Importações da China de Soja dos EUA
Contexto das Importações
As importações de soja dos Estados Unidos pela China não demonstram sinais significativos de recuperação, já que os estoques de Beijing aumentaram para os níveis mais altos em anos, o que contraria as afirmações do presidente dos EUA, Donald Trump, de que uma recente trégua comercial impulsionaria novas compras substanciais por parte da China. Como o maior consumidor de soja do mundo, a China acumulou um excesso de suprimentos após meses de estoques agressivos, o que, segundo analistas, permitiu ao governo chinês postergar o cumprimento do acordo de compras, mesmo com a promoção de relações melhoradas entre as duas nações.
Dados de Compras
Um relatório do Departamento de Agricultura dos EUA, divulgado na última sexta-feira, indicou que, desde a cúpula entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping na Coreia do Sul, ocorreram apenas duas compras de soja americana por parte da China, totalizando 332.000 toneladas métricas entre 2 de outubro e 12 de novembro. Esse volume está bem aquém da meta de 12 milhões de toneladas que a Casa Branca afirmou que a China havia concordado em comprar até o final do ano. Michael Sobolik, pesquisador sênior no Hudson Institute, comentou que as promessas feitas por líderes chineses a presidentes americanos historicamente têm um curto prazo de validade e que as promessas de Xi sobre as compras de soja provavelmente seguirão o mesmo padrão.
Estratégias Comerciais e Estoques
Segundo Sobolik, a China provavelmente adotará uma abordagem cautelosa em suas compras de soja, utilizando essa estratégia como um meio de prolongar as negociações com a administração Trump, de forma a congelar ações competitivas. A quantidade de importações de soja por parte da China deverá variar de acordo com a temperatura geopolítica.
Pressões de Tensão Comercial
As tensões comerciais entre os EUA e a China se tornaram um ponto de discussão significativo, especialmente com a China aplicando pressão sobre os agricultores americanos no início da nova temporada de colheita, quando boicotou a soja dos EUA. No mês passado, a Casa Branca afirmou que, sob um abrangente acordo bilateral, a China concordou em comprar 25 milhões de toneladas anualmente nos próximos três anos, embora isso represente uma queda em comparação às 26,8 milhões de toneladas adquiridas no ano anterior. No entanto, a China tem se mantido silente em relação a esse compromisso, e analistas que monitoram os fluxos de importação chineses indicam que a demanda imediata do país continua fraca.
Estoques e Produção na China
Os processadores chineses de soja, conhecidos como "crushers", e os criadores de suínos, além de produtores de ração, acumularam estoques que superam os níveis típicos, enquanto as reservas do Estado proporcionam uma margem adicional. Os estoques em portos chineses atingiram um recorde de 10,3 milhões de toneladas em 7 de novembro, um aumento de 3,6 milhões de toneladas em relação ao ano anterior, de acordo com dados da Sublime China Information, citados pela Reuters. Os "crushers" detinham 7,5 milhões de toneladas, o que também representa o maior volume desde 2017. Esse acúmulo ocorreu após cinco meses consecutivos de chegadas recordes de soja até setembro. As importações permaneceram elevadas em outubro, com um aumento de 17,2%, totalizando 9,48 milhões de toneladas no mês passado, de acordo com os dados oficiais da alfândega chinesa. As importações totais nos primeiros dez meses do ano somaram 95,7 milhões de toneladas, o que representa um aumento de 6,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Participação do Brasil nas Importações
O Brasil tem sido responsável por quase 80% das importações de soja pela China, de acordo com estimativas do grupo de exportadores de grãos Anec. Entre abril e setembro, as importações do Brasil aumentaram 13% em comparação ao ano anterior, conforme relatado por Chris Turner, chefe global de mercados do ING. Segundo Turner, "a compra de alguns carregamentos de soja dos EUA pela China não representará muito para o Brasil", uma vez que os suprimentos da América do Sul costumam ser mais baratos do que os envios de soja dos EUA, mesmo após a China reduzir tarifas retaliatórias. No início deste mês, a China novamente aumentou suas compras de soja do Brasil, aproveitando a redução de preços antes da diminuição das tarifas sobre as importações norte-americanas. A Reuters informou que compradores chineses reservaram 10 carregamentos para dezembro e outros 10 para o período de março a julho.
