Custo de Vida e Planejamento Financeiro
Mariana Garcia, planejadora financeira da Alocc, explica a importância de entender o custo de vida de maneira prática. Segundo ela, isso pode ser feito em uma simples folha de papel, onde o consumidor deve registrar visualmente todas as suas despesas em um único lugar. Nessa página, as despesas básicas, conhecidas como custo fixo, devem ser anotadas, abrangendo itens como aluguel, escola, plano de saúde e outras despesas essenciais.
Os custos variáveis também precisam ser levados em conta. Esses são gastos que podem flutuar, como os relacionados a lazer, alimentação, lanches, transporte e despesas com cartão de crédito. Na busca por votos, setores como habitação e varejo se beneficiam de políticas de estímulo através do crédito, que pode se tornar mais caro devido ao aumento da inadimplência, ampliando as dívidas das famílias brasileiras em 2026.
Aumento do Endividamento Familiar
No ano anterior, houve um aumento superior a 10% no número de pessoas com restrições de crédito, totalizando 73,5 milhões de indivíduos. Isso representa 44% da população adulta, conforme dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). Ao registrar suas despesas, Mariana ressalta que o consumidor pode comparar seus gastos com a renda mensal e, assim, realizar ajustes. Por exemplo, cancelar a matrícula de uma academia que não está sendo frequentada e optar por atividades gratuitas em parques ou na academia do condomínio pode ser um primeiro passo para o controle financeiro. Além disso, serviços de streaming não utilizados podem ser cortados para que as despesas se adequem ao orçamento disponível.
A planejadora financeira afirma que, somente conhecendo o custo de vida, é possível estimar quanto será necessário para manter o mesmo padrão de vida no futuro. Ela observa que muitos brasileiros têm uma abordagem imediatista e não costumam pensar a longo prazo. “Muitas pessoas acreditam que o INSS será suficiente para cobrir seu custo de vida na aposentadoria. Portanto, é essencial considerar planos de aposentadoria privados, que devem ser financiados com recursos próprios,” comenta Mariana.
Profissionais da área financeira reconhecem a dificuldade em cortar gastos, mas argumentam que essa é uma solução necessária. Alternativamente, aumentar a renda é uma abordagem viável. Trabalhos extras, vendas de férias ou a busca por novas oportunidades de renda são algumas das opções sugeridas. Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP, destaca a importância de monetizar hobbies ou investir em qualificações que possam resultar em aumentos salariais. Dependendo exclusivamente de uma única fonte de renda pode ser prejudicial no atual contexto econômico.
O incremento no endividamento das famílias ocorre em um cenário onde a economia tem crescido de forma tímida, cerca de 1% para este ano, conforme a visão consensual de mercado. Ao mesmo tempo, os juros permanecem elevados, com projeções indicando taxas acima de dois dígitos, em torno de 12,5% até o final do ano, de acordo com estimativas do setor financeiro.
Otávio Araújo, consultor sênior da corretora Zero Markets Brasil, alerta que as famílias devem manter a atenção ao controle de gastos. Em caso de alterações econômicas que possam impactar a inflação, o mais provável é que o Banco Central tenha que adotar medidas de contenção.
Um Ano de Feriados e Estímulos ao Consumo
Josias Bento, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, defende que, independentemente das condições financeiras, é crucial que os brasileiros adotem uma postura conservadora em 2026. Segundo ele, será um ano repleto de feriados durante a semana, o que pode resultar em um aumento nos gastos com viagens. Diante disso, ele recomenda que se busque adequar o orçamento à realidade financeira de cada um. Além disso, 2026 também será marcado pela Copa do Mundo, o que poderá resultar em menos dias de trabalho ativo e mais oportunidades de diversão.
