Desafios no Inverno Ucraniano
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, chegou aos Estados Unidos para conversas com o presidente Donald Trump em Washington, D.C., no dia 28 de julho de 2026. Autoridades ucranianas, executivos de empresas de drones e especialistas em segurança nacional estão se preparando para mais um inverno extremamente difícil, temendo que um ataque russo à infraestrutura de energia possa representar o maior desafio da guerra até agora.
Preparações para a Temporada de Inverno
Desde abril, Zelenskyy tem enfatizado a importância de garantir que as instalações de energia e infraestrutura do país estejam totalmente operacionais e protegidas de forma confiável para a próxima temporada de aquecimento. No mês passado, durante o auge do verão ucraniano, Zelenskyy confirmou Sergii Koretskyi como o novo primeiro-ministro da Ucrânia, informando que o ex-CEO da estatal Naftogaz ajudaria a proteger vidas “e garantir que passemos pelo inverno”.
Seus comentários surgem em um momento em que as capacidades de drones da Ucrânia foram aprimoradas para aumentar o custo da guerra para a Rússia e testar a determinação do presidente Vladimir Putin após quatro anos e meio de conflito. As forças russas intensificaram o número de ataques com mísseis em cidades ucranianas nas últimas semanas, provavelmente como parte de uma estratégia para explorar a escassez de interceptores de mísseis balísticos em Kyiv.
Iryna Terekh, CEO da fabricante de drones ucraniana Fire Point, indicou que Kyiv precisa ter uma visão realista sobre a ameaça que enfrentará nos meses seguintes, especialmente em virtude da grave escassez de sistemas de defesa aérea no país. “O inverno está chegando, e o último inverno foi muito difícil para a Ucrânia e para as grandes cidades de modo geral. Este será igualmente desafiador — e provavelmente até mais difícil”, afirmou Terekh durante uma videochamada com a CNBC.
Dependência dos Sistemas Patriota
A Ucrânia continua a depender fortemente do sistema Patriot PAC-3 americano para interceptar mísseis balísticos russos, embora empresas locais como a Fire Point estejam correndo para adquirir sua própria tecnologia antimísseis. “Estamos tentando condensar um programa que geralmente leva de 20 a 30 anos para ser desenvolvido em poucos anos, e isso não é algo que possa ser feito em apenas três meses antes do inverno”, explicou Terekh.
Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mostrou-se mais disposto a apoiar a Ucrânia, mas lançou nova dúvida sobre se Washington concordaria em atender a uma das demandas mais urgentes de Kyiv. Em uma entrevista por telefone ao Financial Times, no dia 30 de julho, Trump declarou que ainda não havia decidido se permitiria que a Ucrânia produzisse mísseis interceptores de superfície para ar, do tipo Patriot.
Prioridades em Defesa Aérea
Zelenskyy, ao citar o suposto uso de um míssil norte-coreano pela Rússia em um ataque mortal na aldeia de Radushne, destacou que os mísseis de defesa aérea, incluindo os Patriots, permanecem uma prioridade fundamental para o país. “Espero que todos os nossos parceiros – especialmente nossos parceiros americanos, assim como nossos amigos na Europa – sintam que vidas humanas reais dependem de sua ajuda”, disse Zelenskyy em um post nas redes sociais no dia 30 de julho.
Reestruturação Governamental e Preparação para o Inverno
À medida que se aproxima o novo período de inverno, a Ucrânia está intensificando a defesa de sua infraestrutura de energia e acumulando reservas para garantir suprimentos adequados de calor e eletricidade. O país também está buscando assegurar financiamento adicional de seus parceiros europeus, especialmente do pacote de apoio financeiro da União Europeia de 90 bilhões de euros (cerca de 103,7 bilhões de dólares), enquanto tenta estabelecer um pacote de ajuda para o inverno.
Serhii Kuzan, presidente do think tank Centro Ucraniano de Segurança e Cooperação, com sede em Kyiv, afirmou que algumas das mudanças de pessoal no último remanejamento do governo de Zelenskyy parecem estar relacionadas à necessidade de preparação para um inverno severo. “De fato, o governo foi reformado e revitalizado para redefinir processos institucionais e melhorar a coordenação entre diferentes departamentos”, declarou Kuzan em email à CNBC.
Além disso, ele destacou que o principal objetivo do novo Gabinete é garantir que a infraestrutura de energia e segurança esteja totalmente preparada para as baixas temperaturas.
Nem todos estão convencidos de que a quarta reestruturação do governo de Zelenskyy desde a invasão em grande escala da Rússia está diretamente ligada às preparações para o inverno, embora Kuzan tenha apontado que o presidente ucraniano enfatizou desde maio que as mudanças no pessoal seriam necessárias, a menos que medidas de planejamento fossem aceleradas e implementadas de forma mais ágil.
Perspectivas para o Conflito
É indiscutível que Putin tentará explorar mais uma vez o inverno na esperança de finalmente derrotar a Ucrânia ao atingir a capacidade elétrica e de aquecimento do país, segundo Kurt Volker, ex-embaixador dos EUA na OTAN. Contudo, Volker, que é membro do conselho consultivo da DTEK, a maior empresa privada de energia da Ucrânia, afirmou que Kyiv está em uma posição melhor para lidar com ataques com mísseis balísticos russos do que estava no inverno anterior.
“Putin está em um caminho de derrota a longo prazo. Ele não consegue acompanhar as perdas no campo de batalha. A Ucrânia está eliminando a capacidade de refino e exportação de petróleo, o que está comprometendo o orçamento do Kremlin”, revelou Volker em email à CNBC. “Putin lutará o máximo que puder sem arriscar o estado russo, mas sua capacidade de continuar assim está se tornando limitada. Acredito que ele continuará durante o inverno – acreditando que isso pode favorecer a Rússia – mas, na primavera, é provável que Putin enfrente limites severos em sua guerra de agressão e necessite aceitar um cessar-fogo”, acrescentou.
Analistas têm apontado o recente esforço da Ucrânia em atacar centros logísticos-chave, como a gigante de varejo Wildberries, como uma estratégia para elevar o custo da guerra para as empresas russas, com a esperança de que isso force Putin a buscar negociações. Terekh, CEO da Fire Point, destacou que ainda é evidente que a Ucrânia depende do apoio de seus aliados ocidentais para resistir a mais uma esperada ofensiva de inverno em sua infraestrutura energética.
“Percebemos que o mundo tende a ajudar os vencedores e não por compaixão, visto que essa emoção dura pouco tempo e alguém precisa perceber se a aposta vale a pena”, analisou Terekh. “Por mais cínico que isso possa soar, é assim que eu vejo como ucraniana. De fato, já não somos mais a vítima, psicologicamente falando, mas ainda precisamos de apoio e não conseguimos lutar sozinhos”, completou.
Fonte: www.cnbc.com