Cancelamento de Shows de Artistas Japoneses em Pequim
Crescente Tensão Bilateral
Pequim — O DDC, uma casa de shows na capital chinesa, foi um dos últimos locais a cancelar uma apresentação de um artista japonês marcada para o dia 20 de novembro de 2025, em meio a crescentes tensões bilaterais entre China e Japão.
Cancelamento Abrupt
Horas antes da apresentação do quinteto de jazz japonês The Blend, um agente à paisana entrou no clube DDC durante a passagem de som. O proprietário do local se aproximou do agente Christian Petersen-Clausen e afirmou: “A polícia me disse que o show desta noite está cancelado. Sem discussão.” Petersen-Clausen, que organizou mais de 70 shows na China no último ano, comentou: “Tudo que é japonês está cancelado agora.” Ele havia passado seis meses obtendo a aprovação dos censores chineses para permitir a apresentação do The Blend no país.
Comunicação de Cancelamento
Na tarde de quinta-feira, o DDC divulgou um comunicado informando que o show da noite estava cancelado devido a força maior, e que os portadores de ingressos receberiam reembolso automático nos próximos dias. Além disso, o show da cantora e compositora japonesa Kokia, agendado para quarta-feira à noite em Pequim, também foi cancelado. O anúncio público da casa de shows, datado de quinta-feira, alegou problemas técnicos, mas novamente houve pouca antecedência. Um post nas redes sociais de um fã relatou que aguardou do lado de fora do local por mais de uma hora, muito além do horário previsto para o início do concerto.
Outros Concertos Cancelados
Concertos de outros artistas japoneses na China também foram cancelados ou adiados nesta semana. Essa situação parece ser o impacto mais recente da crescente discórdia entre China e Japão, desencadeada pelos comentários da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, feitos em 7 de novembro, indicando que Tóquio apoiaria Taiwan se este fosse seriamente ameaçado pela ação militar de Pequim. A China reivindica direitos territoriais sobre Taiwan, uma ilha que se governa de forma democrática e que rejeita a alegação chinesa, afirmando que somente seu povo pode decidir seu futuro.
Reações Chinesas
George Chen, sócio da consultoria de políticas empresariais The Asia Group, com sede em Washington, D.C., afirmou: “O ritmo e a escala das reações de Pequim… são verdadeiramente sem precedentes.” Ele acrescentou que o maior risco para as marcas japonesas na China seria um boicote em nível nacional, embora até o momento existam sinais limitados de que os consumidores chineses estejam evitando essas marcas de forma generalizada.
No final da semana passada, dois ministérios chineses começaram a alertar os cidadãos sobre riscos em viajar e estudar no Japão. O Ministério do Comércio da China também ameaçou tomar contramedidas contra o Japão se este “persistisse no caminho errado”, de acordo com uma tradução da CNBC. Turistas chineses do continente têm sido o maior grupo de visitantes estrangeiros no Japão até agora neste ano, e a Nomura estima que as tensões bilaterais possam reduzir o PIB do Japão em 0,29%.
Comunicação de Políticas Limitada
Apesar dos cancelamentos, nenhum ministério publicou oficialmente uma proibição sobre concertos japoneses. A CNBC não conseguiu contatar o ministério da cultura para comentar, uma vez que se encontrava fora do horário comercial em Pequim. Não é apenas a música que pode ser afetada; há relatos de que Pequim poderá banir a importação de todos os frutos do mar japoneses, algo que o ministério do comércio da China não confirmou nem negou. O ministério das Relações Exteriores apenas declarou que “nas circunstâncias atuais, não haverá mercado para produtos aquáticos japoneses, mesmo que eles entrem na China.”
Esses desdobramentos reforçam como as políticas de cima para baixo na China podem ser abruptas e vagas, dificultando o planejamento para as empresas. Petersen-Clausen comentou: “Você não tem previsibilidade porque ninguém anuncia as políticas publicamente.” Ele mencionou que organizou um show japonês em Xangai na quarta-feira sem problemas e que “ninguém nos disse que o show de sábado está definitivamente cancelado.” Entretanto, a retórica da China permanece firme; o ministério das Relações Exteriores reiterou na quinta-feira seu chamado para que Takaichi retratasse suas declarações, advertindo que “se o Japão criar problemas em relação a Taiwan, não ficará impune.” Petersen-Clausen concluiu: “Basicamente, isso significa que não tenho esperanças para sábado.”
Impacto Econômico
O local esperava cerca de 200 participantes apenas na quinta-feira, o que significa que cerca de 20 pessoas na China perderão oportunidades de trabalho relacionadas aos dois shows. Os ingressos para a apresentação de jazz estavam listados a preços que variavam entre 40 e 70 dólares. A indústria cinematográfica também pode ser pressionada. O lançamento local de filmes de animação japoneses, como os da série Crayon Shinchan e “Cells at Work”, foram adiados, segundo a agência estatal de notícias Xinhua, que caracterizou a decisão como “prudente” diante do declínio do interesse chinês em filmes japoneses.
Música como Alvo Inicial
Surpreendentemente, as apresentações musicais internacionais costumam ser as primeiras a serem afetadas por disputas geopolíticas. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia no início de 2022, algumas casas de shows nos EUA e no Reino Unido cancelaram performances ou shows envolvendo artistas considerados apoiadores do presidente russo, Vladimir Putin. A China também restringiu apresentações de grandes artistas de música pop coreana por quase uma década em protesto a um novo sistema de mísseis, embora existam indícios de que esses atos possam retornar em breve.
Para Petersen-Clausen, a incerteza em torno dos concertos na China está prejudicando os negócios. Ele afirmou: “Músicos estrangeiros se recusaram a fazer reservas conosco porque disseram que não sabemos se o evento realmente ocorrerá ou será cancelado.” Ele destacou que a percepção de que a China é às vezes instável está se espalhando e ressalta que isso é um problema para promover intercâmbios entre as pessoas. “Se não obtivermos estabilidade e previsibilidade”, acrescentou, “precisarei revelar um risco muito significativo que é desnecessário para investidores potenciais.”
Incentivos e Prioridades
A turnê “Eras” de Taylor Swift, no valor de 2 bilhões de dólares, não incluiu a China, embora artistas como Mariah Carey e o Black Eyed Peas tenham se apresentado no país este ano. Os formuladores de políticas chineses buscaram incentivar alguns eventos ao vivo como forma de aumentar o consumo e impulsionar a economia como um todo. No entanto, os líderes nacionais também possuem outras prioridades.
James Zimmerman, advogado em Pequim e ex-presidente da Câmara de Comércio Americana na China, afirmou: “Juntamente com os esportes, a música e as artes são as primeiras coisas que os governos ‘redescobrem’ como meio de engajar ou reengajar.” Ele questionou: “O que aconteceu com a diplomacia?” Essas discussões tendem a levar à erosão da confiança, algo que se torna cada vez mais difícil de reconstruir de ambos os lados. Essa dinâmica pode ser observada em muitos relacionamentos bilaterais ao redor do mundo.
Fonte: www.cnbc.com


