Consultas do Governo Brasileiro
O início das consultas do governo brasileiro sobre a possível aplicação da Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos pode ser entendido como uma ferramenta de pressão que visa acelerar uma negociação. Entretanto, uma retaliação mais agressiva poderia elevar o risco de uma escalada tarifária e resultar em perdas para os exportadores brasileiros. Essa análise é de Igor Lucena, economista e doutor em Relações Internacionais, que concedeu uma entrevista ao Real Time, do Times Brasil, licenciado exclusivamente pela CNBC.
Resposta às Tarifas Americanas
Conforme Lucena, o Brasil tem a opção de responder às tarifas impostas pelos Estados Unidos com medidas que abrangem produtos semelhantes ou setores que são considerados sensíveis para os americanos. Contudo, a eficácia dessa resposta dependerá da intensidade de uma eventual retaliação brasileira e da reação que terá por parte de Washington.
“Se isso for colocado como uma espécie de pressão para o governo norte-americano vir a negociar de uma maneira mais rápida, eu acho que isso é válido”, observou Lucena.
O economista salientou que medidas mais rigorosas poderiam levar os Estados Unidos a aumentarem as tarifas sobre os produtos brasileiros ou a instaurarem novas barreiras comerciais entre os dois países.
Dose da Resposta será Decisiva
Lucena enfatiza que, neste momento, o principal fator de incerteza é a calibragem de uma eventual retaliação brasileira. Ele afirmou: “O efeito que nós vamos ter que esperar agora é a dose: que tipo de retaliação, como vai ser e quando vai ser.”
Segundo a avaliação dele, uma escalada nas tarifas poderia resultar em uma redução ainda maior das exportações brasileiras para o mercado americano, afetando de maneira significativa empresas que dependem deste fluxo comercial.
Incerteza para Empresas
Um dos principais riscos enfrentados pelas empresas, conforme Lucena, é a dificuldade em prever qual tarifa estará em vigor no momento em que um produto chegar ao seu destino final. Mercadorias embarcadas atualmente podem levar meses para chegar aos Estados Unidos e, durante esse intervalo, podem estar sujeitas a uma alíquota diferente daquela considerada no fechamento da operação.
Essa incerteza torna complicado o planejamento tanto para os exportadores brasileiros quanto para os importadores americanos. Na visão do economista, isso pode levar os importadores americanos a buscarem fornecedores fora do Brasil. Ele ressaltou: “Isso pode fazer com que muitos importadores americanos comecem a procurar outros fornecedores que não sejam brasileiros.”
Impacto nos Custos
Lucena também advertiu que uma eventual taxação de produtos americanos pelo Brasil tem o potencial de aumentar os custos para as empresas e consumidores no país. Segundo ele, essa ação poderia gerar uma pressão inflacionária, dificultando uma eventual trajetória de redução das taxas de juros pelo Banco Central.
O impacto dessa medida dependeria, no entanto, da amplitude das ações adotadas e dos produtos que seriam afetados.
Relação Bilateral em Tensão
No âmbito político, Lucena considera que a disputa comercial está situada em um contexto de maior tensão nas relações entre Brasil e Estados Unidos. “As relações entre Brasil e os Estados Unidos descem agora para um patamar ainda mais baixo do que já estava”, afirmou.
Para o economista, o calendário eleitoral brasileiro também influencia a postura do governo federal. Ele acredita que uma posição mais firme diante de Washington poderia ser utilizada internamente como uma demonstração de defesa dos interesses nacionais.
Lucena diferencia, contudo, a frente comercial das questões diplomáticas que envolvem os embaixadores dos dois países. Segundo ele, essas esferas são distintas, e um avanço na diplomacia não necessariamente resultará em uma solução para o impasse tarifário.
Preservação de Interesses Brasil-EUA
Lucena enfatiza que o Brasil precisa compreender quais temas são prioritários para Washington e usar esse entendimento como base para formular propostas que também salvaguardem seus próprios interesses. Ele menciona setores estratégicos, como os de terras raras, onde o Brasil poderia negociar condições que fossem consideradas atrativas pelos Estados Unidos em troca de contrapartidas que fossem mais vantajosas para o país.
Na visão do economista, isso não implica na abertura total do mercado brasileiro, mas na identificação de pontos onde os interesses de ambas as nações possam coincidir, diminuindo assim o risco de uma escalada comercial.
Fonte: timesbrasil.com.br