Sinais de Compras da China
Os participantes da indústria afirmam não ver evidências de um grande programa de compras por parte dos importadores estatais de grãos da China, como a COFCO e a Sinograin, que provavelmente fariam a maior parte das compras prometidas. Arlan Suderman, economista-chefe de commodities da StoneX, mencionou em uma nota em 11 de novembro: "Não há muita indicação de que esses compradores estatais estejam envolvidos em um programa para adquirir 12 milhões de toneladas até o final deste ano, quanto mais 25 milhões de toneladas adicionais para o calendário de 2026." Até o momento, não há evidências disso, enquanto o tempo continua a correr.
Sinais Mistos de Beijing
As mensagens emitidas por Beijing têm sido ambíguas. O país restaurou as licenças de importação para três exportadores de soja dos EUA no início deste mês, incluindo a CHS Inc., uma empresa baseada em Minnesota. Na maior feira de importação de produtos agrícolas do país, realizada na semana passada, Chen Chao, diretor do Ministério do Comércio da China, descreveu o comércio agrícola como uma pedra angular da relação econômica entre os EUA e a China. Ele afirmou que "com um vasto potencial pela frente, uma cooperação agrícola mais profunda contribuirá positivamente para a segurança alimentar global e a prosperidade compartilhada", conforme reportado pela mídia estatal. Em outro gesto diplomático, o principal negociador comercial da China, Li Chenggang, se reuniu com uma delegação de grupos agrícolas americanos, durante a qual se comprometeu a criar um ambiente favorável para a cooperação no comércio agrícola.
Compras Irregulares
No entanto, as compras continuam a ser irregulares. Recentemente, a Bloomberg noticiou que as compras de soja dos EUA pela China parecem ter estagnado novamente. A China estava ausente da colheita de outono dos EUA este ano, em meio a uma fricção comercial prolongada com Washington. Contudo, a Reuters informou no final de outubro que a COFCO havia encomendado três carregamentos de soja dos EUA antes da reunião entre Trump e Xi. A desaceleração nas compras gerou dificuldades financeiras para os agricultores americanos, uma vez que a China costumava ser seu principal mercado de exportação, tendo adquirido US$ 12,6 bilhões da leguminosa em 2024. Trump criticou a pausa nas compras como um ato "economicamente hostil".
Soja como Ferramenta de Negociação
A China provavelmente variará a quantidade de importações de soja de acordo com a temperatura geopolítica, aumentando quando as relações estão melhores e diminuindo quando estão piores. Sabrin Chowdbury, chefe de Commodities da BMI, observou que as importações da soja americana continuarão a ser "uma ferramenta de barganha" nas negociações comerciais da China com Washington. O uso da soja como alavanca no embate comercial mais amplo — pressionando agricultores americanos que formam um bloco eleitoral chave para Trump e o Partido Republicano — não é uma novidade. Durante o primeiro mandato de Trump, a China reduziu as importações da leguminosa como retaliação às tarifas e controles de exportação norte-americanos, uma pressão que levou a administração a negociar um acordo para que Beijing comprasse US$ 200 bilhões em produtos agrícolas dos EUA, incluindo soja.
Expectativas Futuras
O Brasil é projetado para ter mais uma colheita recorde no próximo ano, o que pode pressionar ainda mais os preços para os agricultores dos Estados Unidos. Contudo, uma dependência maior da América do Sul traz seus próprios riscos para a China, incluindo potencialmente custos mais altos, maiores distâncias de transporte e maior exposição à volatilidade climática no Brasil e na Argentina. Por ora, a China parece concentrar seus esforços em manter os custos baixos e as suprimentos estáveis. Para os agricultores americanos que esperavam que a recente trégua comercial rapidamente reabrisse o mercado chinês, a grande quantidade de soja estocada nos portos chineses apresenta uma realidade diferente.
Fonte: www.cnbc.com
