Um circuito financeiro que tem início nos depósitos realizados por apostadores e passa por instituições de pagamento, empresas tanto brasileiras quanto estrangeiras, operações de câmbio, ativos digitais e contas no exterior está no centro da Operação Arena, ação desencadeada nesta quinta-feira (13) pela Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público Federal.
A investigação tem como foco a apuração de suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal, relacionadas à exploração de apostas de quota fixa e atividades de jogos de azar. Dentre os alvos das buscas, encontra-se o advogado Nelson Wilians, bem como empresas associadas à PixBet.
De acordo com a Receita Federal, as investigações revelaram movimentações financeiras suspeitas que ultrapassam R$ 2 bilhões entre os anos de 2022 e 2025. A Justiça também autorizou o sequestro de bens e valores que podem totalizar até R$ 1,1 bilhão, além do cumprimento de 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados.
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A investigação apontou para a existência de uma estrutura societária e financeira operando tanto no Brasil quanto no exterior. Segundo informações da Receita, essa estrutura teria sido utilizada para conferir aparência de legalidade às operações, criando a ilusão de que as atividades eram geridas fora do Brasil, ao passo que, na prática, a administração, operação e tomada de decisões ocorreriam no território brasileiro.
Um fluxograma elaborado pela Receita indica que o dinheiro poderia transitar por vários caminhos antes de chegar aos beneficiários finais das apostas.
1. O dinheiro entrava pelas apostas
O circuito financeiro iniciado pelos apostadores envolvia depósitos e saques realizados através de instituições de pagamento, que, por sua vez, se conectavam ao site das apostas para processar as transações. Após este primeiro passo, os recursos podiam seguir diversas rotas, tanto dentro quanto fora do país.
Uma das rotas traçadas incluía pagamentos a fornecedores nacionais associados à casa de apostas, enquanto outras passavam por operações de câmbio, ativos digitais e empresas ligadas ao próprio grupo investigado.
2. Empresas no exterior justificavam remessas
Dentre as frentes investigativas, uma das mais relevantes refere-se a empresas constituídas fora do Brasil.
Segundo a Receita Federal, essas empresas foram utilizadas para justificar remessas internacionais de valores expressivos, embora as informações coletadas sugiram que não havia atividades econômicas compatíveis com o volume de recursos movimentado.
Relatos veiculados por veículos de comunicação que acompanham o caso indicam que havia uma rota pela qual os recursos provenientes das apostas eram enviados para uma empresa de compensação financeira, localizada em Curaçao, no Caribe. A suspeita é que essa empresa não apresentasse uma operação compatível com os valores recebidos.
3. Stablecoins e contas no exterior entram no circuito
O fluxograma elaborado pela Receita revela também a utilização de ativos digitais durante as transações.
Em uma das rotas investigadas, fornecedores nacionais da operação de apostas adquiriam stablecoins — criptoativos que buscam manter seu valor atrelado a outro ativo — por meio de uma exchange brasileira. Posteriormente, esses ativos eram transferidos para contas sob controle no exterior.
Outra rota passava por uma corretora de câmbio e resultava em contas mantidas fora do Brasil, incluindo aquelas em paraísos fiscais.
A Receita alegou que o grupo envolvido teria estabelecido uma rede com empresas nacionais e internacionais, instituições de pagamento e outras estruturas financeiras, visando dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos financeiros.
4. Empresas do próprio grupo também recebiam recursos
Os recursos financeiros também poderiam ser direcionados a empresas pertencentes ao grupo investigado.
O fluxograma sugere que, a partir dessas empresas, os financiamentos chegavam aos beneficiários finais, incluindo pagamentos de dividendos.
A investigação ainda identificou possíveis indícios de omissão de rendimentos e evidências do uso de estruturas empresariais para minimizar ou até evitar irregularmente a tributação nas atividades realizadas.
5. Dinheiro enviado ao exterior podia voltar ao Brasil
Outra parte do mecanismo investigado trata do retorno de recursos enviados ao exterior.
Conforme as informações divulgadas na investigação realizada nesta quinta-feira, sócios do grupo requisitavam valores com suporte da emissão de notas fiscais pelo que seria uma empresa situada em Curaçao. O dinheiro, então, retornava ao Brasil sob a justificativa de pagamento de serviços, movimentação que os investigadores analisam como parte de um possível esquema de lavagem de dinheiro.
6. Bens de luxo e outorga aparecem no fim do fluxo
Ao final das diferentes rotas, o fluxograma elaborado pela Receita revela os “reais beneficiários da bet”.
A partir desses beneficiários finais, o fluxograma indica dois destinos para os recursos: aquisição de bens de luxo e pagamento da outorga necessária à exploração regular das apostas.
De acordo com informações do jornal Folha de S.Paulo, com base na investigação, parte dos recursos teria retornado aos cofres da casa de apostas, sendo utilizada tanto na compra de bens de luxo quanto no pagamento dessas outorgas de regularização.
Onde Nelson Wilians entra na investigação
Nelson Wilians se destacou como um dos alvos da operação de busca e apreensão realizada na quinta-feira. Investigações anteriores divulgadas pelo Times Brasil indicam que o advogado é suspeito de atuar como operador financeiro do grupo investigado.
É importante ressaltar que já existe uma relação profissional conhecida entre Wilians e a PixBet. Em abril de 2025, o Times Brasil noticiou que o advogado havia representado juridicamente a empresa em um processo contra uma suspensão de suas operações, determinada pelo Ministério da Fazenda. O Times também registrou a atuação de Wilians como advogado de empresas de apostas afetadas pela decisão da Secretaria de Prêmios e Apostas.
A defesa do advogado nega qualquer envolvimento em atividades irregulares. Em uma nota divulgada nesta quinta-feira, o escritório NWADV afirmou que a relação com a PixBet é “estritamente profissional” e decorre dos serviços jurídicos prestados. A defesa sustenta ainda que a atuação do escritório não pode ser equivocamente relacionada às atividades empresariais de seus clientes.
Operação mira estrutura anterior à regulamentação das bets
A Operação Arena investiga uma estrutura que, segundo a Receita Federal, já estava em funcionamento antes mesmo da formalização da regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil. O órgão aponta a existência de indícios de mecanismos que tinham como objetivo ocultar operações, receitas e beneficiários finais.
A Receita Federal integrou a investigação em 2025, contribuindo com análises a respeito de fraudes estruturadas, planejamento tributário abusivo, evasão de divisas e potenciais esquemas de lavagem de dinheiro.
Os elementos apreendidos durante a operação ainda estão sendo analisados e poderão servir de base para novas ações fiscais, além da eventual constituição de créditos tributários e do compartilhamento de informações com outros órgãos competentes.
Fonte: timesbrasil.com.br

