande, talvez seja melhor avançar com um ritmo mais lento e controlado”, observou.
Conforme Figueiredo, se o petróleo permanecer em níveis mais baixos, seria viável um corte de 0,50 ponto percentual na próxima reunião. Por outro lado, se o preço da commodity continuar elevado, a autoridade monetária pode escolher uma abordagem de cortes mais graduais.
E a Inflação?
A guerra no Oriente Médio também adiciona incerteza ao comportamento da inflação. Entretanto, Figueiredo acredita que o impacto tende a ser temporário, desde que o conflito não se prolongue.
Para ele, o choque nos preços de energia pode gerar um "soluço" inflacionário, mas isso não necessariamente resultará em um efeito persistente.
No entanto, essa análise não é consenso entre os economistas. O Boletim Focus revela que a projeção dos especialistas ouvidos pelo BC é de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) feche este ano em 4,71%, o que se encontra acima do teto da meta, que está fixada em 3%, com um intervalo de tolerância de 1,50 ponto percentual para mais ou para menos.
Figueiredo, por sua vez, considera prematuro afirmar que a inflação brasileira terminará 2026 acima de 4,50%. Ele afirma que grande parte dessa avaliação depende da trajetória do petróleo nos meses seguintes.
Fonte: www.moneytimes.com.br