Impacto Político e Econômico das Medidas Americanas
O clima político em relação às medidas adotadas pelos Estados Unidos contra o Brasil nesta semana foi amplamente debatido, embora o resultado econômico tangible tenha sido, em grande parte, limitado no curto prazo. Essa é a avaliação de Tsai Chi-Yu, financista e CEO da ST Invest, que concedeu entrevista ao programa Real Time na última sexta-feira, dia 5.
Exceções às Sobretaxas
Conforme Tsai, produtos como carne, soja, terras raras e a maioria das principais commodities brasileiras exportadas para os Estados Unidos foram incluídos em uma lista de exceções, ficando assim isentos das sobretaxas anunciadas pelo governo de Donald Trump.
“Apesar do anúncio e do intenso debate político, a atenção do público fica mais centrada na possibilidade de intervenção dos Estados Unidos nas próximas eleições no Brasil, em vez de nas consequências econômicas diretas”, destacou Tsai. “Os principais produtos brasileiros foram isentos de sobretaxas.”
Múltiplas Medidas e Oportunidade de Reação
O mercado brasileiro enfrentou uma avalanche de decisões ao longo da semana. A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas, as novas tarifas do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que mencionaram diretamente o sistema de pagamentos Pix, além das tarifas adicionais relacionadas a trabalho forçado, que impactam quase 60 países, foram apresentadas de maneira sequencial, não fornecendo tempo suficiente para que investidores e empresas processassem cada uma das mudanças antes da seguinte.
“O mercado não conseguiu reagir a uma dessas medidas antes que a próxima surgisse”, afirmou Tsai. Ele acredita que tanto o mercado brasileiro como o global estão se ajustando a uma crescente imprevisibilidade proveniente de Washington, algo que o financista considera uma característica inerente ao atual governo americano.
O Pix em Foco no Cenário Internacional
Um dos pontos de preocupação de médio e longo prazo que Tsai salienta é a menção explícita ao Pix no relatório do USTR. O sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central do Brasil é visto como um competidor das tecnologias de pagamento norte-americanas, o que pode gerar futuras tensões. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) já emitiu uma nota defendendo a tecnologia.
No entanto, no curto prazo, Tsai acredita que o impacto será limitado. A discussão sobre o Pix concentra-se mais em um posicionamento geopolítico do que em repercussões imediatas para o sistema financeiro brasileiro.
Desafios de Compliance nas Instituições Financeiras
Uma preocupação que Tsai considera grave e concreta envolve os departamentos de compliance das instituições financeiras brasileiras. Com a definição do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos, bancos e gestoras operam agora sob a vigilância potencial da CIA, enfrentando dificuldades em rastrear se os recursos sob sua gestão estão relacionados a entidades ligadas ao crime organizado.
“O dinheiro que provém do PCC ou do Comando Vermelho não é facilmente identificável. Ele é lavado, passa por uma rede de instituições até chegar a uma nova fonte”, explicou o financista. “Como é possível rastrear essa movimentação de maneira eficiente?”
Respostas Práticas do Mercado
Tsai menciona que, como resposta prática a essa nova realidade, o mercado já está adotando uma postura mais conservadora. Nos próximos meses e até anos, os times de compliance das instituições financeiras brasileiras provavelmente tornarão suas decisões mais restritivas, o que, por sua vez, pode afetar a eficiência operacional do setor, enquanto as diretrizes não ficam claras.
“Se uma pessoa é o Chief Compliance Officer e assume a responsabilidade pela empresa, ela atuará de forma mais cautelosa. Não há como evitar isso”, concluiu o executivo.
Fonte: timesbrasil.com.br
