Ambiente Global e Conflito no Oriente Médio
O cenário econômico global deve continuar apresentando uma tendência inflacionária, com os mercados se ajustando de forma gradual ao conflito no Oriente Médio. Essa análise é de Vitor Tartari, gestor na Somma Investimentos, instituição que administra um montante de R$ 16 bilhões em seus negócios.
A situação atual é comparável ao que aconteceu após o início da guerra na Ucrânia, com os investidores primeiramente adotando uma postura de aversão ao risco e, posteriormente, buscando ativos capazes de se beneficiar desse contexto. Segundo Tartari, o primeiro movimento já foi evidente em março deste ano, quando observou-se uma corrida ao caixa, acompanhada de uma queda geral no apetite por risco. Ele destacou, “Agora, aparentemente, está todo mundo ficando um pouco mais calmo e buscando os vencedores dessa história”, em declaração ao Money Times.
Apesar dos ajustes necessários, Tartari acredita que o episódio atual deve ser mais breve do que o conflito na Ucrânia. Essa expectativa se baseia em possibilidades de desescalada militar, acordos políticos ou mudanças nas condições internas dos Estados Unidos.
Ainda assim, ele sugere que algumas variáveis-chave não retornarão aos níveis anteriores ao conflito. “O que a gente acha que não acontece é o petróleo voltar para os níveis anteriores”, explicou Tartari, enfatizando que essa perspectiva reforça uma visão favorável a ativos vinculados à economia real.
Evolução dos Preços do Petróleo
O gestor avalia que, apesar de não esperar um aumento contínuo no preço do petróleo, também não se deve prever um retorno a níveis anteriores ao início do conflito, anticipando que os preços ficarão entre US$ 70 e US$ 80. Essa faixa elevada tende a se consolidar, uma vez que várias economias dependem fortemente dessa commodity e necessitam reabastecer estoques estratégicos para enfrentar possíveis choques de oferta.
Tartari menciona que a China possui aproximadamente um ano de consumo estocado. Além disso, Estados Unidos e países do G7 têm reservas estratégicas consideráveis, sendo que a liberação parcial de barris visa conter a alta dos preços, mas não tem alcançado o efeito desejado em termos de redução dos valores.
Preferência por ‘Ativos Reais’
Dentro desse contexto, o gestor reafirma que a preferência continua a ser por ativos reais e setores que se beneficiam de uma inflação mais elevada. “A gente gostava [antes do conflito no Irã] de ativos reais e continua gostando”, afirmou, citando como exemplos ações de commodities e títulos atrelados à inflação.
Ele acredita que países exportadores de commodities e aqueles que oferecem juros reais elevados se destacam em um cenário econômico como o atual.
Além disso, Tartari ressalta que a relevância do setor de energia na bolsa brasileira favorece o desempenho relativo do mercado doméstico em períodos em que o preço do petróleo se mantém elevado.
Dentre as ações preferidas da Somma na Bolsa brasileira, destacam-se Prio (PRIO3), Petrobras (PETR4), Axia (AXIA3) e Equatorial (EQTL3).
Simultaneamente, o gestor mantém também uma posição em tecnologia nos Estados Unidos, um setor que ele considera “transformacional”. Este segmento tem a capacidade de escalar e expandir margens, diferentemente de indústrias mais tradicionais. A estratégia, conforme mencionou Tartari, envolve a combinação de ativos reais — como energia — com empresas que apresentam crescimento estrutural.
No que diz respeito à alocação, Tartari informa que a gestora trabalha com posições em níveis neutros, ajustando sua exposição em função da dinâmica do mercado.
Apesar das preocupações relacionadas às questões fiscais e de juros no Brasil, ele acredita que o país está bem posicionado no contexto global. Por esta razão, a Somma tem mantido, ao longo do tempo, uma exposição neutra ou até acima do neutro no mercado acionário brasileiro.
O gestor destaca a importância de preferir empresas que apresentem a capacidade de repassar a inflação, reduzir custos e ampliar margens, elementos que provavelmente resultarão em desempenhos mais robustos em ambientes de volatilidade. Por consequência, a carteira da Somma costuma priorizar ações em detrimento de commodities puras.
Eleições e Selic
Na avaliação de Tartari, a próxima eleição presidencial terá impacto menos estressante no mercado comparado à disputa anterior, que teve como protagonistas Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Segundo ele, a interpretação do mercado indica um cenário “menos extremo”, com Lula concorrendo novamente, agora contra um candidato da família Bolsonaro, o que, em sua análise, tende a diminuir a tensão que ficou evidente no último pleito.
O gestor da Somma considera que o mercado enxerga um possível quarto mandato de Lula como continuidade do governo atual, o que se assemelharia mais à administração de Dilma Rousseff do que ao primeiro mandato de Lula — um período que caracterizou-se por uma abordagem mais intervencionista. Tartari observa que há uma percepção entre agentes do mercado financeiro de que Lula tem uma inclinação para flertar com ideias extremadas, mas sem uma evolução decisiva nesse sentido.
Em termos macroeconômicos, Tartari observa que o Banco Central adequou sua postura cautelosa em resposta ao cenário recente. Embora as revisões das previsões de inflação, iniciadas após o conflito no Irã e a alta nos preços do petróleo, tenham elevado as expectativas do mercado, ele considera que a autoridade monetária ainda dispõe de ferramentas adequadas para controlar a pressão inflacionária associada ao petróleo.
Na visão do gestor, o Banco Central deve manter uma postura cautelosa no curto prazo, mas terá margem para acelerar o ritmo de cortes na Selic. Ele acredita que pode, eventualmente, retornar a movimentos de 50 pontos-base, sempre que julgar necessário adequar o nível dos juros.
Fonte: www.moneytimes.com.br