Xi e Putin reafirmam união, mas negociação do gasoduto escapa a Moscovo novamente

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, deixou Pequim na quarta-feira com declarações de amizade duradoura com a China e um conjunto de acordos bilaterais. Contudo, não houve a realização do esperado avanço em relação ao oleoduto de energia, o que sinaliza uma mudança na dinâmica da parceria que favorece cada vez mais Pequim.

Pouco progresso no acordo de gás

Os dois líderes não conseguiram alcançar um avanço no projeto do oleoduto Power of Siberia 2, que Moscou havia indicado que seria “discutido em detalhes”. Isso ocorre em um contexto onde as exportações de gás da Rússia para a Europa diminuíram significativamente após a invasão da Ucrânia em 2022.

Após a cúpula, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que Pequim e Moscou chegaram a um entendimento sobre os principais parâmetros do empreendimento. No entanto, “alguns detalhes ainda precisam ser ajustados”, e não há um cronograma claro para o projeto, conforme traduzido de um comunicado da agência de notícias RIA Novosti em russo.

Embora o presidente chinês, Xi Jinping, tenha mencionado que a cooperação em energia deveria ser a “base” nas relações entre China e Rússia, ele não fez referências ao oleoduto mencionado.

“Isso representa uma grande decepção para a Rússia e para Putin, que insinuou antes da visita que um avanço estava em processo”, comentou Lyle Morris, pesquisador sênior em segurança nacional e política externa da China no Asia Society Policy Institute.

Pequim pode estar “jogando duro em um momento em que a Rússia perdeu parte de sua influência com a União Europeia, que cortou determinados fluxos de gás de Moscou”, afirmou Morris. “Não há como não reconhecer: Putin ficou envergonhado pelo fracasso em concordar sobre o oleoduto.”

Moscou vê o projeto de gás natural como crucial para redirecionar suas exportações de gás da Europa para a China, enquanto Pequim está cautelosa em não se tornar excessivamente dependente de um único fornecedor de gás. A Rússia tem sido um dos principais fornecedores de energia da China e aumentou suas remessas de petróleo para Pequim após severas interrupções nos fluxos pelo Estreito de Ormuz.

As partes assinaram um memorando legalmente vinculativo em setembro de 2025 para avançar na construção do oleoduto Power of Siberia 2, mas as negociações entraram em impasse devido a divergências sobre preços, termos de financiamento e cronogramas de entrega.

O oleoduto, que enfrenta longos atrasos, está projetado para transportar até 50 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano da Rússia para a China via Mongólia, complementando o sistema existente Power of Siberia 1, que fornece aproximadamente 38 bilhões de metros cúbicos de gás à China anualmente.

Laços ‘inflexíveis’ e acordos

Apesar da falha no acordo de gás, Pequim e Moscou assinaram um amplo pacote de mais de 40 acordos nas áreas de comércio, educação, tecnologia e segurança nuclear, entre outros, demonstrando o impulso nas relações bilaterais de longa data.

Os líderes das duas nações celebraram seus laços “inflexíveis” e se comprometeram a aprofundar a “boa vizinhança e a cooperação amigável”, com Xi elogiando que as relações bilaterais estão em “seu mais alto nível na história”.

A China é o maior parceiro comercial da Rússia, embora Moscou represente apenas cerca de 4% do comércio total de Pequim, o que tende a desequilibrar a relação em favor da China.

As duas nações também concordaram em aprofundar a confiança e a cooperação militar, incluindo a ampliação de exercícios conjuntos, patrulhas aéreas e patrulhas marítimas.

Sobre Taiwan, Moscou reafirmou seu apoio ao “princípio de Uma Só China”, que considera a ilha parte do território chinês, e se opôs a qualquer forma de independência para Taiwan. Em relação à Ucrânia, a China afirmou que continua a favorecer uma solução diplomática para o conflito, ao mesmo tempo em que apoia resolutamente a soberania e a integridade territorial da Rússia.

Em uma crítica velada a Washington, os dois lados condenaram ataques militares a países terceiros, o assassinato de líderes de estados soberanos e tentativas de desestabilizar os ambientes políticos internos como sérias violações do direito internacional.

Essa “interferência externa destrutiva” constitui o principal motor da instabilidade em toda a Eurásia, de acordo com a declaração conjunta.

Um ato delicado

A visita de Putin ocorreu logo após a visita do presidente dos EUA, Donald Trump, com Pequim oferecendo uma recepção quase idêntica ao líder russo: um tapete vermelho na pista de pouso, linhas de crianças acenando com bandeiras e segurando flores.

Xi deu as boas-vindas a ambos os líderes em uma cerimônia repleta de pompa e ritual fora do Grande Salão do Povo, no centro de Pequim, com uma salva de 21 tiros ecoando pela Praça da Paz Celestial. Enquanto Trump chegava acompanhado de uma dúzia de executivos de negócios, incluindo CEOs da Apple, Tesla e Nvidia, a comitiva de Putin era composta em sua maioria por vice-primeiros-ministros, ministros e líderes de empresas estatais de petróleo e gás.

“Havia uma postura muito delicada e sutil para garantir que houvesse uma equivalência grosseira na relação da China com esses dois líderes”, disse Evan Medeiros, titular da cátedra Penner em Estudos Asiáticos na Universidade de Georgetown, durante a entrevista ao programa “The China Connection” da CNBC.

Para Xi, as visitas consecutivas sublinharam sua crescente centralidade em eventos globais, segundo Medeiros. “Xi Jinping está claramente tentando posicionar a China como a potência externa indispensável na política internacional”, afirmou, referindo-se a uma série de líderes que visitaram a China nos últimos meses, vindos de países europeus, do Oriente Médio e da África.

“Esta é realmente a proposta da China para afirmar que é uma potência global de liderança, se não a potência de liderança no mundo”, observou Medeiros.

Em comparação com Trump, que estava realizando apenas sua segunda viagem à China, Putin já esteve no país mais de 20 vezes ao longo de seus mais de 25 anos no poder.

Fonte: www.cnbc.com

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