Sombra de calote, crescimento econômico e polêmicas marcam 2025, mas otimismo para 2026 é alto.

Sombra de calote, crescimento econômico e polêmicas marcam 2025, mas otimismo para 2026 é alto.

by Ricardo Almeida
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Argentina: O foco dos investidores

A Argentina tem atraído a atenção dos investidores nos últimos anos, especialmente desde a ascensão de Javier Milei ao cargo de presidente. Suas reformas têm como objetivo reintroduzir o setor privado na economia, despertando um interesse crescente no país, que enfrenta uma crise econômica que já dura quase uma década.

Transição de governo e seus desafios

A transição do comando do ex-presidente Alberto Fernández, que possui uma linha peronista à esquerda, para Javier Milei em 2024, não ocorreu sem protestos. Os cortes de benefícios sociais e a suspensão de subsídios, entre outras medidas consideradas impopulares, levaram diversas centrais sindicais e movimentos sociais a se manifestarem contra o governo atual.

Além disso, um escândalo de corrupção relacionado a Diego Spagnuolo, ex-chefe da Agência Nacional de Pessoas com Deficiência (ANDIS), trouxe à tona acusações que ligam Karina Milei, irmã do presidente, a um esquema que envolvia o repasse de 3% de uma farmacêutica à agência, prejudicando ainda mais a imagem do governo.

Números da economia argentina

Apesar dos desafios, os indicadores econômicos da Argentina têm mostrado sinais de melhora nos últimos anos. A inflação acumulada em 2024 foi de cerca de 118%, com previsões apontando um fechamento em 30,4% para 2025 e em 18,2% para 2026, conforme um relatório recente do BTG Pactual.

Além disso, as reservas internacionais, que anteriormente estavam negativas, devem registrar um saldo positivo de US$ 6,1 bilhões até o final do ano, após terem encerrado 2024 com um déficit de US$ 2,4 bilhões.

Balanço de 2025: O ano de Javier Milei

Em relação ao ano de 2025, Sofia Ordoñez, analista do BTG Pactual em Buenos Aires, mencionou que “pareceram vários anos desde janeiro”. Ela descreveu o ano como uma verdadeira “montanha-russa” devido à intensidade dos eventos ocorridos.

Segundo Ordoñez, o programa econômico teve um início desgastante em 2025, ocasionado pela perda de reservas internacionais e a possibilidade de que o sistema de “crawling peg” estivesse em risco sob controle do governo.

“O governo vinha perdendo reservas, e o plano de estabelecer um crawling peg de 1% estava cada vez menos crível”, enfatizou Ordoñez, referindo-se ao regime de câmbio flutuante proposto pela administração de Milei.

Melhorias e desafios adversos

No final de abril, a situação começou a mudar com um acordo de financiamento de US$ 20 bilhões firmado com o Fundo Monetário Internacional (FMI), cujo objetivo era reforçar o pacote de reformas econômicas.

Contudo, a tensão pré-eleitoral na província de Buenos Aires complicou o ambiente político. A vitória da coalizão peronista na maior província da Argentina, ocorrida em setembro, afetou o sentimento do mercado antes das eleições legislativas de outubro, que poderiam resultar em uma mudança de poder no Parlamento e comprometer a implementação de novas reformas.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interveio para ajudar, disponibilizando US$ 20 bilhões aos cofres argentinos por meio de um swap cambial, um mecanismo que complementa outro empréstimo do mesmo valor que seria financiado por instituições privadas, mas que foi suspenso logo após as eleições.

A eleição de 2025 trouxe surpresas: o partido de Milei, La Libertad Avanza (LLA), conquistou 92 dos 257 assentos na Câmara e 19 dos 72 no Senado. A coalizão formada com outros partidos de centro e centro-direita facilitou a aprovação de novos pacotes de reformas estruturais para 2026.

O futuro da Argentina: Ações necessárias

De acordo com a analista Ordoñez, as reformas que ainda precisam ser implementadas para que a Argentina retome um caminho sustentável e consiga acesso aos mercados internacionais de crédito são de natureza tributária e trabalhista.

A Argentina vivencia um aumento da informalidade, algo que se assemelha à situação no Brasil, mas que se intensificou pela crise econômica. Embora a taxa de desemprego mantenha-se estável em cerca de 6% nos últimos anos, estima-se que entre 45% e 50% da força de trabalho esteja na informalidade, um número que, para fins comparativos, no Brasil, gira em torno de 40%, segundo dados do IBGE.

“Isso não quer dizer apenas que eles não têm seguridade social, mas também que não pagam impostos, e a Argentina precisa desse recurso atualmente”, comenta a analista do BTG.

A proposta de Milei visa criar um pacote de reformas que traga esses trabalhadores para a formalidade, especialmente alterando regras de contratação para pequenas e médias empresas.

Reforma tributária e acumulação de reservas

A reforma tributária exigirá esforços significativos da coalizão governista. Para Ordoñez, ela não deve ser “tão ambiciosa” quanto o esperado, dada a estrutura atual de arrecadação de impostos na Argentina. Embora o governo federal possa ajustar os impostos com mais facilidade, será necessário firmar acordos que assegurem mudanças em âmbito municipal e provincial, semelhante ao sistema estadual brasileiro.

Isso permitirá ao governo almejar o próximo passo: a acumulação de reservas internacionais.

Dependência de dólares e contas externas

Atualmente, a Argentina enfrenta uma necessidade urgente de reservas internacionais para cumprir suas obrigações externas. Até o momento, o país tem conseguido, por meio de diversos empréstimos, continuar implementando reformas estruturais. No entanto, a dependência excessiva de transferências externas liga um sinal de alerta entre os analistas.

Roberto Dumas, professor da FIA Business School, destaca que “o principal problema agora são as contas externas, com obrigações de US$ 6 bilhões a US$ 7 bilhões para pagar quase US$ 44 bilhões ao FMI até 2027”, indicando um déficit estrutural em relação à dívida externa.

O objetivo de Milei para 2026 é retornar ao mercado internacional de crédito e acumular reservas. “Se excluímos o dinheiro do FMI, as reservas líquidas da Argentina estão em níveis negativos significativos, semelhantes aos números quando Milei assumiu o cargo”, apontam os analistas do BTG Pactual em seu relatório.

Portanto, a Argentina precisa restaurar a confiança dos investidores, demonstrando que está no caminho certo, por meio da aprovação de reformas que garantam o controle das contas públicas.

Dumas acredita que um calote da dívida argentina, algo recurrente na história do país, é improvável. “O que pode ocorrer é uma reestruturação significativa da dívida, com forte apoio do FMI, devido à relação que Milei tem com Donald Trump”, acrescenta.

A situação atual pode ser comparada a um veículo potente, mas sem combustível: o cenário é animador, porém uma injeção de confiança e capital na economia argentina ainda é necessária.

Por ora, os analistas mantêm um “otimismo cauteloso” em relação ao futuro da Argentina em 2026: as reformas estruturais são vistas de maneira positiva, mas a busca por reservas acumuladas mais consistentes será fundamental para encontrar um apetite pelo risco em relação à economia argentina.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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