Pressão dos EUA sobre Cuba
A campanha de pressão dos Estados Unidos contra Cuba parece ter entrado em uma nova fase, levantando questões significativas sobre as intenções da administração Trump em relação à ilha caribenha, que é governada por um regime comunista.
Indiciamento de Raul Castro
No dia 20 de maio, a Justiça dos EUA deslacrou um indiciamento contra o ex-presidente cubano Raul Castro, acusando-o de assassinato em relação ao ataque militar de Cuba que derrubou dois aviões em 1996. Raul Castro, que atualmente tem 94 anos, era o ministro da Defesa na época do incidente.
Esse movimento, realizado em uma data simbolicamente importante que marca o nascimento oficial da República de Cuba, sinalizou uma das mais significativas escaladas nas tensões entre Washington e Havana. O diretor do FBI, Kash Patel, caracterizou o indiciamento de Castro e de cinco outros envolvidos como “um grande passo em direção à responsabilização”.
Esta ação integra um esforço mais amplo do presidente Donald Trump para promover a mudança de regime em Cuba, estratégia que inclui um endurecimento recente das sanções econômicas e um empurrão para implementar um bloqueio de petróleo na ilha, um processo que teve início em janeiro. Isso resultou em uma crise econômica mais aguda e deixou Cuba enfrentando seu maior desafio desde o colapso da União Soviética. O Ministro de Energia cubano, Vicente de la O Levy, afirmou na semana passada que a ilha havia ficado sem óleo e diesel, descrevendo a situação do país como “extremamente tensa”.
A crise humanitária em Cuba continua sendo um fator imprevisível que pode obrigar ambos os lados a improvisar respostas.
Robert Munks
Chefe de pesquisa sobre as Américas na Verisk Maplecroft
Intervenção Militar e Drones
Nas últimas semanas, alguns oficiais cubanos emitiram alertas sobre a possibilidade de intervenção militar dos EUA. Essa preocupação surge em meio a relatos diversos de que Cuba estaria supostamente acumulando mais de 300 drones militares de origem russa e iraniana, com potencial para serem utilizados contra alvos dos Estados Unidos. Além disso, a administração Trump tem conduzido voos de coleta de inteligência ao largo da costa de Cuba, seguindo um padrão que foi observado antes de operações militares dos EUA na Venezuela e no Irã.
Antoni Kapcia, professor de história da América Latina na Universidade de Nottingham, no Reino Unido, expressou ceticismo quanto à possibilidade de ação militar direta por parte dos EUA. Entretanto, ele observou que o estado cubano sempre leva a sério a ameaça militar e se prepara para tal possibilidade, como comentou em um e-mail para a CNBC.
“O Pentágono certamente sempre manteve a visão de que uma ação militar resultaria em soldados norte-americanos em caixões em uma escala inaceitável. Parece que é por isso que os EUA instalam uma abordagem de vai e vem em relação a Cuba — negociações ‘por vias paralelas’ em um momento e ameaças de ação imediata no seguinte”, disse Kapcia.
Ele acrescentou: “Até agora, Trump falou abertamente sobre continuar usando medidas econômicas para estrangular o sistema, e certamente é isso que ele está fazendo — é mais barato do que a guerra e está tornando a vida ainda mais difícil para os cubanos comuns”.
Próximos passos para Cuba
No dia 20 de maio, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel desqualificou o indiciamento de Castro, afirmando, por meio das redes sociais, que se trata de “uma manobra política, desprovida de qualquer fundamento jurídico, cujo único objetivo é inflar o dossiê fabricado que eles usam para justificar a loucura de uma agressão militar contra #Cuba”.
Mais cedo na semana, Díaz-Canel já havia mencionado que as ameaças de agressão militar dos EUA contra Havana eram bem conhecidas e que, caso se concretizassem, “provocariam um banho de sangue com consequências incalculáveis”. Trump, por sua vez, já havia falado sobre a possibilidade de uma “assunção amistosa” em Cuba, afirmando que a Casa Branca poderia focar em Havana após a guerra no Irã. O presidente dos EUA também indicou que teria a liberdade de fazer o que desejasse em relação ao país, acrescentando que acredita que terá a “honra” de “tomar Cuba”.
Visão dos Especialistas
Robert Munks, chefe de pesquisa sobre as Américas na empresa de inteligência de risco Verisk Maplecroft, observou que, embora as intenções exatas da administração Trump permaneçam obscuras, a postura atual de Washington sugere menos uma movimentação direta iminente do que a intenção de deixar a pressão provocar mudanças. Segundo Munks, a maior preocupação de Cuba não é uma intervenção estrangeira, mas sim a capacidade do estado de manter os serviços básicos funcionando suficientes para manter o controle.
“Embora seja provável que as forças de segurança consigam conter a agitação no curto prazo, há potencial para uma instabilidade severa à medida que novas quedas de energia provoquem ainda maiores escassezes de alimentos e água”, acrescentou Munks. “A crescente crise humanitária em Cuba continua sendo um fator imprevisível que pode forçar ambos os lados a improvisar respostas. É espera que haja mais ajuda de países da região, como México e Uruguai, mas o bloqueio dos EUA continuará a ditar a experiência cotidiana dos cubanos comuns.”
Alexander B. Gray, membro não residente sênior do Centro Scowcroft para Estratégia e Segurança do Atlantic Council, declarou que o objetivo da administração Trump em relação a Cuba é claro. “O objetivo é deslegitimar o regime Castro e criar as condições para uma mudança interna no médio prazo que esteja mais alinhada com os interesses dos EUA”, afirmou Gray em uma nota divulgada na quarta-feira. “Esse interesse dos EUA é um regime em Havana que esteja alinhado com as prioridades de segurança dos EUA e que se oponha à interferência extra-hemisférica de rivais como China e Rússia”, complementou.
Fonte: www.cnbc.com