Em 2026, dos dez feriados nacionais, excluindo os pontos facultativos, nove ocorrerão em dias úteis, permitindo a criação de feriadões ao serem combinados com os finais de semana. A tabela a seguir apresenta essas datas:
| Data | Feriado | Dia da Semana |
| 01/01/2026 | Confraternização Universal | Quinta-feira |
| 03/04/2026 | Sexta-feira Santa (Paixão de Cristo) | Sexta-feira |
| 21/04/2026 | Tiradentes | Terça-feira |
| 01/05/2026 | Dia do Trabalho | Sexta-feira |
| 07/09/2026 | Independência do Brasil | Segunda-feira |
| 12/10/2026 | Nossa Senhora Aparecida | Segunda-feira |
| 02/11/2026 | Finados | Segunda-feira |
| 15/11/2026 | Proclamação da República | Domingo |
| 20/11/2026 | Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra | Sexta-feira |
| 25/12/2026 | Natal | Sexta-feira |
Frente a tantas oportunidades de gastos, Araújo aconselha que, em caso de descontrole financeiro, as famílias devem priorizar as contas mais altas e aquelas que apresentam os juros mais elevados. Sempre que possível, é recomendável antecipar pagamentos, uma prática que pode trazer benefícios para o orçamento familiar. “Os bancos costumam oferecer condições de negociação, como descontos por pagamentos antecipados,” explica.
Conforme informações do Banco Central, a taxa média anual de crédito para pessoas físicas no Brasil estava em 59,4% em novembro de 2025, último dado disponível, destacando a gravidade da situação do crédito no país.
Estabelecendo uma Reserva de Emergência
A construção de uma reserva de emergência é considerada um passo essencial para equilibrar as contas, segundo Araújo. “Não faz sentido pensar em poupança antes de quitar todas as dívidas, pois o montante gasto com juros sempre superará o que se pode ganhar com uma aplicação,” afirma.
Mariana sugere que a reserva de liquidez ideal deveria ser equivalente a três anos de renda da pessoa. Embora essa quantia possa parecer elevada, ela acredita que o importante é iniciar o processo, começando com um montante menor até alcançar uma reserva de pelo menos seis meses. Para ela, ter uma reserva de três anos é adequado, pois normalmente abrange o período médio de crises, sejam elas de mercado, sanitárias ou pessoais. A perda de emprego, problemas de saúde ou cirurgias imprevistas são situações que ilustram a necessidade de um colchão financeiro.
Por outro lado, outros profissionais sugerem um marco temporal mais curto para emergências. Bento menciona que, para quem está empregado, uma reserva de seis meses é bastante útil, enquanto profissionais autônomos ou prestadores de serviço (PJ) deveriam ter de oito a doze meses guardados.
Com a taxa Selic em níveis elevados, ele recomenda aplicações no Tesouro Selic e fundos de investimento de renda fixa, possivelmente criando um escalonamento dentro desses fundos. “É importante diversificar entre fundos de liquidez diária e outros que respeitem prazo de D+6. Aqueles que se sentirem confortáveis podem optar por fundos de renda fixa que focam em crédito privado, que oferecem maior rentabilidade, embora apresentem mais volatilidade,” orienta.
Manutenção das Contas em Dia
Independentemente do montante que se pretende destinar à reserva de emergência, a prática de revisar regularmente suas finanças e manter um controle rigoroso de gastos é essencial. Além disso, automatizar contas e investimentos, permitindo alguma margem para gastos pessoais imediatos, como sair para tomar uma cerveja com amigos, é um passo importante.
É fundamental estar atento a comportamentos prejudiciais, como as compras por impulso, especialmente durante promoções típicas, como as liquidações de janeiro. Araújo destaca que uma pessoa com problemas financeiros deve evitar ações que possam gerar ainda mais dificuldade, incluindo a remoção de aplicativos de lojas do celular, que podem provocar impulsos de consumo desnecessários.
Outra questão a ser monitorada é a facilidade de acesso a crédito oferecida por plataformas financeiras, que disponibilizam empréstimos com apenas um clique. “Essa facilidade pode comprometer severamente a renda das famílias,” observa Araújo, alertando para os perigos da tentação do crédito fácil. Assim, o controle das finanças deve ser uma prioridade em qualquer contexto econômico.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br


