Entenda o caso Americanas: a 'maior fraude contábil do Brasil', conforme revela a PF - Times Brasil

Entenda o caso Americanas: a ‘maior fraude contábil do Brasil’, conforme revela a PF – Times Brasil

by Fernanda Lima
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Operação Disclosure da Polícia Federal

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, dia 25, a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga a fraude contábil relacionada à empresa Americanas. A ação tem como alvos principais figuras históricas de controle da varejista, incluindo mandados de busca e apreensão contra Beto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, este último sendo filho de Jorge Paulo Lemann e ex-membro do conselho de administração da empresa.

Detalhes da operação

Nesta fase, foram cumpridos nove mandados de busca nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro também decidiu pelo sequestro de bens dos investigados, estabelecendo um limite de R$ 54 bilhões. Este novo valor representa a referência do rombo, que se mostra superior aos R$ 25,3 bilhões inicialmente declarado pela Americanas em 2023.

Como a fraude teve início

A crise na Americanas se tornou evidente em 11 de janeiro de 2023, quando Sérgio Rial, então presidente da varejista, anunciou sua saída do cargo e revelou, em um fato relevante, a existência de inconsistências contábeis que somavam cerca de R$ 20 bilhões nos balanços financeiros da companhia. Dias depois, em 19 de janeiro, a empresa solicitou recuperação judicial, declarando inicialmente R$ 800 milhões em caixa, cifra que posteriormente foi reduzida a R$ 250 milhões após o bloqueio de recebíveis por bancos. A dívida totalizava aproximadamente R$ 43 bilhões, envolvendo 16,3 mil credores.

Posteriormente, a própria companhia descobriu a magnitude da fraude, que apontava para um lucro fictício acumulado de R$ 25,3 bilhões ao longo dos anos. O esquema principal consistia em operações conhecidas como "risco sacado", onde um banco antecipa o pagamento aos fornecedores, tornando-se o credor e cobrando juros.

Para que a Americanas conseguisse expandir suas operações, ela necessitava de um capital de giro cada vez maior, condição que suas operações não eram capazes de suprir. O mecanismo de risco sacado servia como uma válvula de escape, pois alongava os prazos de pagamento com os bancos. No entanto, o problema contábil surgia da decisão da empresa em não registrar esse montante como dívida financeira, mas sim mantê-lo classificado como dívida com fornecedores, o que inflacionava artificialmente a conta no balanço.

A varejista também utilizava contratos de propaganda cooperada, nos quais os fornecedores ofereciam descontos em troca de publicidade, criando a ilusão de uma redução que, na prática, era inexistente. Análises de mercado da época sugeriram que o objetivo não era apenas inflacionar os resultados, mas criar espaço contábil para acomodar o crescimento do risco sacado sem expor a verdadeira extensão da dívida.

Com o aumento das taxas de juros, o financiamento por meio do risco sacado se tornava cada vez mais necessário, o que era crucial para a operação da Americanas e para manter suas linhas de crédito abertas junto a bancos e ao governo.

Investigação atual da Polícia Federal

De acordo com a investigação, os alvos desta fase são pessoas que tinham conhecimento do esquema contábil mantido ao longo dos anos pela Americanas. O modelo que está sendo investigado é o mesmo identificado em 2023, mas a Polícia Federal busca agora determinar quem, além da diretoria, tinha conhecimento do funcionamento da fraude enquanto ela estava em andamento.

Na prática, a varejista ocultava dívida bancária ao disfarçá-la como dívida comercial, utilizando esse artifício à medida que demandava volumes cada vez maiores de financiamento.

Identidade dos alvos da operação

Entre os indivíduos citados na investigação estão Carlos Alberto Sicupira, controlador da companhia, e Paulo Alberto Lemann, ex-conselheiro e filho do fundador Jorge Paulo Lemann. Também são nomes destacados Eduardo Saggioro, outro ex-integrante do conselho, e Sérgio Rial, ex-presidente da empresa.

Posicionamento da Americanas e dos bancos

Em comunicado, a Americanas esclareceu que não foi alvo de mandados de busca na manhã desta quinta-feira e que a Operação Disclosure, realizada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, se refere à fraude revelada em 2023. A empresa reafirmou seu compromisso em colaborar com as investigações e enfatizou ser a maior interessada no esclarecimento dos fatos.

Mudanças na Americanas após a crise

Desde a revelação do rombo contábil em janeiro de 2023, a Americanas reduziu consideravelmente sua estrutura operacional. O quadro de funcionários caiu de 43,1 mil para aproximadamente 24 mil, o que representa uma diminuição de 44%. A quantidade de lojas também foi ajustada, passando de 1.880 para 1.452 unidades, com o fechamento de mais de 400 pontos.

A companhia implementou um aumento de capital de R$ 24 bilhões com o objetivo de cobrir parte do déficit contábil e está se aproximando do término formal de sua recuperação judicial, prevista para 2026, após o cumprimento do plano estabelecido com os credores.

Entretanto, os controladores históricos da empresa, Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, utilizaram uma cláusula do próprio plano de recuperação para converter bônus de subscrição em ações, recuperando em 2024 mais de 50% do capital votante da companhia, mesmo após uma significativa redução de sua participação em 2021.

Questões ainda pendentes

Apesar dos avanços nas operações da empresa, a responsabilização dos antigos controladores não progrediu na mesma medida. Investidores iniciaram uma arbitragem no valor de R$ 12,8 bilhões contra Lemann, Sicupira e Telles, enquanto a própria Americanas moveu um processo contra o ex-CEO e outros três executivos em março de 2025.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também abriu dois inquéritos administrativos no final de janeiro deste ano. Um deles investiga a atuação dos bancos nas operações de risco sacado, que é o mesmo aspecto que justifica os mandados buscados contra Itaú, Bradesco e Santander.

As ações da Americanas ficaram distantes dos níveis anteriores ao escândalo, apresentando uma queda significativa nos últimos doze meses, apesar de a companhia afirmar que está atenta ao retorno de investidores institucionais. Atualmente, as ações estão avaliadas em R$ 4,23, comparadas ao pico de R$ 28 alcançado em 2020, durante a pandemia.

Fonte: timesbrasil.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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